Eletrobras (ELET3/ELET6) com ou sem FGTS? Analistas respondem se vale a pena entrar na oferta

Período de reserva para participar do follow-on começa nesta sexta-feira; definição do preço está prevista para o dia 9 de junho
Eletrobras: oferta para privatização deve movimentar R$ 30 bilhões (Pilar Olivares/Reuters)
Eletrobras: oferta para privatização deve movimentar R$ 30 bilhões (Pilar Olivares/Reuters)
Beatriz Quesada
Beatriz Quesada

Publicado em 03/06/2022 às 06:00.

Última atualização em 06/06/2022 às 16:44.

A gigante estatal de energia Eletrobras (ELET3/ELET6) está prestes a ser privatizada via oferta de ações – e o prazo para participar dessa oferta começou na sexta-feira, 3. O investidor que quiser comprar ações da companhia tem a partir de hoje para indicar interesse, no chamado período de reserva, que termina em 8 de junho. A precificação da oferta acontece no dia 9, e as negociações das ações começam quatro dias depois, no dia 13 de junho.

O cronograma da oferta, no entanto, foi pressionado após uma decisão de uma juíza de plantão, neste domingo, suspender o encontro dos debenturistas de Furnas, controlada da Eletrobras. A etapa foi vencida nesta segunda, quando os debenturistas aprovaram que seja feito um aporte de capital de R$ 1,58 bilhão na Santo Antônio Energia. A autorização era condição para realização da capitalização.

O aporte de recursos aprovado pelos debenturistas é necessário para que a Santo Antônio honre o pagamento de uma disputa antiga com os participantes do consórcio que construiu a usina no Rio Madeira – que eram também acionistas da companhia. Esses sócios não vão injetar recursos porque o dinheiro será justamente usado para pagá-los. Com o assunto resolvido, a Eletrobras segue seu cronograma de capitalização. 

A oferta subsequente de ações (follow-on) promete ser a maior do ano na bolsa brasileira, movimentando em torno de R$ 35 bilhões. O governo vai deixar de ser acionista da empresa, vendendo 69,8 milhões de ações atualmente detidas pelo BNDESPAR e emitindo outras 627,67 milhões ações ordinárias da Eletrobras. 

É possível comprar as ações de duas maneiras diferentes: via FGTS ou diretamente. Analistas, no entanto, diferem se a oferta é vantajosa nas duas situações. Confira as análises:

Vale a pena comprar Eletrobras com o FGTS?

Como a Eletrobras é uma estatal, o governo permite que os trabalhadores usem parte de seus recursos acumulados no Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS) para investir na companhia. O investimento é feito por meio dos chamados fundos mútuos de privatização (FMP-FGTS) – que já foram usados quando a União vendeu ações da Petrobras e da Vale.

O principal benefício de investir com o FGTS está no potencial de rendimento. Atualmente, os recursos do fundo rendem 3% ao ano mais a atualização mensal da TR (Taxa Referencial) – rendimentos que devem perder para a inflação em 2022.

“Investir na Eletrobras com o FGTS é usar um dinheiro que está praticamente parado para obter retornos potencialmente muito maiores”, afirmou Ruy Hungria, analista da Empiricus (do mesmo grupo controlador da EXAME).

A expectativa é que os papéis da Eletrobras valorizem em torno de 40%, avançando para a casa dos R$ 60 após a capitalização. O ganho, no entanto, considera um cenário de longo prazo – e não há garantia de que o cenário vá se concretizar. 

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Por isso, o investidor deve ter os riscos em mente ao colocar o dinheiro do FGTS em um ativo volátil. A recomendação dos analistas é avaliar a carteira de investimentos e o momento de vida. Para aqueles que não possuem reserva de emergência, o dinheiro do fundo pode ser essencial em caso de demissão, por exemplo. E para os que ainda não são investidores, é arriscado dar o primeiro passo com esse tipo de investimento.

Para aqueles que já são investidores, a recomendação da Empiricus é investir – com a ressalva de avaliar a porcentagem que a Eletrobras vai ocupar na sua carteira. Isso porque, quem for investir via FGTS, pode aportar um valor mínimo de R$ 200 até o máximo de 50% do saldo existente e disponível no FGTS – limitado a um teto de R$ 50 mil.  

“O investimento não deve ultrapassar 5% do seu saldo total investido porque representaria uma concentração muito grande de portfólio. Uma carteira equilibrada contém outras ações e demais investimentos diversificados, como fundos e aplicações em renda fixa”, lembra Hungria.

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Vale a pena comprar Eletrobras sem o FGTS?

Existe também a opção de comprar as ações da Eletrobras diretamente, sem o uso do FGTS. Neste caso, o valor mínimo aplicado sobe para R$ 1 mil, e o valor máximo da aplicação dobra vai até R$ 1 milhão. 

Na avaliação da Empiricus, a Eletrobras é um bom investimento mesmo sem o FGTS. A casa de análise Nord, no entanto, discorda. “A Eletrobras é melhor que os +3% ao ano de rendimento do FGTS (perde para a inflação), mas não é melhor que diversas ótimas empresas que podemos adquirir na bolsa”, afirmou o analista Bruce Barbosa em relatório. 

Um dos problemas está no preço. Atualmente, a Eletrobras é negociada por volta de R$ 40 e iniciou o ano cotada perto dos R$ 30. Os papéis subiram 30% nos últimos meses, embalados com a perspectiva da privatização. Então, parte dos benefícios que a futura capitalização da companhia terá já foram incorporados no preço. 

Flávio Conde, analista de ações da Levante, concorda que a Eletrobras está cara, mas mantém uma posição mais dura e não recomenda investir na oferta nem mesmo com o FGTS. “O investimento não é ruim, mas está caro. Se as ações voltarem a cair para os R$ 30, voltam a ser convidativas”, argumentou.

Em sua avaliação, a queda pode ocorrer já nos próximos meses, quando a bolsa brasileira deve entrar em um período de volatilidade com as eleições presidenciais. A propósito, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas de intenção de voto, ameaçou revogar a privatização da Eletrobras caso ela ocorra. “Seria um processo muito complexo e difícil. Então, acredito que a ameaça seja apenas uma fala de campanha. Ainda assim, o risco não é desprezível”, disse.

Conde lembra ainda que a Eletrobras não deve demonstrar uma valorização  tão astronômica como aconteceu com Vale e Petrobras. “Setor de energia tem preço controlado, não acompanha uma commodity, como foi o caso de Vale e Petro. Sendo assim, o potencial de valorização é menor do que nos dois últimos casos”.