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Contra Wall Street e comprada em China: como investe a gestora que deu 5 vezes o retorno do Ibovespa

Em entrevista à Exame Invest, gestores contam quais são as principais estratégias dos fundos para este ano; long bias e long only tiveram respectivos retornos de 24,5% e 13,7% no ano passado

Thalles Franco (esq.), Victor Alcalay e Alexandre Miguel (RPS/Divulgação)

Thalles Franco (esq.), Victor Alcalay e Alexandre Miguel (RPS/Divulgação)

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Guilherme Guilherme

Publicado em 20 de janeiro de 2023, 13h38.

Última atualização em 20 de janeiro de 2023, 14h29.

Toda a volatilidade e incerteza provocadas pelas altas de juros e tensões geopolíticas se mostraram oportunidades para a RPS Capital. A gestora navegou com maestria em período de mares revoltos e conseguiu obter resultados expressivos no último ano. Seu principal fundo de ações, o RPS Selection, long only, teve retorno de 13,7% investindo apenas em papéis do mercado brasileiro. Já o RPS Long Bias, com maior liberdade de alocação, rendeu 24,5%, enquanto o Ibovespa, principal índice da B3, subiu meros 4,7%. Em entrevista à Exame Invest, os co-gestores do RPS Selection, Thalles Franco e Alexandre Miguel, e o analista do RPS Long Bias, Victor Alcalay, explicaram as estratégias por trás dos desempenhos.

Entre os acertos estiveram as apostas em commodities, que chegaram a representar 40% das posições dos fundos, e na tese de que a economia brasileira iria crescer acima do esperado pela média do mercado. "O mundo crescia bem forte, a inflação estava alta e os principais bancos centrais ainda estavam com uma política monetária bem frouxa. Era um cenário muito bom para as commodities", disse Thalles Franco. "Fazemos uma leitura top-down. Então, damos muita atenção para o cenário macroeconômico e procuramos entender quais setores serão os mais beneficiados."

Para o Long Bias, que bebe da mesma fonte, mas tem a opção de ficar vendido e investir no exterior, a aposta contra as bolsas americanas ajudou a puxar a performance em 2022. No ano, os principais índice de Wall Street registraram suas maiores quedas desde a crise de 2008, afetados pelo aperto monetário do Federal Reserve (Fed). A posição vendida foi carregada ao longo de todo ano, chegando a variar entre 15% a 20% do fundo". "Os juros americanos estavam só começando a subir [no início de 2022]. Sempre que o mercado está numa toada de aumento de juros, as ações tendem a sofrer mais. Sabemos porque já passamos por isso aqui no Brasil, inclusive em 2021", disse Victor Alcalay. "Mas o ano não foi tão fácil quanto pode parecer", relembrou.

A maior cautela durante as eleições, período em que o Ibovespa teve uma de suas melhores performances no ano, foi um dos arrependimentos. Porém, os resultados dos pleitos serviram para trazer novas ideias aos fundos. Uma delas foi o aumento de participação em construtoras de baixa renda, sob a ótica de que o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva irá incrementar os incentivos ao setor. Após as eleições, o fundo também adicionou empresas de saneamento ao portfólio, visando a possibilidade de privatização por governos estaduais. "São posições que não teríamos, dependendo do resultado das eleições", disse Thales Franco. Uma das maiores apostas é na Sabesp, em que os gestores veem espaço de a ação "pelo menos" dobrar, com uma privatização e aumento de eficiência. "Mas isso ainda depende se vão ou não mudar o marco do saneamento", comentou.

Para este ano, parte considerável da carteira da RPS está voltada para a China, que vem se reabrindo após anos de restrições pela Covid-19. A previsão da gestora é de que, além das próprias empresas chinesas, o setor de petróleo esteja entre os mais favorecidos pela retomada da segunda maior economia do mundo. "Deve haver um grande ímpeto por consumo e serviços, como vimos em reaberturas de outros países", disse Alexandre Miguel. Nesse cenário, afirmou, a commodity que mais se beneficia é o petróleo. No setor, as apostas da RPS estão diluidas entre as três maiores petrolíferas privadas da bolsa: 3R, PetroRecôncavo e PRIO. Mas o sucesso do mercado local, disseram os gestores, vai depender da nova âncora fiscal. E a expectativa, disse Franco, é de "uma âncora fiscal fraca e provavelmente não exequível".

Confira a entrevista com Thalles Franco e Alexandre Miguel, gestores do RPS Selection, e Victor Alcalay, analista do RPS Long Bias.

O ano começou com fortes altas no mercado internacional. As expectativas ainda são negativas para as bolsas americanas? 

Thalels Franco (TF): Ainda são negativas. O Federal Reserve vai ter que pesar a mão para fazer a inflação americana voltar para a meta. Os lucros das empresas Americanas deverão ser revisados para baixo. Continuamos short nos Estados Unidos.

O juro deverá ir acima de 5%?

TF: Irá superar ou ficar alto por mais tempo.

Sem chance de queda de juros nesse ano?

TF: Cortar juros não. Acho que está fora de cogitação nos Estados Unidos.

No Brasil o Banco Central deve cortar?

TF: Aqui é discutível. Tem probabilidade razoável de o juros cair no Brasil, mas não nos Estados Unidos.

O que precisa no Brasil para esse corte de juros? O fiscal?

TF:  O fiscal. A economia arrefecendo é uma parte importante para fazer a inflação convergir para a meta. Em um cenário de disciplina fiscal, o BC teria as ferramentas para reduzir os juros. O juro no Brasil está bem mais alto que o neutro. O problema é que tudo que vai depender da nova âncora fiscal que o PT vai querer implementar. Se o governo petista apresentar uma política fiscal clara, que o mercado confie e que seja exequível, eu acho que tem espaço para o juro cair. Senão, o juro vai ficar alto por mais tempo.

A perspectiva é pessimista nesse sentido?

TF: Sim. Acho que isso é um consenso, dado todos os discursos que o governo fez desde que assumiu. Por isso, o juro estressou tanto de lá para cá. A expectativa é de uma âncora fiscal fraca e provavelmente não exequível. Por isso, achamos que o juro não cai neste ano. Será uma decisão dura. A solução será o corte de gastos, que é sempre difícil para um governo de esquerda, ou o aumento da carga tributária, que o Congresso é bem reticente. Por isso, deverá ser uma solução pior. 

Com a perspectiva de queda de juros cada vez menor, o mercado deve rever as projeçõs de lucros das empresas?

TF: A despesa financeira já está nos números, mas agora deve ter revisões para baixo na receita, devido à desaceleração econômica.

Victor Alcalay (VA): Para empresas alavancadas é ainda pior, devido ao custo da dívida. A dívida alavanca a piora da companhia.

A perspectiva é mais negativa para a bolsa americana ou para a brasileira? 

VA: Para a americana. Quando se compara valuations com expectativas, a assimetria é pior na bolsa americana. Nas bolsas americanas, os múltiplos estão mais altos e temos mais convicção na revisão de lucros do que temos para a bolsa brasileira. Apesar de todo o pessimismo, a bolsa brasileira está barata e poucas mudanças podem mudar humor do investidor brasileiro. Então, temos maior conforto para ficarmos vendidos na bolsa americana do que na brasileira.

O espaço para cair é menor?

VA: Nao sei se menor, mas a assimetria é melhor. Para a bolsa brasileira subir, precisa de menos do que para a americana.

Dado o cenário, como a RPS tem se posicionado pra este ano?

TF: É uma carteira bem defensiva e pouco relacionada com PIB. Temos empresas boas e que são ganhadores de market share nesses cenários.

VA: E estamos evitando empresas alavancadas. Temos preferido companhias com caixa líquido ou com uma dívida bem confortável. Com o juro nesse patamar, é muito difícil conseguir gerar valor. É um ponto de atenção superrelevante, porque a economia já está enfraquecendo, o que reduz a receita, e além disso há um custo financeiro muito alto.

Quais setores devem ser os vencedores?

TF: Estamos no setor de atacarejo e de construtoras de baixa renda focadas no programa na Minha Casa Minha Vida. Temos também empresas do setor de energia e saneamento.

Construção de baixa renda e sanemanto são dois temas relacionados às eleições, certo ?

TF: Nós já gostávamos de construtoras de baixa renda antes, porque o governo Bolsonaro tinha uma visão positiva para o programa. Mas ficamos mais otimista com a vitória do PT, porque é um programa todo com a cara do partido. Mas, se o resultado fosse outro, também teríamos os papéis. Já saneamento foi totalmente atrelado às eleições de São Paulo e Minas Gerais. Temos Sabesp e Copasa. Nesse caso, se o resultado fosse outro, não teríamos. 

Para Sabesp, a maior entre delas, qual é a expectativa de alta para o papel, se uma privatização se concretizar?

TF: Esse papel pode pelo menos dobrar, se privatizado e bem tocado. Mas tudo depende do modelo de privatização. O grande upside é o ganho de eficiência operacional e de melhora de margem. Se for seguir o da Eletrobras, com a diluição do goveno por meio de capitalização, o ganho de eficiência será mais lento, o se reflete no upside.

A Sabesp tem outra vantagem. Baseado em como foi desse estruturado o marco regulatório, deve haver uma consolidação de setor nos próximos 10 ou 15 anos . A Sabesp, como o maior player do mundo, privatizada, seria uma das principais agentes de consolidação. Isso daria um upside adicional.

Há a possibilidade de a Sabesp partir para outros estados também?

TF: Se isso acontecer, o upside deve ser ainda maior. Achamos que o papel tem possibilidade de dobrar só pelo ganho de eficiência.

Até outubro do ano passado, a RPS tinha uma posição considerável em Eletrobras. Vocês tem ainda?

TF: Temos, mas menor do que já foi. É o caso da Sabesp um ou dois anos a frente. Gostamos da tese, mas é menor na carteira.

O preço da ação da Eletrobras está mais baixo do que na época da privatização. A empresa ficou barata? 

TF: Se olharmos para o lucro, está bastante barata.  Acreditamos que a empresa irá entregar ganho de eficiência e de margem nos próximos anos. Tirando isso, não dá para dizer que está barata.

VA: O grande risco da empresa, que, inclusive, tem feito a ação performar mal nos últimos meses, é o preço da energia elétrica. A Eletrobras está contratada para vender energia a um preço bom neste ano. Mas para o ano que vem já está mais descontradata. O risco é o preço de energia permanecer perto do piso por mais algum tempo. A parte operacional está bem direcionada. Não houve surpresas negativas nesse aspecto. Já o preço da energia a Eletrobras não controla. 

Como está a expectativa da gestora para a reabertura da China? Montaram alguma posição em cima dessa tese?

Alexandre Miguel (AM): Sim, este é um dos nossos temas macro. A expectativa era de que isso ocorresse mais para o segundo trimestre, mas  o governo chinês tem dado indícios que quer acelerar a reabertura. Então, montamos posição em commodities de novo. A que gostamos mais é o petróleo, pois deve haver um grande ímpeto por consumo e serviços, como vimos em reaberturas de outros países.

Como estão expostos à tese?

AM: Temos posições nas três empresas privadas, para não ficarmos concentrados em um único ativo. Não temos Petrobras. No Long Bias, que pode ter exposição internacional, temos exposição em empresas de tecnologia da China por meio de ETFs. 

Índices de Xangai e Hong Kong têm passado por uma frte recuperação desde novembro. O movimento deve continuar?

AM: Uma boa parte desse movimento foi de reprecificação. Até novembro, ainda pesavam as medidas de concentração de poder do Congresso do Partido Comunista. Antes disso, várias medidas para regulação do setor de tecnologia havia gerado muita aversão ao risco. Isso gerou descontos históricos nas empresas. Com a economia reacelerando mais rápido, pode haver revisão de lucro para essas empresas, o que manteria os múltiplos e gerariam uma valorização adicional nas ações. Essa é a nossa tese.

Com as economias americana e europeia mais fracas e a China mais forte, o fluxo global deve migrar para a Ásia? 

AM: Sim. Já temos visto a retomada desse fluxo, se aproveitando do movimento de reabertura. Para a Europa estávamos bem pessimsitas, mas a queda dos preço ernegia deixou o cenario um pouco menos negativo. Mas ainda há a discussão de até onde vai o aperto monetário, assim como nos Estados Unidos. Estamos mais otimistas para a China e vendidos ou neutro com Estados Unidos e Europa. 

Isso, de certa forma, também beneficia o mercado brasileiro?

VA: A força da China talvez seja um dos grandes motivos pelos quais temos visto um fluxo estrangeiro muito forte para o Brasil. Enquanto ficamos muito preocupados com política, com eleição, com esse tipo de coisa, o estrangeiro está vendo muito mais esse fluxo migrando de mercados desenvolvimento para emergentes. O fluxo de reabertura chinesa e o fortalecimento das commodities faz esse capital migrar de um mercado para o outro. Então países como Brasil e México também se beneficiam. É um fluxo generalizado.

Eles compram o índice e sobe tudo ?

VA: Exato. Desde o início do ano, o mercado brasileiro está superincerto sobre os gastos públicos, reforma tributária, o novo arcabouço fiscal. Já o estrangeiro é muito mais pragmático. Eles veem os Estados Unidos e a Europa desacelerando e a China aquecendo, então buscam regiões e mercados que se beneficiam. Temos visto muito fluxo para os índices, como EWZ, MSCI Brasil ou Ibovespa mesmo. Há bastante demanda do estrangeiro para o Brasil.

AM: E ainda mais pelo fato de o setor de bancos e commodities estarem com múltiplos baixos, eles compram com a perspectiva de um valuation atrativo.

Esse maior otimismo do estrangeiro é um sinal que eles não estão sabendo ler o mercado brasileiro?

VA: Acho muito difícil falar isso, até porque historicamente o estrangeiro sempre operou superbem na bolsa local. Mas talvez o foco seja outro. O estrangeiro olha muito mais com uma visão macro. É uma outra perspectiva. Não tem muito certo ou errado, apenas maneiras diferentes de enxergar.