Crédito privado: ofertas de debêntures recuam no primeiro trimestre de 2026, mas Anbima diz que não há 'crise' (Boris Zhitkov/Getty Images)
Repórter de finanças
Publicado em 23 de abril de 2026 às 12h43.
A oferta de debêntures no mercado secundário recuou no primeiro trimestre de 2026 frente ao último trimestre de 2025: de R$ 296 bilhões para R$ 236,1 bilhões, é o que mostrou o panorama do mercado de capitais da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
No mercado primário, também houve queda: de R$ 175,04 bilhões para R$ 99,32 bilhões no mesmo período — uma queda de aproximadamente 43%. Somado a isso, houve uma abertura dos spreads das debêntures indexadas à taxa DI, refletindo sinais de estresse no mercado, indo de 1,31% em 13 de março de 2026 para 1,66% em 20 de abril deste ano. O spread é o percentual acima do retorno de títulos públicos que as empresas oferecem. E quando eles sobem, é sinal de que a demanda diminuiu, pois o investidor está enxergando mais risco.
Mas, para Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, não há uma crise em vista. Essa abertura dos spreads acontece, em parte, por uma questão de realocação de fluxo que já era previsa.
“Muita gente pergunta se é uma crise, se há algum tipo de disrupção. Eu acho que não, ajustes no spreads especialmente num mercado secundário tão líquido, é até certo ponto saudável, para que você tenha coerência entre o momento que você está vivendo e os impactos no mercado de capitais”, comenta.
Mas ele afirma: o mercado de capitais está cada vez mais conectado a economia real. “Então é natural num cenário que você tem questões macros, seja de taxa de juros, realocação de fluxo, seja de guerra ou seja político, que você acabe sentindo isso”, explica.
Cesar Mindof, diretor da Anbima, também relembra que os spreads das debêntures também estavam muito amassados no ano passado. “Houve um momento de fechamento da curva, estava muito apertado, e em um cenário de incerteza tanto externa como local, é natural que tenhamos uma reação desses spreads, mas não é algo que vemos como descontinuidade.”
A queda nas emissões de debêntures reflete um cenário de custo de financiamento mais alto e maior incerteza sobre a colocação dos papéis. Isso afeta a precificação e reduz o apetite das empresas por novas captações, especialmente de longo prazo, levando à retração recente no volume emitido.
“É natural que quando você tem esse tipos de ruídos, você tenha uma acomodação de mercado, até entender quais são os níveis que os emissores estão dispostos a emitir e os investidores estão dispostos a comprar”, diz Maranhão.
Segundo sua leitura, esse movimento não indica uma ruptura estrutural, mas sim um ajuste de ciclo. Com os juros ainda elevados e um mercado ainda em processo de reequilíbrio, menos companhias se mostram dispostas a acessar o mercado nesse momento, o que naturalmente reduz o volume de novas emissões.
“A tendência é de acomodação e não veja um crescimento bastante relevante nos próximos meses”, aponta o executivo.
Para os próximos meses, a expectativa é de acomodação. A avaliação é de que o segundo trimestre deve ser marcado por estabilidade, com baixa probabilidade de aceleração relevante nas emissões. Isso ocorre porque o mercado ainda busca um novo ponto de equilíbrio, tanto no primário quanto no secundário, e a retomada mais consistente tende a levar tempo.
Esse processo, no entanto, não é visto como permanente. Trata-se mais de uma fase de ajuste do que de uma mudança estrutural. Fatores como o cenário macroeconômico e até o ambiente político, incluindo o ciclo eleitoral, podem influenciar a dinâmica à frente e alterar a trajetória esperada.
E, apesar do meio mais pressionado, as debêntures incentivadas ainda chamam a atenção. Neste primeiro trimestre, elas bateram recorde de participação, em 43,8% do total das ofertas. Já o prazo também é destaque: acima de 10 anos representa 42,8% do total.
"Isso mostra a consolidação do mercado de debênture incentivada no Brasil como parceira das companhias e na viabilidade de projetos estruturante do país, a exemplo de energia, rodovias e saneamento. Esse instrumento que, de fato, se consolidou para financiar os grandes projetos de infraestrutura no país e financiar o passivo de longo prazo das empresas", conclui Mindof.