Dólar a R$ 5? A visão do economista que é Top 5 nas previsões do Focus

André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, vê espaço para real se valorizar mais em 2022, mas mantém cautela diante de eleições
André Perfeito, economista-chefe da Necton: uma das cinco instituições que mais acertaram a projeção para o câmbio de longo prazo em 2021 | Foto: Divulgação (Divulgação/Divulgação)
André Perfeito, economista-chefe da Necton: uma das cinco instituições que mais acertaram a projeção para o câmbio de longo prazo em 2021 | Foto: Divulgação (Divulgação/Divulgação)
Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

Publicado em 05/02/2022 às 07:45.

Última atualização em 06/02/2022 às 09:10.

O real iniciou 2022 com o melhor desempenho entre as principais moedas do mundo em relação ao dólar. A valorização supera 4% desde o início do ano: a moeda americana saiu da casa de 5,60 reais para 5,30 reais. Diante de um movimento tão intenso, a questão no mercado é saber o quanto mais o dólar pode cair e se pode chegar ao patamar de 5,00 reais. Para André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, o movimento de desvalorização do dólar deve continuar ao longo do ano, ainda que com alguns sobressaltos.

Perfeito fala com autoridade sobre a causa: ele fez parte de uma "elite" de economistas e instituições cujas previsões para o câmbio em 2021 se mostraram as mais certeiras de todo o mercado. É o chamado Top 5 do ranking anual do boletim Focus, do Banco Central, com projeções de câmbio para o longo prazo.

Em entrevista à EXAME Invest, Perfeito contou por que revisou sua projeção de câmbio para o fim de 2022 de 5,40 para 5,20 reais, enquanto a mediana do mercado -- segundo o Boletim Focus -- espera o dólar a 5,60 reais.

A chave para a queda do dólar, segundo ele, está na elevação da taxa básica de juros, a Selic, que chegou a 10,75% ao ano na última semana. Foi a oitava alta de juro desde março do ano passado, quando a taxa estava em 2%.  

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"O Brasil exporta duas coisas: commodities e juros. As commodities já estavam muito altas, mas a taxa de juro impedia que o fluxo viesse para o Brasil de forma relevante", afirmou Perfeito.

Embora se veja mais inclinado a uma nova revisão para baixo, o economista disse que mantém cautela por causa do período eleitoral. "Por essa razão, não mudei minha projeção do dólar para 5 reais."

Confira a entrevista com André Perfeito, economista-chefe da Necton.

Qual é a projeção da Necton para o dólar em 2022? A cotação deve continuar caindo?

Vejo o real mais forte contra o dólar. Revisamos, recentemente, nossa projeção de dólar para o fim de 2022 de 5,40 reais para 5,20 reais. Essa projeção considera dois fatores importantes. O primeiro é a balança comercial, que deve ser boa neste ano. O nível de preço das commodities está em patamar favorável e, como a atividade doméstica deve continuar fraca, a importação será menor, levando a um saldo positivo. 

O segundo motivo é o diferencial da taxa de juros. A Selic de 2% gerou disfuncionalidades no câmbio. O risco de emprestar para o Brasil era muito maior. Com a taxa de volta aos dois dígitos, o Brasil se torna mais atrativo. Isso gera fluxo de capital para o país, que deve se traduzir em um real mais forte para o fim do ano.

O Brasil exporta duas coisas: commodities e juros. As commodities já estavam muito altas, mas a taxa de juro impedia que o fluxo viesse para o Brasil de forma relevante. 

Considerando a queda do ritmo de ajuste sinalizada no último comunicado do Copom, o efeito da alta de juro no câmbio pode perder força?

O ritmo de ajuste foi entendido como mais do que adequado. Estamos com uma economia que deve crescer zero neste ano e com taxa de dois dígitos. É uma taxa bem elevada. Logo após o Copom, os juros futuros caíram, mostrando que o mercado está vendo o atual patamar como suficiente. 

A alta de juro pode ser boa até para a bolsa, pois o maior fluxo reduz o risco perceptível. O juro mais alto está sendo visto como bastante adequado para o país. Ainda mais considerando a elevada reserva brasileira em dólar. O risco em moeda estrangeira não existe. 

Pelas projeções colhidas pela Bloomberg, a taxa de juro real do Brasil é a maior para o fim de 2022, com 6,5%. Isso aumenta a atratividade do país. O segundo lugar será da Rússia, com 6,3%.

Isso considerando que a inflação não vai surpreender? 

Estamos trabalhando com a hipótese de que não haverá mais sustos na inflação. Isso porque os choques de energia elétrica estão comportados e vários componentes da inflação foram derivados de choques externos. Esse efeito deve ser mitigado pelo real mais forte. 

Os preços subiram tanto que é difícil continuarem subindo a taxas crescentes. Isso limita a alta da inflação. Estamos em um momento em que o resto do mundo começou a fazer aperto monetário, o que também pode nos ajudar indiretamente.

No curto prazo, as esperadas altas de juro do Federal Reserve podem impactar negativamente o real? 

O mercado já está imaginando quatro ou cinco altas de juros. Apesar da expectativa de alta, o real não deixou de se apreciar ao longo de 2022. 

Neste início de ano, quais foram os fatores determinantes para a valorização do real? 

Tem a ver principalmente com o ajuste das condições monetárias. Ou seja, a taxa Selic em dois dígitos. A taxa estava em patamar que não fazia frente ao risco Brasil. 

Uma coisa é pegar emprestado dos Estados Unidos a 0% e emprestar para o Brasil a 2%. Não é tanto spread. Outra coisa é pegar nos Estados Unidos a 3% e emprestar para o Brasil a 12%. 

Teremos eleições neste ano. Como esse evento pode mexer com o dólar?

Acho que já está um pouco no preço. A bolsa caiu sozinha no ano passado, enquanto todo o mundo subiu, e o real estava fraco em relação a outras moedas. Mas é óbvio que o mercado talvez estresse quando chegar o período eleitoral, entre setembro e outubro. Por essa razão, não mudei minha projeção [do dólar para o fim do ano] para 5 reais. A mediana do Focus está em 5,60 reais. Estou bem abaixo da mediana.

Até segunda ordem, do lado do presidente Jair Bolsonaro está o ministro Paulo Guedes. Não devemos ter grandes surpresas. Já o ex-presidente Lula tem sinalizado um caminho mais ao centro, com o ex-governador Geraldo Alckmin. O mercado não trabalha com a hipótese de que ele será radical caso vença a eleição. Isso também ajuda um pouco o câmbio.

Hoje, o senhor estaria mais inclinado a revisar sua projeção para cima ou para baixo?

Mais para baixo do que para cima.