Ciclo de corte de juros é algo já precificado para gestor da Kinea.
Repórter de Invest
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 14h59.
A eleição de 2026 deve pesar mais no preço dos ativos do que o tão esperado ciclo de corte da Selic. Essa é a visão central do sócio e gestor multimercado da Kinea Investimentos, Ruy Alves, que acredita que o cenário político tem o potencial de causar mais barulho no mercado do que as decisões do Banco Central (BC).
Segundo Alves, um corte de 250 pontos-base na Selic — algo que já está no radar dos investidores — acabaria fazendo pouca diferença para o valor das ações ou do Real quando comparado à incerteza que uma eleição gera. O gestor alerta que o estresse político pode, ainda, pressionar o câmbio e fazer o dólar subir.
Se isso acontecer, o BC pode ficar mais reticente em seguir com os cortes planejados. Por conta desse cenário, a Kinea já começou a se mexer: reduziu posições em juros locais, no Real e na bolsa brasileira (B3), preferindo se distanciar de apostas muito direcionais enquanto a questão eleitoral não ganha contornos mais claros.
“Temos tido uma abordagem cada vez mais global, buscando capturar oportunidades onde elas estiverem. Como nossos fundos podem operar fora, temos essa prerrogativa de não precisar encontrar a oportunidade apenas no Brasil”, explica o gestor, reforçando “expectativa de que o BC comece a afrouxar a política monetária no 1º trimestre.”
Ele ressalta, ainda, que errar tanto o tempo de corte da Selic quanto a leitura do fiscal podem prejudicar o desempenho de alocação dos investidores.
Essa cautela com o calendário político e fiscal não é exclusividade da Kinea, mas é vista sob óticas diferentes. O sócio da Asset1, Marcello Siniscalchi, observa que a Selic ainda consiste no principal gatilho para manutenção da alocação em renda fixa e, ao longo do ano, a eleição vai ganhar, cada vez mais, importância nas discussões.
“Apesar de sempre considerarmos importante o nível dos juros e o que isso significa para a economia e para a alocação de recursos, entendemos que, em 2026, a definição dos rumos político-econômicos do País, em função do cenário eleitoral, será muito relevante para a trajetória dos preços dos ativos”, acrescenta Siniscalchi.
O especialista da Asset1 aponta que a maior atenção atualmente na renda fixa está na parte longa da curva de juros, que precifica as expectativas para a Selic no longo prazo. Se os investidores passarem a acreditar que um ajuste fiscal estrutural é provável após a eleição, o prêmio de risco da curva de juros, o retorno que os investidores exigem para comprar títulos de longo prazo, deve cair.
“De forma análoga, sinais que apontam para uma maior probabilidade da continuidade de uma dinâmica de aumento do endividamento público poderá se refletir no aumento do prêmio.”
A gestora mantém posições aplicadas nos vencimentos mais curtos da curva de juros, apostando que o BC promoverá um ciclo de afrouxamento monetário mais intenso do que o atualmente embutido nos juros futuros de curto prazo. Já nos prazos mais longos, a estratégia é mais cautelosa, diante das pressões de alta.
A estratégia da Asset1 tem passado, assim, por ativos de crédito isentos de impostos e papéis indexados à inflação, com uma preferência dos investidores por investimentos pós-fixados. Siniscalchi reforça que, em um ano como 2026, a gestão profissional será fundamental, pois o cenário político pode causar mudanças bruscas.