Dólar: moeda se valorizou temporariamente na guerra no Irã, mas depois recuou (Thomas Trutschel/Getty Images/Getty Images)
Repórter de Invest
Publicado em 16 de abril de 2026 às 09h04.
A guerra no Irã reacendeu uma das discussões mais antigas do mercado financeiro global: até quando o dólar dos Estados Unidos (EUA) vai dominar as reservas internacionais?
O tema voltou ao centro do debate depois que estrategistas do Deutsche Bank previram o avanço do chamado "petroyuan" — o uso do yuan chinês para precificar o petróleo — como consequência direta do conflito.
Para o banco, se países produtores de petróleo decidirem precificar o barril em moedas alternativas ao dólar, a hegemonia no mercado global de commodities começaria a ruir rapidamente.
A diretora executiva de câmbio do Deutsche, Mallika Sachdeva, pontuou à CNBC que as tensões no Irã podem ser lembradas no futuro como o ponto de virada que acelerou a erosão do "petrodólar".
A gestora Franklin Templeton publicou uma nota rebatendo a análise do Deutsche Bank, classificando-a como "extraordinariamente simplista".
O raciocínio do Deutsche ignora que os exportadores de petróleo têm interesse em receber em dólares, acrescentou a diretora de investimentos de renda fixa da gestora, Sonal Desai.
"O petróleo não é precificado em dólares simplesmente porque os EUA agiram por muito tempo como o policial do mundo", escreveu Desai.
Na visão dela, o dólar oferece algo que nenhuma outra moeda consegue replicar agora, que é o acesso a mercados de capitais mais profundos e líquidos, com um arcabouço jurídico e institucional que protege contratos. Construir essa infraestrutura para uma moeda alternativa leva décadas, não anos, segundo a gestora.
Ao longo de 2025, o dólar acumulou seu pior desempenho em mais de 50 anos, conforme dados apurados pela CNBC. O índice DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas globais, recuou quase 10% no ano.
A combinação de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed), o impacto da guerra tarifária lançada pelo presidente Donald Trump e questionamentos sobre a credibilidade fiscal dos EUA abalaram a confiança dos investidores.
Com o início do conflito no Irã, o dólar encontrou fôlego temporário, voltando a se valorizar frente às principais moedas e passando a se mover junto com o preço do petróleo.
Mas o efeito durou pouco, porque, à medida que cresceram as discussões de um cessar-fogo entre os países, o petróleo recuou e o dólar também.
O chefe global de estratégia de mercados do Brown Brothers Harriman, Elias Haddad aponta o yuan como o principal candidato a desafiar o dólar no longo prazo, mas reconhece os limites da China.
A moeda representa apenas 3% das reservas globais dos bancos centrais — ante mais de 50% do dólar — e o país ainda mantém seus mercados de capitais fechados ao fluxo internacional, detalhou o estrategista.
"Não há alternativa", disse Haddad à CNBC. "Todas as outras moedas estão muito longe de reunir as condições necessárias para substituir o dólar."
A ideia que mais tem ganhado espaço entre os especialistas, neste sentido, é de que a dominância do dólar nas reservas globais vai ser diluída aos poucos. E não em um movimento abrupto.