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Em semana rara, 21 bancos centrais definem juros sob impacto inflacionário do petróleo

Guerra no Oriente Médio embaralha apostas sobre inflação e próximos passos da política monetária

De olho nas decisões dos bancos centrais: dois terços da economia global definem juros esta semana ((Photo by Anna Moneymaker / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via A)

De olho nas decisões dos bancos centrais: dois terços da economia global definem juros esta semana ((Photo by Anna Moneymaker / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via A)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 18 de março de 2026 às 05h00.

Esta é uma semana rara — e potencialmente histórica — para a política monetária global. Pela primeira vez desde dezembro de 2021, e segunda na história, os principais bancos centrais do mundo realizam suas reuniões na mesma semana. O chamado G4 é formado por Federal Reserve (Fed), Banco Central Europeu (BCE), Banco da Inglaterra e Banco do Japão.

O movimento ocorre em um contexto ainda mais amplo. Ao todo, 21 bancos centrais ao redor do mundo se reúnem para decidir os rumos das taxas de juros, incluindo também países como Canadá, Suíça, Austrália, Brasil (através do Comitê de Política Monetária - Copom), Suécia, Taiwan e Indonésia. Juntos, eles representam cerca de dois terços da economia global.

Principalmente, os bancos centrais do G4 precisarão decidir se irão ignorar o impacto inflacionário de curto prazo da alta dos preços da energia e se concentrar em fortalecer o crescimento econômico em meio à crescente incerteza geopolítica, ou se irão adotar uma postura mais conservadora para evitar um novo aumento da inflação.

No Brasil, o mercado financeiro já não parece tão convicto de que chegou a hora de cortar os juros. O que até poucas semanas atrás era tratado quase como consenso — uma redução de 0,50 ponto percentual na taxa Selic — transformou-se em um cenário cercado de dúvidas.

Petróleo muda o jogo

O pano de fundo dessas decisões é a escalada do conflito no Oriente Médio. Desde os primeiros ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o preço do petróleo saltou de cerca de US$ 73 para acima de US$ 100 por barril.

A disparada reacendeu temores inflacionários e levou a uma revisão generalizada das expectativas de política monetária para 2026. Para bancos centrais que vinham se preparando para iniciar cortes graduais de juros após dois anos de aperto, o choque no mercado de energia impôs um novo dilema.

Um dos canais mais diretos de transmissão de choques geopolíticos para a inflação global, preços mais altos do petróleo tendem a se espalhar rapidamente pela economia, pressionando custos de transporte, energia e alimentos. Caso a inflação, que vinha diminuindo gradualmente, volte a subir novamente, os bancos centrais podem ser forçados a adiar os cortes planejados nas taxas de juros ou, em casos extremos, considerar novos aumentos para evitar que as expectativas de inflação se consolidem.

Pausa agora, decisão depois

Apesar do ambiente mais pressionado, a expectativa predominante é que os principais bancos centrais mantenham os juros inalterados nesta semana. No Brasil, a maioria do mercado ainda acredita em uma queda, afinal, o Copom não mexe na Selic há dois. Ainda assim, o foco do mercado estará menos nas decisões em si e mais no tom das comunicações.

Se as sinalizações acompanharem o movimento recente dos mercados, a discussão pode mudar rapidamente de “se” haverá aperto monetário para “quando” ele poderá acontecer.

Os formuladores das políticas monetárias ainda carregam o peso de terem classificado como “transitória” a inflação global de 2021-2022, um erro que agora reforça a cautela diante de novos choques. Ao mesmo tempo, há o risco oposto: uma crise energética mais prolongada pode afetar o consumo doméstico, a confiança dos consumidores e o crescimento das economias, aumentando a pressão por cortes de juros.

Diante desse cenário, a tendência é de uma postura de “esperar para ver”, em que a manutenção das taxas não deve ser interpretada como paralisia, mas como prudência em meio à incerteza.

O que observar nos principais bancos centrais

Nos EUA, as atenções se voltam para o Fed, especialmente para o novo Sumário de Projeções Econômicas e para a confirmação da estimativa atual de um corte na taxa de juros este ano e no próximo. Os formuladores norte-americanos podem ter um pouco mais de margem de manobra em relação à inflação, pois o país é exportador líquido de energia e vê a valorização do dólar. Nesse cenário, os EUA provavelmente se beneficiarão da demanda por liquidez durante a guerra, o que deve ajudar a conter as pressões inflacionárias internas.

O mercado também acompanhará de perto a coletiva de Jerome Powell, em busca de sinais sobre o início — ou adiamento — do ciclo de cortes.

Na Europa, o BCE enfrenta um cenário delicado, com os preços do gás natural subindo cerca de 50% desde o fim de fevereiro. A alta dos rendimentos dos títulos já está apertando as condições financeiras, o que pode influenciar os próximos passos da autoridade monetária.

No Reino Unido, o Banco da Inglaterra aparece como um dos mais pressionados. Com inflação estruturalmente mais elevada, o país tem sido mais sensível ao choque de energia. As expectativas de mercado migraram de cortes de juros para a possibilidade de alta, refletindo o aumento dos riscos inflacionários.

Já o Banco do Japão enfrenta um dilema ainda mais complexo. Com cerca de 90% da sua energia importada, especialmente do Oriente Médio, o país vê crescer os riscos inflacionários ao mesmo tempo em que tenta preservar a recuperação econômica. Mesmo antes da guerra, o Banco do Japão já enfrentava um cenário desafiador: uma taxa de câmbio fraca e volátil, preocupações com a liquidez no longo prazo e um estímulo fiscal recorde a caminho. A fraqueza do iene adiciona pressão adicional ao cenário.

Considerando tudo isso, os riscos de inflação são alarmantes, mas as autoridades japonesas estão cautelosas em aumentar as taxas de juros muito rapidamente, por medo de prejudicar a recuperação da economia.

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