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Conflito no Irã pode impedir Ibovespa de chegar aos 200 mil pontos?

Aversão ao risco pode interromper fluxo estrangeiro que deu impulso à bolsa brasileira e outros emergentes

Ibovespa: impacto do conflito com Irã no mercado brasileiro (Germano Lüders/Exame)

Ibovespa: impacto do conflito com Irã no mercado brasileiro (Germano Lüders/Exame)

Mitchel Diniz
Mitchel Diniz

Editor de Invest

Publicado em 2 de março de 2026 às 05h30.

Um conflito como o que ocorre agora no Oriente Médio costuma provocar aversão a investimentos de maior risco. Isso ocorre por causa da perspectiva de que uma situação de guerra gera uma contração da economia global e, sobretudo, nos países diretamente envolvidos no embate.  "Normalmente é ruim para o mercado de ações, com investidores tentando migrar para ativos mais seguros, como metais preciosos, títulos do Tesouro dos Estados Unidos e até setores mais defensivos", destaca William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. Nessas ocasiões é comum o investidor sair de países emergentes.

Uma das principais dúvidas agora é se o conflito vai inverter o movimento de realocação global que beneficiou o Ibovespa neste começo de ano. Até o fechamento da última sexta-feira, o índice de referência do mercado acionário brasileira acumulava alta de 17,2%. Foram 13 recordes em 2026, até agora. Na semana passada o Ibovespa teve o primeiro desempenho semanal negativo do ano, mesmo tendo chegado aos 192 mil pontos pela primeira vez, justo nesse período. O conflito no Oriente Médio vai impedir o índice de chegar aos 200 mil?

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, acredita que o movimento de realocação, conhecido como 'debasement', pode sim ser interrompido.

"Grandes chances de uma interrompida agora nesse mês de março, com uma realização de lucro um pouco mais alta", afirma. "A resposta do petróleo mais alto na economia americana é muito rápida. Provavelmente a inflação de março dos Estados Unidos vai ser bem alta o que pode diminuir a precificação de um corte de juros por lá. Todos esses movimentos tiram fluxo".

O diferencial de juros entre Estados Unidos e Brasil é um dos pontos de atração de recursos estrangeiros. Se o mercado projeta que o Federal Reserve vai voltar a elevar a taxa, essa diferença diminui. Por outro lado, a perspectiva de aumento do inflação no Brasil, com o petróleo mais caro, joga uma sombra sobre o ciclo de cortes na Selic, previsto para começar agora em março. Por aqui, o corte de juros é visto como essencial para o mercado de ações voltar a ser atrativo.

Efeito incerto na Petrobras

Os papéis da Petrobras estão entre os principais beneficiados pelo fluxo de capital estrangeiro na bolsa, por ser uma das empresas de maior peso do portfólio do Ibovespa. Mas uma alta no preço do petróleo nem sempre jogou a favor da companhia, lembra Castro Alves, da Avenue. "A Petrobras tem uma política de preço que não necessariamente repassa esses preços, ainda mais em um ano eleitoral. Em outros momentos, elevação de preço de petróleo já foi ruim para a empresa".

Já André Perfeito, economista do Garantia Capital, acredita que Brasil tem chance de se "beneficiar fortemente" com o momento, por ser superavitário em petróleo e derivados. O saldo comercial do segmento em 2025 foi de US$ 29,6 bilhões e correspondeu a 43% do saldo total.

"Se o preço do petróleo explode, a gasolina importada sobe, mas o petróleo que exportamos sobe também", explica o economista. "Essa situação singular da nossa história, que finalmente atingiu a autossuficiência, pelo menos comercial, do petróleo, muda tudo. O fluxo do Brasil com o mundo mudou."

Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, tem visão semelhante. "Acredito q o Brasil por ser exportador de petróleo não será especialmente afetado, mesmo q haja alguma aversão ao risco a partir desta segunda-feira".

"Se fosse há uns 2 anos atrás eu diria q com o aumento da aversão ao risco haveria uma corrida para ativos em dólar. Mas, como os últimos meses mostraram, isso não tem sido necessariamente verdade. Então, a chance do Ibovespa subir não é desprezível", conclui.

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