Depois de subir mais de 100% no ano, até onde vai a Embraer?

Com a pandemia, os papéis da companhia caíram ao menor patamar em mais de 11 anos, mas, desde então, vivem reviravolta; entenda as razões
Modelo de carro voador, ou eVTOL, da Embraer: um dos pilares que sustentam a recuperação das ações | Foto: EmbraerX/Divulgação (EmbraerX/Divulgação)
Modelo de carro voador, ou eVTOL, da Embraer: um dos pilares que sustentam a recuperação das ações | Foto: EmbraerX/Divulgação (EmbraerX/Divulgação)
Paula Barra
Paula Barra

Publicado em 16/07/2021 às 13:37.

Última atualização em 16/07/2021 às 20:15.

Em um ano e meio, as ações da Embraer (EMBR3) viveram uma reviravolta. Saíram da casa dos 19,73 reais no fim de 2019 para 5,77 reais em outubro de 2020, queda de 70%, quando atingiram o menor patamar desde 2009. De lá para cá, os papéis entraram em escalada meteórica, acumulando alta de mais de 210%. Só neste ano, a valorização é de 103%, o que coloca os ativos como a quarta melhor rentabilidade do Ibovespa até o momento.

A arrancada não foi irracional. Pelo menos três fatores são citados por analistas como importantes para sustentar esse movimento. São eles:

  1. Desconto excessivo: o mercado começou a projetar o pior dos mundos para a companhia quando estourou a pandemia, deixando as ações baratas em bolsa;
  2. A encomenda de até 80 jatos E195-E2 pela companhia aérea canadense Porter Airlines;
  3. E o que é considerado a cereja do bolo: a sua subsidiária EVE Urban Air Mobility Solutions, criada em outubro do ano passado e que atua no desenvolvimento de veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOLs).

Ontem, 15 de julho, a Eve e a EDP Brasil (ENBR3) assinaram um acordo de pesquisa para desenvolvimento de projetos de infraestrutura para aplicação comercial de seus "carros voadores", os eVTOLs. No começo de junho, a Eve firmou parceria com a Helisul Aviation em mobilidade urbana, com pedido inicial de até 50 eVTOLs.

Também no radar da Eve, a companhia disse, na metade do mês passado, que está em negociações para uma possível fusão com a Zanite Acquisition, uma empresa de capital aberto dos Estados Unidos com propósito específico (SPAC, na sigla em inglês) para aquisições. O acordo pode avaliar as empresas combinadas em cerca de 2 bilhões de dólares.

"Esse é um mercado ainda subexplorado e com potencial de ter um crescimento exponencial muito difícil de prever. Falam que essa operação pode ser avaliada em 2 bilhões de reais, é um valor muito acima do que qualquer analista de mercado teria previsto para essa divisão de negócios. Esse é um mercado aparentemente muito promissor e que deve vir bem forte", disse o analista Marcel Zambello, do BTG Pactual digital.

"Grande parte do mercado está vendo a possibilidade dessa fusão, que possibilitaria que a companhia fosse lançada na Bolsa americana e levantasse novos recursos. Isso sem dúvidas poderia impulsionar bastante o projeto", comentou Ilan Arbetman, analista de Research da Ativa Investimentos.

Para Arbetman, não há dúvidas de que esse pode ser um mercado muito grande para a empresa. "E a partir do momento em que ela passa a ter dificuldades em mercados tradicionais, especialmente na parte comercial, quando os investidores veem um crescimento dessa forma, claro que chama atenção aos olhos", apontou.

Até onde pode ir essa alta?

Apesar das boas expectativas para a divisão Eve, os analistas se mostram cautelosos com o papel, principalmente porque a pandemia ainda afeta o carro-chefe da empresa, que é a parte comercial.

"O principal vetor de crescimento da Embraer tem sido a parte comercial. Mas estamos com uma visão receosa sobre a retomada dessa divisão, especialmente nos voos internacionais. A demanda doméstica até está voltando, mas a internacional ainda vai demorar. Por isso, temos uma visão neutra para a ação", disse Zambello.

Na visão dele, para projetar novas altas para a ação, precisaria ver uma retomada do tráfego internacional nas companhias aéreas. "Olhando para os números da Azul e Gol, que operam mais voos regionais e capitais, a demanda até tem retornado, mas a Latam, que tem maior exposição a voos internacionais, está sofrendo mais", pontuou o analista.

Arbetman segue na mesma linha e vê com cautela a parte comercial. "A divisão comercial, que é o carro-chefe da empresa, ainda vai ter uma dificuldade muito grande em 2021 e 2022. Vejo números mais normalizados somente em 2023. Mas parte dessa volta também já pode estar no preço", comentou.

Há também uma certa cautela com a própria Eve, uma vez que o projeto ainda é muito embrionário, embora promissor. "Começou em outubro de 2020, a própria Embraer ainda está desenvolvendo o time, as competências e mapeando os processos. Ainda tem bastante coisa a ser feita", ponderou o analista.

Depois da forte arrancada desde o fim de outubro do ano passado, as ações da Embraer atingiram o topo desse movimento no dia 15 de junho, quando batarem em 21,56 reais. Desde então, as ações passam por um movimento de correção na Bolsa, acumulando até hoje desvalorização de 19%. Nesta sessão, caíram 4%, para 17,54 reais.