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Empresas avaliam trocar a B3 por bolsas americanas. Entenda as razões

Inter, Locaweb, Americanas e Natura se preparam para negociar seus papéis nos EUA. Por trás dessa movimentação, está a busca por estabilidade e menor exposição ao risco Brasil
Loja da Natura, em São Paulo: boa parte de suas receitas está fora do País - a companhia é dona das marcas The Body Shop, Avon e Aesop (Exame/Leandro Fonseca)
Loja da Natura, em São Paulo: boa parte de suas receitas está fora do País - a companhia é dona das marcas The Body Shop, Avon e Aesop (Exame/Leandro Fonseca)
Por Estadão ConteúdoPublicado em 28/11/2021 17:52 | Última atualização em 29/11/2021 08:02Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Um grupo de empresas brasileiras com ações na B3 -- entre elas Inter (BIDI11, BIDI4), Locaweb (LWSA3), Americanas (AMER3) e Natura (NTCO3) -- se prepara para negociar seus papéis nos Estados Unidos. Depois de o país ter visto um movimento de companhias financeiras abrindo capital diretamente em Nova York, como a XP e a Stone, agora empresas tradicionais, que já têm papéis listados no mercado de São Paulo, buscam migrar para o exterior.

Por trás dessa movimentação, está a busca por estabilidade e menor exposição ao risco Brasil, além da facilidade de acesso a novos investidores para financiar ambições de internacionalização. Até sexta-feira, o índice S&P 500 registrava alta de 22% no ano, enquanto a Nasdaq exibia variação de 20%. Na contramão, o Ibovespa amargava baixa de 14%.

Para fazer esse movimento rumo a Nova York, as empresas terão de abrir uma sede lá fora - a Natura, por exemplo, deve optar por uma holding. Na semana passada, o conselho do Inter deu o aval para a mudança. Já a Locaweb, de serviços digitais, e a gigante Americanas estão se organizado para trilhar o mesmo caminho.

Mas o que muda na prática? As empresas passariam a ter uma dupla listagem em Bolsa - com recibos de suas ações (os chamados BDRs) oferecidos na B3, mas tendo os EUA como o mercado principal para a negociação dos seus papéis. E passariam a se reportar também ao regulador americano.

Do lado dos investidores, em vez de ter nas mãos diretamente ações da companhia, passariam a ter acesso aos BDRs. E aí, além do risco da variação do mercado, teriam de enfrentar as flutuações do câmbio. Se alguma empresa vier realmente a mudar seus papéis para os EUA, o investidor local terá dois caminhos: receber o valor equivalente ao papel em BDR ou, então, vender a ação.

As empresas brasileiras com planos engatilhados para mudar a listagem de suas ações para os Estados Unidos afirmam que o movimento poderá agilizar a captação de recursos para avançar em estratégias de internacionalização. Mas, além disso, a migração pode servir a outro propósito: fugir da aversão do mercado internacional ao Brasil em tempos de turbulência política e econômica.

Segundo o sócio do PGLaw e professor na USP, Carlos Portugal Gouvêa, a imagem do Brasil hoje não é boa. “Muitos investidores internacionais deixaram de admitir a compra de ações de companhias brasileiras em razão das fragilidades de nosso sistema societário”, afirma. “Precisamos de reformas para proteger os direitos dos minoritários de forma urgente. Do contrário nosso mercado vai gradualmente desaparecer ou virar algo apenas para investidores locais menos sofisticados.”

Tanto é assim que a lista de empresas de malas prontas para Nova York não para de crescer. Na semana passada, o banco Inter pavimentou o caminho para ir ao exterior. Os acionistas aprovaram uma reorganização societária para que o negócio se reposicione como uma companhia global de tecnologia, e não um concorrente local do setor financeiro.

A ideia é acessar o “mercado de capitais mais maduro do mundo, com mais liquidez e volumes negociados”, divulgou a empresa. O Inter abriu capital na Bolsa brasileira em 2018, em um momento em que empresas com pegada digital escolhiam os Estados Unidos - a PagSeguro, por exemplo, chegou à Nasdaq na mesma época.

Testando as águas

Outro caso de migração de ações é o da empresa de tecnologia Locaweb, que abriu capital na B3 no início de 2020, atraindo fundos estrangeiros para o setor brasileiro de tecnologia.

A oferta abriu as portas para que outras empresas do setor vissem a Bolsa local como opção para acelerar os negócios. A Locaweb já fez diversas aquisições no mercado desde a abertura de capital. Agora, com mais musculatura, quer avançar fora das fronteiras - por ora, a companhia diz que a migração está apenas em fase de estudo.

Para a Natura, uma eventual troca refletiria o fato de que boa parte de suas receitas está fora do País - a companhia é dona das marcas The Body Shop, Avon e Aesop. “O grupo Natura &Co está pronto para se dedicar à organização de sua estrutura corporativa, de modo que ela reflita melhor a atual distribuição geográfica e seu nível global de exposição”, disse a empresa, em nota.

Do lado das Lojas Americanas, controlada pelo trio de investidores Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, a explicação por trás do movimento pode ser mais complexa. No Brasil, a companhia anunciou que unificará suas classes de ações - o que fará com que eles tenham de abrir mão do controle.

Caso a listagem migre para os EUA, é possível que o trio volte ao comando. Lá, o mercado usa a ferramenta chamada ação plural, que permite que seu detentor tenha mais direitos (como mais votos, por exemplo).

Apesar de o grupo de empresas com planos de migrar suas ações para Nova York ainda ser pequeno, haveria mais empresas estudando a possibilidade. Para o sócio da área de mercado de capitais do escritório Mattos Filho, Caio Cossermelli, a eleição de 2022 ajuda a acelerar a tendência. “Esse movimento não é à toa. Muitas empresas enxergam que pode valer a pena estar listada em um mercado com mais estabilidade”, frisa.

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