De olho em mercado consumidor, fundo canadense vai dobrar aposta no Brasil

O maior fundo de pensão do Canadá já tem participação em empresas brasileiras, como Nubank, Smart Fit e Iguá Saneamento, e pretende dobrar os investimentos no país nos próximos cinco anos
Tania Chocolat, diretora do CPPIB: investimentos no país devem dobrar até 2026 (Divulgação/Divulgação)
Tania Chocolat, diretora do CPPIB: investimentos no país devem dobrar até 2026 (Divulgação/Divulgação)
Bianca Alvarenga
Bianca AlvarengaPublicado em 29/03/2022 às 12:14.

O sobe e desce de inflação e juros habitou os brasileiros a investir como se estivesse em uma corrida de 100 metros rasos, em que o objetivo é cumprir o melhor desempenho no curto prazo. No entanto, para quem tem uma visão global, a ideia de percorrer uma maratona pode ser mais interessante. É assim que o maior fundo de previdência do Canadá, o Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB), tem avaliado os ativos brasileiros.

Em entrevista à EXAME Invest, Tania Chocolat, diretora do CPPIB no Brasil, disse que a visão de longo prazo permite que o fundo seja mais otimista com a realidade brasileira. Ao reduzir o ruído de 2022, como o causado pelas eleições presidenciais e pela disparada dos juros, o que fica em evidência é o potencial de crescimento do mercado consumidor do país nos próximos anos.

"O Brasil tem mercado consumidor gigantesco, com oportunidades de crescimento e consolidação relevantes, e queremos continuar aumentando nossa exposição a essas empresas. Pra nós, não é tão relevante se a economia vai crescer um pouco mais ou um pouco menos que o estimado, porque o que importa é que o Brasil vai avançar o longo dos próximos cinco anos", disse a executiva.

O fundo administra a previdência de cerca de 20 milhões de cidadãos canadenses, e possui um patrimônio de 430 bilhões de dólares, dos quais cerca de 20 bilhões estão na América Latina, principalmente em negócios do Brasil. Por aqui, o CPPIB tem participação em empresas como Nubank, Smart Fit, Cyrela, Votorantim, Aliansce Sonae e Iguá Saneamento.

Veja a entrevista completa abaixo:

Como você vê os riscos no cenário de investimentos no Brasil em 2022?

Por sermos um fundo de pensão, não temos a necessidade de adotar uma postura de proteção, podemos olhar o longo prazo, porque temos um cronograma de resgates dos recursos. Isso nos permite também ter um portfólio de diverficação de risco entre diferentes tipos de ativos, como equities e crédito, e uma diversificação regional. Hoje, a América Latina representa cerca de 5% do fundo, algo como 20 bilhões de dólares frente a um patrimônio total de 430 bilhões de dólares. Queremos dobrar esses investimentos na região nos próximos cinco anos, e esse plano não mudou, mesmo com a volatilidade e falta de visibilidade de cenário no Brasil.

Nessa visão de longo prazo, você acredita em um crescimento mais sustentável do país?

Temos uma visão bastante alinhada com o mercado sobre o que será o crescimento do Brasil e da América Latina ao longo dos próximos anos, mas acreditamos que alguns setores devem avançar muito e serem catalisadores do crescimento geral. O Brasil tem mercado consumidor gigantesco, com oportunidades de crescimento e consolidação relevantes, e queremos continuar aumentando nossa exposição a essas empresas. Pra nós, não é tão relevante se a economia vai crescer um pouco mais ou um pouco menos que o estimado, porque o que importa é que o Brasil vai avançar o longo dos próximos cinco anos

Quais são as áreas de interesse do fundo?

Continuamos com foco em setores subpenetrados e que ainda passarão por um processo de crescimento. Um sexemplo disso é o setor fitness, que deve avançar bastante no Brasil. Nós investimos na Smart Fit, líder desse segmento, quando ela ainda era uma empresa de capital fechado e depois ancoramos o IPO. Além disso, olhamos também para setores como sáude, educação, e-commerce, serviços — há muitas oportunidades.

Agora que a janela de IPOs fechou e muitas empresas estão postergando a abertura de capital, como aproveitar as oportunidades?

Quando tínhamos um momento favorável para IPOs e follow-on, continuamos observando as transações privadas [em empresas de capital fechado], mas não parecia haver uma gama de oportunidades interessantes. Agora que o cenário mudou, o pipeline cresceu. Muitas companhias estão precisando e querendo levantar capital para crescer, e muito dos potenciais IPOs ou follow-on se transformaram em oportunidades de investimento privado.

Isso já aconteceu no passado, e não deixamos de investir no Brasil porque a janela do mercado de capitais se fechou. Estamos bastante focados nas oportunidades privadas, mas acreditamos que esse mercado de public equities vai voltar a se abrir.

A alta dos juros impacta os planos?

O aumento dos juros muda o custo de oportunidade, tanto na visão de risco global e local. De maneira geral, isso não nos impacta diretamente porque nossa estratégia é long-short. Assim como temos investimentos e histórias de crescimento que defendem o portfólio num momento como esse, também temos uma composição no mercado de hedge. Isso não é necessariamente 100% balanceado, porque estamos nos protegendo de um risco macro.