Queda das ações da CSN: companhia pretende vender ativos relevantes, incluindo o controle da operação de cimento e participações no braço de infraestrutura (Douglas Engle/Bloomberg)
Repórter
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 16h27.
As ações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) acumulam duas sessões consecutivas de forte pressão negativa após o anúncio de um plano de desinvestimentos voltado à redução do endividamento do grupo.
Na quinta-feira, 15, dia em que a estratégia foi divulgada, os papéis fecharam em queda de cerca de 3%, a R$ 9,95. Já nesta sexta-feira, 16, o movimento ganhou força: às 16h, a CSNA3 recuava 5,23%, figurando entre cinco maiores baixas do dia, em um pregão já negativo para o mercado, com o Ibovespa em queda de 0,57%, aos 164.622 pontos.
O gatilho para a reação foi o anúncio de que a CSN pretende vender ativos relevantes, incluindo o controle da operação de cimento e participações no braço de infraestrutura, com o objetivo de reduzir sua alavancagem em algo entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões — valor equivalente a cerca de metade da dívida atual do grupo.
O plano, aprovado pelo conselho de administração, faz parte de uma estratégia mais ampla de reorganização da estrutura de capital e busca levar a companhia, em até oito anos, a uma alavancagem considerada sustentável, próxima de uma vez a relação entre dívida líquida e Ebitda, além de dobrar o resultado operacional nesse horizonte.
Apesar de o diagnóstico sobre o endividamento elevado ser visto como correto, a forma como o mercado recebeu o anúncio foi marcada por cautela.
Analistas levantaram dúvidas sobre a execução do plano, o valuation dos ativos a serem vendidos e a efetiva disposição do controlador, Benjamin Steinbruch, em avançar com as alienações, especialmente em um ambiente de incerteza e com o início das vendas previsto apenas para o próximo ano.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) destacou em relatório nesta sexta o "senso de urgência" demonstrado pela administração, classificando o movimento como oportuno diante de um tema que, segundo o banco, vem pesando sobre a tese de investimento da CSN há anos e já se reflete nos mercados de dívida.
Para o BTG, a alavancagem atual, em torno de 3,5 vezes, é excessiva quando comparada à de pares locais e globais que operam, em média, perto de 1 vez dívida líquida/Ebitda.
"No que diz respeito ao Ebitda (orientação moderada de duplicação em 8 anos), consideramos que as estimativas estão bem acima das nossas previsões e do consenso, e precisamos de mais tempo para compreender o crescimento futuro da rentabilidade implícito", disse a instituição financeira.
Ao mesmo tempo, o banco reforça que o sucesso do plano depende fundamentalmente da execução. "Há um sentido de urgência bem-vindo, mas vemos riscos de execução", advertiu.
"Mantemos nossa classificação neutra para a CSN, refletindo as preocupações contínuas com a alocação de capital e a visibilidade limitada sobre o ritmo da desalavancagem (é necessária maior clareza e entrega na monetização de ativos para construir confiança), apesar de reconhecermos as melhorias operacionais marginais observadas recentemente", afirmou o BTG.
"No geral, mantemos uma perspectiva relativamente cautelosa para o grupo nos próximos trimestres e continuamos a ver oportunidades de risco-recompensa mais atraentes em outras áreas de nossa cobertura", complementou no documento.
Já na avaliação do Itaú BBA, o plano representa um passo estruturado na direção da desalavancagem. Após um webinar com a companhia, o banco destacou que a CSN pretende iniciar, em janeiro de 2026, os processos de venda de participações nos negócios de infraestrutura e cimento, com conclusão esperada para o segundo semestre daquele ano.
No caso da infraestrutura, a estratégia envolve a alienação de participações minoritárias em dois blocos de ativos, com prioridade para o chamado Bloco Sul, que reúne principalmente ativos operacionais, como a participação remanescente na MRS, além de Grupo Tora, Tecar e Tecon. Já no Bloco Norte estão ativos como TLSA, FTL e NELOG.
No segmento de cimento, o Itaú BBA ressalta que a CSN busca a venda direta da participação controladora na CSN Cimentos, sem descartar totalmente um IPO, embora reconheça as condições desafiadoras de mercado.
"Acreditamos que a divisão poderia ser avaliada a um múltiplo EV/EBITDA justo de 7-8x, o que implica um EV de R$ 9,0-10,5 bilhões, considerando o EBITDA dos últimos 12 meses. De acordo com nossos cálculos preliminares, a venda de uma participação de 100% reduziria a dívida líquida/EBITDA para 2,6-2,7x, em comparação com 3,15x no terceiro trimestre de 2025", disseram os analistas do Itaú BBA.
Ainda assim, o próprio relatório aponta que a empresa "reconhece a importância estratégica de reduzir a volatilidade dos resultados e manter a exposição a negócios mais resilientes, como energia e infraestrutura".