Dólar: moeda perde espaço como porto seguro (Julia Kuznetsova/Getty Images)
Repórter
Publicado em 8 de abril de 2026 às 05h31.
O cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos, Israel e Irã provocou uma inflexão imediata nos mercados globais e alterou a dinâmica do dólar, segundo análise do Banco MUFG.
A queda de até 16% no petróleo, combinada à valorização de ativos de risco e à retração dos rendimentos dos Treasuries, sinaliza o desmonte do prêmio geopolítico que sustentava a moeda americana durante o conflito.
O Brent recuou com a expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz e normalização do fluxo de petroleiros. Ao mesmo tempo, bolsas globais avançaram e o dólar perdeu força em um movimento amplo de risk-on.
A trégua reduziu, ao menos no curto prazo, o risco de uma escalada mais ampla no Oriente Médio. Para Derek Halpenny, chefe de pesquisa global do MUFG, o efeito imediato é negativo para o dólar e positivo para ativos de maior risco.
O banco avalia que o movimento reforça a divergência de política monetária entre os Estados Unidos e a Europa e pode sustentar uma reprecificação global de ativos.
“O dólar teve desempenho abaixo do esperado, dado o tamanho da alta nos preços de energia e, nessas circunstâncias, pode sofrer novas perdas no curto prazo”, escreveu em nota.
Apesar da reação positiva dos mercados, o MUFG aponta fragilidades no acordo e levanta dúvidas sobre sua sustentação. “Primeiro, quão crível é o plano de paz de dez pontos e as negociações que se desenrolarão nas próximas duas semanas?”, questiona Halpenny.
O banco também destaca incertezas sobre a condução política do lado iraniano. “Quem está negociando em nome do Irã e o regime tem uma liderança unificada capaz de fechar um acordo?”.
A posição de Israel também levanta dúvidas. “À primeira vista, Israel parece apoiar, mas o acordo não inclui o Líbano — o que aponta para uma possível fonte de divergência”, afirmou.
Para ele, o risco de escalada paralela permanece. “Se Israel continuar bombardeando o Líbano, o Irã permanecerá na mesa de negociações?”, disse o analista.
O relatório também destaca a ausência de clareza sobre o posicionamento de outros países da região.
“Também não ouvimos muito dos vizinhos do Irã na região”, afirmou.
No campo energético, persistem dúvidas operacionais relevantes, segundo Halpenny.
“Quão rapidamente o fluxo de petroleiros será retomado no Estreito de Ormuz?”, questiona. Segundo o MUFG, os impactos do conflito não desaparecem com o cessar-fogo. Para o banco, "os danos causados às instalações de produção e armazenamento terão impacto duradouro” e “os mercados de energia devem permanecer apertados por um período considerável.”
O novo ambiente favorece moedas que tiveram desempenho inferior durante o período de tensão. O MUFG aponta potencial de valorização para divisas como a coroa sueca (SEK) e o dólar neozelandês (NZD).
Por outro lado, moedas que se destacaram durante o conflito, como a coroa norueguesa (NOK) e a libra esterlina (GBP), podem perder força com a reversão do fluxo.
A análise também destaca fragilidades no Reino Unido. A economia apresenta maior exposição ao choque energético, com impacto direto sobre inflação e atividade.
Dados recentes de PMI indicam deterioração do sentimento empresarial e avanço expressivo nos custos de insumos. A inflação de alimentos pode atingir entre 9% e 10% até o fim do ano.
O aumento dos rendimentos levou à retirada de cerca de 20% das ofertas de hipotecas, evidenciando a rápida transmissão das condições financeiras para a economia.
O cenário permanece dependente da evolução das negociações nas próximas semanas. A sustentabilidade do cessar-fogo, o comportamento do mercado de energia e a reação dos agentes globais serão determinantes para a trajetória dos ativos.
O MUFG avalia que, apesar do alívio inicial, a sensibilidade dos mercados a novos desdobramentos seguirá elevada no curto prazo.