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Do pão a celulares, itens ficam mais baratos com dólar recuando

Câmbio mais barato reflete em importados com preços menores

Dólar: divisa caiu 11,18% em 2025 (Deagreez/Getty Images)

Dólar: divisa caiu 11,18% em 2025 (Deagreez/Getty Images)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 25 de fevereiro de 2026 às 12h50.

Última atualização em 25 de fevereiro de 2026 às 15h12.

Fevereiro nem terminou e o dólar cai quase a metade do que caiu em todo 2025. No acumulado do ano passado, a moeda, que começou na casa dos R$ 6, recuou 11,18%. Nos primeiros dois meses de 2026, a divisa já recua 5%.

Hoje, o dólar chegou a atingir a mínima de R$ 5,118. Com isso, a moeda americana chega ao menor patamar em quase dois anos. O menor valor anterior visto foi no dia 21 de maio de 2024, quando atingiu a casa dos R$ 5,116.

Mas, no meio do emaranhado de cotações, a pergunta que os consumidores fazem é: qual é o impacto, de fato, na economia real? Segundo Antonio Corrêa de Lacerda, conselheiro federal do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e doutor em economia, no curto prazo, a queda da moeda é benéfica – mas no longo prazo, pode pesar no bolso do brasileiro.

“Não há dúvidas de que, no curto prazo, os benefícios são muito grandes, primeiro porque o dólar é um dos componentes fundamentais dos preços, portanto ele tende a diminuir a inflação”, explica.

Ou seja, quando o dólar cai na economia doméstica, os importados ficam mais baratos, o que diminui a pressão sobre a inflação. Isso aumenta o poder de compra dos consumidores.

O problema é que, no médio e longo prazo, se houver uma persistente valorização do real, ou seja, uma desvalorização do dólar, o dólar fica mais barato na economia. “Assim, ele desestimula a produção e a exportação de bens industrializados, aqueles que têm o maior valor agregado”, continua.

De acordo com o especialista, o ideal para a economia é uma taxa de câmbio próxima da estabilidade.

“Eu diria que hoje, ao redor dos R$ 5, nós estamos numa situação de equilíbrio. Portanto, isso traz os benefícios de curto prazo, sem comprometer o longo prazo.”

O pão do dia a dia fica mais barato

Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), explica que um dos mais importantes são os alimentos para o dia a dia. "Os fertilizantes acabam ficando mais baratos, porque são importados, e conforme utilizados na agricultura, é um redutor de custos que acaba chegando à mesa do consumidor final."

Além de fertilizantes, máquinas, tecnologia e algumas embalagens também são importadas, ficando mais baratas, o que reflete numa desaceleração de alimentos e de produtos básicos. "Produtos eletrônicos e bens duráveis também têm uma grande parcela de itens importados", diz.

Medicamentos, equipamentos médicos e peças automotivas também têm um processo de cadeia de produção global e, claro, alguns desses itens importados reduzem a pressão sobre os preços, favorecendo inclusive o acesso das famílias a esses bens duráveis.

Outro ponto é a relação de combustíveis e fretes. "O petróleo é cotado internacionalmente em dólar, então qualquer variação da moeda para baixo reduz a cotação dessa commodity, o que certamente chega na bomba no posto de gasolina", comenta Silva.

O resultado de tudo isso, novamente, é o aumento do poder de compra do brasileiro, ou seja, o salário valoriza. "O pão do dia a dia acaba sendo impactado e isso traz mais alívio na capacidade de compra dos salários brasileiros. Inclusive, até a classe média passa a ter mais acesso a comprar outros produtos e também a viagens internacionais a preços melhores."

Entretanto, ele também alerta: a desvalorização do dólar tem implicações negativas, como pressionar a balança comercial e a balança de serviços. "Como fica mais atrativo importar produtos e serviços, do outro lado dificulta a vida das empresas brasileiras em exportar os seus produtos."

Valorização do real ainda não reflete fatores domésticos

O dólar vem mostrando sinais de perda de força frente a diversas moedas no cenário internacional, e não apenas em relação ao real. "Não quer dizer que o Brasil esteja ganhando valor com a sua moeda", enfatiza Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Cofecon-SP).

Esse movimento reflete uma combinação de fatores externos, incluindo instabilidade econômica nos Estados Unidos e decisões políticas que geram incerteza, como mudanças nas tarifas e interferências na autonomia do Banco Central.

A leitura de gestores e economistas é que o dólar atravessa um período de desgaste estrutural, pressionado por fatores internos e externos aos Estados Unidos.

Para Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners, a confiança quase automática na moeda americana começa a ser questionada. Ele avalia que a saída recente de capital estrangeiro dos EUA, somada às incertezas sobre a trajetória da inflação e da dívida pública, vem sustentando um movimento de desvalorização do dólar há algum tempo.

Na análise do estrategista, as políticas adotadas por Donald Trump também contribuíram para esse cenário. O aumento de tarifas comerciais no ano passado elevou a incerteza sobre os rumos da economia americana e levou investidores a rever posições. Mais recentemente, a decisão da Suprema Corte que derrubou medidas do republicano teria ampliado as dúvidas sobre a força institucional do país.

Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, afirma que a sucessão de pacotes tarifários e os ruídos nas relações comerciais com parceiros históricos aumentaram a aversão ao risco, incentivando a migração para ativos como ouro e para outras moedas. Segundo ele, há hoje duas forças atuando na mesma direção: um dólar mais fraco globalmente e uma entrada relevante da moeda no Brasil, impulsionada pelo diferencial de juros.

Com a Selic em 15% ao ano, o Brasil se beneficia do carry trade, estratégia em que investidores captam recursos em países de juros baixos para aplicar onde as taxas são mais altas. Enquanto o Federal Reserve se aproxima do fim do ciclo de aperto monetário, o diferencial segue elevado.

Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, projeta que, mesmo com eventual queda da Selic ao longo do ano, o diferencial em relação aos EUA deve permanecer próximo de 10%. Para ela, o patamar ainda é suficientemente atrativo para sustentar o fluxo para o país. A economista também aponta que o dólar perdeu força globalmente por razões institucionais e geopolíticas.

Nesse contexto, pesa ainda a escalada de tensões no Oriente Médio. A Casa Branca tem intensificado a pressão sobre o Irã, com envio de navios e aviões de guerra à região e declarações mais duras, adicionando um novo componente de incerteza ao cenário internacional.

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