A semana terminou com um novo protagonista no roteiro da liquidação em Wall Street. Desta vez, o gatilho não veio de um balanço frustrante nem de um susto macroeconômico. Bastou um anúncio da Anthropic. O lançamento de novas ferramentas de inteligência artificial foi suficiente para virar o humor dos investidores e deflagrar um dos selloffs mais agressivos dos últimos anos no setor de software e serviços, com uma perda de até US$ 1 trilhão em valor de mercado nas áreas de software e serviços.
O estopim foi a apresentação de novos plugins para o Claude Cowork, agente de IA voltado ao ambiente corporativo. As extensões permitem automatizar tarefas profissionais como revisão de contratos, triagem de NDAs, elaboração de pareceres jurídicos, fluxos de CRM e análise de dados. O destaque ficou para o plugin jurídico, visto por investidores como uma ameaça direta a softwares especializados já consolidados.
Apesar de a Anthropic afirmar que os resultados exigem revisão humana, o mercado reagiu à mensagem de que a IA deixou de ser apenas um complemento e passou a disputar espaço com produtos tradicionais.
O efeito foi sentido imediatamente. O índice de software e serviços do S&P 500 caiu cerca de 13% em cinco sessões consecutivas, ampliando para aproximadamente 26% a queda desde o pico registrado em outubro.
A liquidação ganhou força ao longo da semana. Apenas em um único pregão, na terça-feira, 3, cerca de US$ 285 bilhões foram apagados de empresas de software, serviços financeiros e gestão de ativos. Entre o fim de janeiro e 4 de fevereiro, o total eliminado do setor de software e serviços chegou a aproximadamente US$ 830 bilhões. Com a continuidade das vendas no dia seguinte, estimativas passaram a apontar perdas próximas de US$ 1 trilhão.
Os índices setoriais refletiram a intensidade do ajuste. O iShares Expanded Tech-Software ETF (IGV) caiu 5% em um único dia e acumula retração de cerca de 27% desde o pico de setembro. A cesta de ações de software do Goldman Sachs recuou 6% no mesmo pregão, no pior desempenho diário desde abril.
Legal tech lidera as quedas
Empresas ligadas a dados jurídicos e serviços corporativos concentraram as maiores perdas. A Thomson Reuters, dona do Westlaw, recuou cerca de 18% em um único dia, no maior tombo diário de sua história. A RELX, controladora da LexisNexis, caiu aproximadamente 14%. A Wolters Kluwer perdeu cerca de 13%.
O movimento também atingiu nomes amplamente usados por grandes empresas, como Salesforce, Adobe, Intuit, Accenture e FactSet. O impacto se espalhou para fora dos Estados Unidos, com empresas de tecnologia da informação na Índia, como Infosys, registrando quedas próximas de 7%.
IA no centro da reprecificação
A reação marcou uma virada na narrativa do mercado. Até então, a inteligência artificial era vista majoritariamente como uma alavanca para tornar softwares mais eficientes. Com os anúncios da Anthropic, investidores passaram a discutir um cenário em que agentes de IA possam substituir parte das funções hoje vendidas como produtos de alto valor agregado.
O fato de os plugins serem open source e integrados diretamente ao modelo da empresa reforçou o temor de rápida replicação de soluções em áreas como jurídico, finanças, vendas e análise de dados.
Analistas avaliam que a correção reflete mais o medo de disrupção do que uma deterioração imediata dos fundamentos das empresas. Ainda assim, o tamanho das perdas indica uma mudança clara na percepção de risco.
A semana deixou um recado para Wall Street: a corrida da IA entrou em uma nova fase. E, desta vez, o ajuste começou não nos discursos, mas nos preços.