Conflito no Irã: a escalada militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos — que pode se estender por semanas, segundo o presidente americano Donald Trump — recoloca no radar um ponto estratégico para a economia global: o Estreito de Ormuz (Foto por AHMAD GHARABLI/AFP)
Repórter
Publicado em 2 de março de 2026 às 16h32.
Os bombardeios que atingiram 131 cidades no Irã no fim de semana já produzem efeitos muito além do campo de batalha. Enquanto explosões são registradas em Teerã e mísseis cruzam o céu de Tel Aviv, o preço do petróleo disparava no mercado internacional e o chamado “índice do medo” saltava mais de 20%.
A escalada militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos — que pode se estender por semanas, segundo o presidente americano Donald Trump — recoloca um ponto estratégico no radar para a economia global: o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela relevante do petróleo e de fertilizantes comercializados no mundo.
Quando essa engrenagem é ameaçada, o impacto não fica restrito ao Oriente Médio. Ele percorre navios, contratos internacionais, moedas e chega à bomba de gasolina, ao frete e ao supermercado também do Brasil.
"A intensificação dos conflitos eleva a incerteza global, com prováveis mudanças nas taxas de câmbio e pressões sobre os mercados de commodities", afirma Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.
Segundo economistas consultados pela EXAME, o risco de interrupção nas rotas estratégicas pode gerar um choque de oferta, o que significa menos produto disponível e preços mais altos.
A seguir, as cinco principais formas pelas quais essa guerra pode pesar no bolso do brasileiro.
O mercado já reagiu. O barril do petróleo tipo Brent e o WTI passaram a ser negociados perto de US$ 80, tendo registrado altas superiores a 10% na após os ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Conflitos na região costumam provocar picos na commodity.
De acordo com levantamento da Lifetime, na invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o petróleo subiu 32%. Em episódios recentes envolvendo Israel e Irã, as altas variaram entre 7% e 13%.
Como o petróleo é referência global, qualquer movimento mais forte tende a se espalhar por diversas cadeias produtivas.
"Quando o preço do petróleo sobe, o impacto na gasolina e no diesel não é imediato. Existe um intervalo entre a compra do petróleo mais caro, o refino nas usinas e a distribuição aos postos. Esse processo leva, em média, de uma a três semanas. Só depois desse período é que o consumidor começa a sentir o efeito do aumento na bomba", afirma Paulo Feldmann, professor da FIA Business School.
Os economistas explicam que, quando o petróleo sobe, gasolina e diesel entram no radar. Mas no Brasil, o repasse não é automático e depende de decisão da Petrobras, além do percentual transferido por refinarias e distribuidoras ao consumidor final.
Feldmann explica, por exemplo, que embora o petróleo seja o principal componente da gasolina e do diesel, ele não representa 100% do custo final. Na prática, se o petróleo subir entre 4% e 5%, o impacto na bomba deve ser próximo de 80% dessa alta, o que resultaria em um aumento final ao consumidor entre aproximadamente 3,2% e 4%, nos cálculos do professor.
Danilo Coelho, economista, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF) observa, porém, que a Petrobras pode optar por segurar um eventual repasse desse aumento das preços do petróleo, como já ocorreu em outros momentos.
"A Petrobras controla o preço do petróleo, o preço da gasolina na bomba de combustível e uma boa parte disso está sendo impactado direto no balanço dela. Então é bem provável, principalmente em um ano eleitoral, que isso não seja tão repassado na íntegra e uma boa parte disso seja talvez absorvido pela própria Petrobras", diz Coelho.
Um repasse de alta tende a ser imediatamente feito pelas distribuidoras, e para cada aumento de 1% no preço da gasolina, vemos um aumento de 0,05 ponto percentual no Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), a inflação oficial do país, segundo André Valério, economista sênior do banco Inter.
Valério pondera que, uma eventual apreciação do real ajudaria a compensar o impacto do aumento da gasolina e, a depender da resposta do câmbio, até mesmo compensar.
"O preço do petróleo aumentando em dólares pressiona o custo dos combustíveis domesticamente, por outro lado, o Brasil é exportador líquido de commodities e tende a se beneficiar do aumento no preço do petróleo, com o real sendo uma moeda bastante sensível às variações nos preços do petróleo, portanto, podemos ver uma apreciação do real que compense o aumento do preço do petróleo", afirma.
Havendo repasse, porém, há impactos. O diesel é essencial para o transporte de cargas no Brasil. Se ele sobe, o custo do frete sobe junto. Isso pode encarecer produtos transportados por caminhões, desde alimentos até itens industrializados.
Serviços de transporte também entram na conta. "O impacto final para os preços ao consumidor depende do quanto desta elevação seja repassado das refinarias ao consumidor final", diz Marcela Kawauti. Ou seja, combustível mais caro pode significar aumento indireto em entregas, deslocamentos e outros serviços que dependem de logística.
"A gasolina e o diesel subindo no Brasil impactam praticamente tudo. Realmente, poucos assuntos são tão impactantes quanto gasolina e diesel no Brasil. Porque, de cara, eles afetam o transporte de mercadorias, o transporte das pessoas, todo tipo de transporte. E isso acaba afetando o orçamento das famílias, mas é claro que famílias de baixa renda sofrem muito mais", diz Feldmann.
E se o preço do petróleo subir devido a essa questão do conflito, isso tende impactar aqui toda a cadeia de alimentos também, de acordo com os economista. A questão é agravada pelo mercado de fertilizantes. O Irã é um dos principais produtores de ureia, insumo fundamental para o plantio de milho — uma das commodities mais importantes do Brasil, ao lado da soja.
O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Em 2024, o Irã respondeu por 17% das importações brasileiras, o que aumenta a vulnerabilidade do setor a choques externos.
"No caso dos fertilizantes, a alta internacional de preços traria efeitos importantes sobre a agropecuária brasileira", afirma Kawauti. O aumento do custo desse insumo encarece a produção no campo e, posteriormente, pode pressionar os preços de alimentos in natura e industrializados, segundo a economista.
A escalada do conflito também elevou o chamado "índice do medo" nos mercados internacionais, refletindo maior aversão ao risco. Em momentos assim, é comum haver pressão sobre as taxas de câmbio.
Kawauti destaca que o prolongamento do choque geopolítico pode chegar à inflação doméstica "de maneira indireta", dependendo de variáveis como a duração do conflito, as decisões de repasse de preços e "até mesmo o comportamento da taxa de câmbio neste contexto".
Um dólar mais alto, segundo a economista, encarece produtos importados e insumos cotados na moeda americana, como combustíveis e fertilizantes, ampliando a pressão inflacionária.
A princípio, porém, André Valério, do Inter, diz esperar que a trajetória dos juros continue seguindo a dinâmica inflacionária atual.
"Para o [Comitê de Política Monetári] Copom, acreditamos que nada muda a princípio, e continuamos esperando o início do ciclo de cortes para a reunião de março. Porém, a incerteza causada pelo conflito pode levar o Copom a encerrar o ciclo de cortes antes da hora, mas isso dependerá da duração e tamanho do conflito", observa o economista sênior.
Danilo Coelho também concorda, segundo ele, o impatco inflacionário dependerá de qual vai ser o resultado desse conflito. "Mas mesmo que seja um resultado negativo, que acaba impactando dólar e petróleo principalmente, é bem provável que isso não vai gerar um impacto tão grande aqui no Brasil ao ponto de alterar trajetória de inflação", conclui.