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“Digo há dez anos e repito: Brasil é um campo vasto para investir em tecnologia”, diz Camila Farani

Ex-jurada do Shark Tank fala, em entrevista exclusiva à EXAME, a respeito do futuro do mercado de startups e tech no país
Camila Farani: olhar atento a tecnologias emergentes, mas com abordagem 'pé no chão' para dosar riscos (Camila Farani/Divulgação)
Camila Farani: olhar atento a tecnologias emergentes, mas com abordagem 'pé no chão' para dosar riscos (Camila Farani/Divulgação)
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Karina Souza

Publicado em 09/08/2022 às 12:00.

Última atualização em 09/08/2022 às 12:16.

A torneira secou. Está aí uma boa expressão para resumir o investimento em startups em 2022. O aumento dos juros e da inflação, seguido por incertezas globais — guerra na Ucrânia, perspectivas de lockdown na China etc. — minou o campo fértil para o investimento nesse tipo de empresa ou, no limite, reduziu significativamente os valuations de empresas desse tipo em novas rodadas. Para Camila Farani, ex-jurada do Shark Tank e investidora há mais de dez anos, não se trata de um movimento eterno e, tampouco, somente com consequências negativas. “Estamos vivendo um darwinismo do setor. É comum, segue o ciclo econômico”, afirma a executiva, em entrevista exclusiva à EXAME, concedida em evento da NuvemShop — empresa da qual é conselheira — em São Paulo.

Dentro desse novo contexto, na visão da executiva, fundadores e investidores tiveram de aprender novas métricas para avaliar empresas e saber diferenciar o joio do trigo. De olho no futuro, ela projeta uma consolidação cada vez maior desse tipo de empresa — e, para aproveitar o melhor que esse novo momento pode oferecer, vai cursar uma especialização focada em M&As em Harvard no próximo ano. 

Acompanhe os principais pontos da entrevista com a investidora, abaixo:

  • Estamos vendo um ambiente mais duro para as startups, em termos de captação. Como você avalia esse cenário, como investidora?

Veja, a gente teve bons anos. Sou investidora há 11 anos, vivemos bons momentos dentro do ecossistema de startups. Na pandemia, vimos alguns valuations inflados, pela óbvia necessidade de que todo mundo precisava estar no digital. Agora acabou a pandemia, o cenário macroeconômico é outro. Eu costumo dizer que é quase um darwinismo do ecossistema: você tem um processo de seleção natural que as empresas que de fato têm fluxo de caixa sustentável, que ao mesmo tempo entendem que conseguem se equilibrar no médio e longo prazo. Isso fez com que os fundadores ficassem muito mais maduros, no cenário atual. As análises de ambiente interno e externo estão melhores, por exemplo.  Acredito muito que a gente aprende na dor. 

Ao mesmo tempo, os investidores estão mais cautelosos e conservadores para investir nos ilíquidos. Continuam querendo resultados, mas a forma de avaliar empresas mudou. Do meu lado, por exemplo, passei a avaliar muito mais como essas empresas são resistentes à crise. O que significa ver a capacidade dos fundadores na gestão de talentos, formação de novos líderes, capacidade de equalizar o caixa e ao mesmo tempo manter um time engajado de forma suficiente. Antes a preocupação era principalmente ganhar tração.

  • Qual a principal dificuldade que os fundadores enfrentam nesse momento?

Primeiro, resistência à frustração. No ambiente de negócios, na vida em geral, você vive uma gangorra emocional. Muito se falou do mundo VUCA, hoje eu prefiro falar do mundo FANI (Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível). Uma ideia que veio junto justamente com todas as variáveis que a gente já falou. Vejo muita dificuldade em lidar com a gestão 360. Manter o autoconhecimento e a saúde mental e física, espiritual, as quatro inteligências. Isso tá cada vez mais latente, independentemente do tamanho da empresa. 

  • Como você vê o ecossistema de startups daqui para a frente? 

Sou apaixonada e estudo muito isso. Ano que vem vou até fazer uma especialização em Harvard só de fusões e aquisições, olhando para o movimento como um todo de startups se consolidando para formarem um conglomerado a fim de obter ganho de market share. 

  • É um movimento "para  já"?

Não seria tão imediatista, mas é algo que está começando a acontecer. No ano passado participei de algumas operações desse sentido, com a OiMenu, empresa que investi no SharkTank, e outra, da Tem Saúde junto com a PartMed.

  • Há algum setor específico que você esteja olhando como promissor, dentro do setor de tecnologia? 

Eu continuo muito focada em e-commerce, edtechs, fintechs e na área de saúde. Hoje cada vez mais estou olhando o blockchain, ainda muito tateando o metaverso, ferramentas de criptoativos. Não necessariamente uma criptomoeda específica mas algo lastreado em blockchain. Acho que eu como investidora entendi o que tava acontecendo no mundo, e entendi que se você acaba deixando de se atualizar, você se vence por ativos. Empresas e startups boas passam e você não consegue aproveitar por falta de conhecimento. 

  • O que dá para detalhar desse investimento em tecnologias emergentes?

Embora eu seja uma investidora de startups, alto risco, ainda tenho um certo conservadorismo. Eu prefiro ver esse mercado um pouco mais maduro, um pouco mais consistente, não que não esteja, você tem boas empresas hoje, mas eu prefiro olhar um pouco mais de fora. Quando eu trabalhava com restaurantes, a gente tinha uma máxima de: “ah o restaurante abriu, ufa!” e eu dizia: “Espera ele lavar os pratos, daqui 45 dias a gente vai ver”. Sabe aquela coisa? Mantive isso. 

  • O cenário de contração, investidores mais cautelosos atrapalha a ascensão de novos negócios formados por mulheres?

No que depender de mim, não. Mas a gente precisa ser coerente com as estatísticas. Na pandemia, houve um número reduzido de startups de tecnologia fundadas por mulheres, mas nunca se falou em empreendedorismo feminino como hoje. Sou investidora da Betterfly, primeiro unicórnio social da América Latina, então sim, também estamos olhando com maior carinho pro movimento de pluralidade. 

No Sebrae, 50% das empresas são fundadas por mulheres. O que a gente precisa melhorar é o ambiente de capacitação, já que as empresas fundadas por elas têm uma taxa de mortalidade maior. É o empreendedorismo por necessidade, como minha mãe fez. Eu já fui por oportunidade, estudo para fazer isso cada vez melhor e acho que esse é o caminho. O ElaVence veio para isso, trazer mais capacitação para mulheres empreendedoras.

  • Como você avalia o mercado de tecnologia no Brasil, de modo geral? 

O Brasil é um greenfield, e eu falo isso há dez anos seguidos. Se você olha o tamanho do nosso mercado consumidor, é gigante. Fora isso, o brasileiro é ávido por tecnologia. Estamos entre os cinco maiores países de acesso digital ao mobile. Fora isso, existe ainda um mercado muito… não vou dizer incipiente, a gente já passou a curva de introdução, a pandemia acelerou isso sem dúvida, mas tem muito mais coisa a se fazer ainda. 

Todas as vezes que eu vou para fora do país e passo um tempo vejo coisas que penso inacreditáveis. A partir disso, dá para ter dois olhares: o pessimista, de ‘isso nunca vai dar certo no Brasil’ e o otimista, que prefiro manter, de ‘isso ainda não aconteceu por lá, mas vai chegar em algum momento’. 

  • Olhando para o mercado externo, você é uma das fundadoras da Staged Ventures. O que espera daqui para a frente?

Cofundei com o Geraldo Neto e com o Flávio Pripas. A gente cria fundos de acordo com o investimento em ativos específicos. Vai ser divulgado em breve nosso primeiro investimento, mas ainda não posso dar detalhes. A ideia é investir em empresas que já encontraram seu product market fit, estejam num pré-série A ou indo para um série B. Todo o nosso trabalho é para fazer a captação naturalmente em dólar. Meus dois sócios moram fora. 

  • Não pensa em morar fora? 

Por enquanto não. É uma vontade que vem e volta. Eu amo meu país, gosto muito do Brasil. Tá no meu radar, mas não agora.