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Depois do TACO, vem aí o Nacho: petróleo, Irã e Trump entram no cardápio de Wall Street

Com Ormuz fechado, Goldman Sachs vê Brent a US$ 90, Citi projeta US$ 150 e mercado recalcula risco de recessão nos EUA

Nacho: nova sigla ganha Wall Street (Imagem gerada por IA)

Nacho: nova sigla ganha Wall Street (Imagem gerada por IA)

Publicado em 30 de abril de 2026 às 09h54.

Em maio de 2025, Wall Street inventou uma expressão para as ações de Donald Trump: TACO.

A sigla, cunhada pelo colunista do Financial Times Robert Armstrong, significava Trump Always Chickens Out — ou, em tradução livre, "Trump sempre recua". A lógica por trás disso era que o presidente dos Estados Unidos ameaçava com tarifas, os mercados despencavam, e Trump logo retrocedia.

O padrão virou estratégia de investimento para alguns traders no mundo todo, que passaram a comprar na queda do anúncio e vender na recuperação após o recuo.

Agora, quase um ano depois, Wall Street apresenta o prato seguinte do cardápio mexicano: nachos.

A sigla foi divulgada pelo colunista da Bloomberg Javier Blas na quarta-feira, 29, em seu perfil no X (antigo Twitter), após um investidor compartilhar o termo anonimamente.

Nacho, por sua vez, significa "Not A Chance Hormuz Opens" — "Não há chance de Ormuz abrir", em português.

Dessa vez, não se trata de uma piada sobre tarifa que pode ser revertida com um tuíte. É um veredito sobre uma crise geopolítica que já dura dois meses, fechou uma das rotas energéticas mais importantes do planeta e reestruturou os cálculos de inflação, crescimento e recessão no mundo.

O que está acontecendo no Estreito de Ormuz?

Em 29 de abril, o Irã voltou a fechar o Estreito de Ormuz, acusando os Estados Unidos de "violações de confiança". O presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou que Teerã não entraria em "negociações forçadas" enquanto o bloqueio naval americano nos portos iranianos continuasse.

A declaração encerrou uma janela breve de esperança. Em 17 de abril, o Irã havia permitido a retomada do tráfego comercial durante a trégua — e os preços do petróleo caíram imediatamente. O alívio durou menos de duas semanas.

O impasse tem raízes em fevereiro. Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares contra o Irã. Em resposta, a Guarda Revolucionária Iraniana proibiu a passagem pelo Estreito, atacou navios mercantes e posicionou minas na rota.

O canal, que antes movimentava cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural negociado no mundo, parou. A AIE caracterizou o episódio como a maior perturbação de fornecimento na história do mercado global de petróleo.

Um cessar-fogo em 8 de abril previa a reabertura — mas o tráfego nunca voltou aos níveis anteriores. Trump mantém sua posição: qualquer acordo deve incluir a entrega do urânio enriquecido iraniano e o fim do programa de enriquecimento. O objetivo declarado da guerra é garantir que o Irã jamais obtenha uma arma nuclear.

O impasse que Wall Street já precifica

O bloqueio do Estreito de Ormuz deixou de ser apenas uma crise diplomática e virou uma disputa sobre quem cede primeiro — e sobre quem consegue sobreviver por mais tempo ao custo econômico da guerra.

Para o economista Paul Krugman, vencedor de um Nobel e um dos analistas americanos mais influentes, três fatores travam a negociação: o ego de Donald Trump, sua leitura da situação real e a desconfiança do Irã em relação a qualquer acordo com Washington.

"O ego de Trump é tão frágil que ele jamais conseguirá admitir a derrota. Ele não suporta encarar a realidade de que, praticamente sozinho, conduziu os Estados Unidos à maior derrota estratégica de sua história. Por isso, ele busca desesperadamente obter concessões do Irã que lhe permitam se fazer de vítima", escreveu Krugman em seu perfil no Substack.

Krugman também criticou a forma como o presidente americano descreve a guerra. Para ele, "ele se ilude acreditando que pode obter concessões dos iranianos".

"Essas ilusões são reforçadas pelas pessoas com quem Trump se cercou – pessoas que lhe dizem o quão bem a guerra está indo para lisonjear seu ego. Consequentemente, Trump é claramente o presidente mais mal informado da história moderna sobre a real situação dos Estados Unidos em guerra", disse.

O economista citou como exemplo a declaração de Trump de que o Irã teria apenas três dias antes de seus oleodutos explodirem por falta de espaço para armazenar petróleo. "Sim, isso foi há mais de três dias. Não, os oleodutos não explodiram", escreveu Krugman.

A leitura de Krugman é que o Irã sabe que o bloqueio também pressiona os Estados Unidos e a economia global. Por isso, não teria incentivo para entregar a Trump uma concessão que permita ao presidente declarar vitória.

"Os iranianos sabem que o impasse de Ormuz também está prejudicando a América e a economia mundial", escreveu. "Além disso, sabem que Trump enfrenta uma derrota eleitoral clara em novembro, devido à raiva dos americanos com a guerra, seus efeitos na economia e o fluxo constante de mentiras de Trump."

O ponto central, segundo Krugman, é a falta de confiança. "Trump demonstrou que não é e nunca será um parceiro negociador confiável", escreveu.

O economista citou precedentes como tarifas unilaterais, sabotagem da Otan e cancelamento do acordo nuclear com o Irã negociado por Barack Obama.

"O Irã não fará concessões que enfraqueçam sua posição estratégica — o que significa que não oferecerá a Trump nada que ele possa usar para declarar vitória", afirmou.

Enquanto a negociação não anda, Wall Street recalcula o preço da crise.

O Goldman Sachs (GS) elevou suas projeções para o petróleo em nota de 27 de abril. O banco estima que o Brent tenha média de US$ 90 por barril no quarto trimestre de 2026, quase US$ 30 acima do nível anterior à crise de Ormuz.

Segundo o Goldman, um cenário que parecia apontar para superávit de 1,8 milhão de barris por dia em 2025 deve se transformar em déficit de 9,6 milhões de barris por dia no segundo trimestre de 2026.

O Citi foi além. Segundo o banco, se os fluxos de petróleo continuarem interrompidos até junho, o banco projeta que o Brent pode alcançar US$ 150 por barril e ter média de US$ 100 no quarto trimestre.

O Goldman também alertou que os estoques globais visíveis de petróleo devem cair para mínimas históricas mesmo que o Estreito de Ormuz reabra ainda neste mês.

O impacto já aparece nas projeções macroeconômicas. Em março, o Goldman elevou em 5 pontos percentuais sua estimativa de recessão nos Estados Unidos, para 30%, e revisou para cima a inflação e para baixo o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Para o consumidor americano, a crise chegou ao posto de gasolina. Na quarta-feira, o preço médio nacional da gasolina nos Estados Unidos atingiu US$ 4,23 por galão, alta de 40% desde o início do conflito em fevereiro, segundo a AAA.

A saída descrita por Krugman é um "não-acordo": os Estados Unidos encerram o bloqueio, e o Irã reabre o Estreito. Sem vencedor declarado. Sem concessão formal. Apenas duas partes parando de fazer o que fazem.

Essa alternativa estava sobre a mesa havia semanas. O Irã sinalizou disposição. Os preços do petróleo caíram temporariamente quando a possibilidade surgiu.

Trump recusou. E o NACHO segue servido

"Como isso vai terminar?", pergunta Krugman. "A menos que Trump esteja disposto a cometer crimes de guerra massivos — e que o exército americano concorde — vai terminar com o não-acordo que já estava na mesa há semanas: a América encerra seu bloqueio enquanto o Irã abre o Estreito."

Acompanhe tudo sobre:wall-streetDonald Trump

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