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Compass, primeiro IPO na B3 em 5 anos, cai 5,4% na semana de estreia

Em meio à pior semana do Ibovespa desde março, mercado reagiu a resultados do 1º trimestre e endividamento elevado após IPO

Pós-IPO da Compass: as ações da companhia, negociadas sob o ticker PASS3, acumularam queda de 5,44% desde a estreia, na segunda-feira, 12 (Cauê Diniz/Divulgação)

Pós-IPO da Compass: as ações da companhia, negociadas sob o ticker PASS3, acumularam queda de 5,44% desde a estreia, na segunda-feira, 12 (Cauê Diniz/Divulgação)

Publicado em 16 de maio de 2026 às 06h00.

A primeira semana da Compass na bolsa terminou longe do clima de celebração que marcou o retorno das ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) à B3 após quase cinco anos. Em meio a uma semana de forte aversão ao risco no mercado brasileiro, as ações da companhia, negociadas sob o ticker PASS3, acumularam queda de 5,44% desde a estreia, na segunda-feira, 12.

No primeiro dia de negociação, os papéis encerraram o pregão com recuo de 2,18%, cotados a R$ 27,39, após oscilar entre máxima de R$ 28,35 e mínima de R$ 27,60. Nos dois pregões seguintes, as ações caíram mais 2,52% e 1,39%, respectivamente.

Na quinta-feira, 14, houve uma leve recuperação, de 0,27%, após a divulgação do balanço do primeiro trimestre, mas o movimento perdeu força nesta sexta,15, com nova baixa de 1,74%.

A performance da Compass ocorreu em uma semana particularmente negativa para a bolsa brasileira. O Ibovespa acumulou queda de 3,71%, a pior desde a primeira semana de março, em meio à alta do petróleo, tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã e ruídos políticos domésticos.

No mercado internacional, o contrato do Brent para julho avançou 7,87% na semana, a US$ 109,26 enquanto o WTI acumulou alta de 5,89%, com o barril cotado a a US$ 101,02.

Flávio Conde, head de ações da Levante Investimentos, observa que o desempenho das ações da Compass precisa ser analisado dentro desse contexto macroeconômico adverso, somado à própria dinâmica de uma empresa recém-chegada à bolsa.

"Tem muita ação já conhecida e boa caindo por conta dessa semana difícil, com petróleo em alta e falta de acordo entre Donald Trump [presidente dos Estados Unidos] e Irã. Em um mercado de queda, é natural que ações que acabaram de entrar, ainda pouco conhecidas, caiam um pouco", afirmou.

O que mostrou o balanço da Compass

Dois dias após a abertura do capital da empresa na B3, a Compass reportou uma queda de 9% sobre o lucro líquido do 1° trimestre de 2025, ao fechar em R$ 382,2 milhões no mesmo período deste ano. Segundo a companhia, a piora se deveu às altas no resultado financeiro e na depreciação, "principalmente pelos novos projetos que entraram em operação".

O resultado financeiro líquido piorou em 15%, ficando negativo em R$ 424,6 milhões. A receita operacional líquida caiu 25% na mesma base de comparação, para R$ 3,16 bilhões. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), por outro lado, subiu 2% na comparação anual, para R$ 1,32 bilhão.

Conde também avalia que o balanço não trouxe catalisadores suficientes para atrair investidores no curto prazo. "Os resultados não desanimaram, mas também não deram motivo para comprar", disse. Segundo o analista, uma das principais surpresas negativas foi o aumento do endividamento líquido da companhia, que subiu 6% na comparação trimestral, passando de R$ 10,46 bilhões para R$ 11,12 bilhões.

O head de ações da Levante também destacou a queda de 25% na receita operacional líquida no trimestre, embora tenha ponderado que o Ebitda permaneceu resiliente, com alta de 2%.

"É um processo de aprendizado. As pessoas estão começando a conhecer a Compass. Ela vai ter que fazer mais reuniões públicas com analistas e investidores pessoa física para divulgar melhor a empresa", afirmou. "Se a gente tivesse em um mercado em alta, talvez as ações até subissem 2% ou 3%, mas nesse cenário já era algo mais ou menos esperado".

Parte do mercado vê com ceticismo a ação

O especialista em investimentos do grupo Axia Investing, Felipe Sant1Anna, avalia que o mercado já demonstrava ceticismo em relação à operação antes mesmo da estreia.

Segundo Sant'Anna, IPOs costumam ser momentos sensíveis para o mercado, com muitos investidores operando vendidos nos primeiros dias de negociação. "Nós temos um histórico aqui na bolsa brasileira de termos quedas em pelo menos nos primeiros dias de IPO", afirmou.

"Mas um ponto que pesa muito é que o IPO da Compass foi uma espécie de colete salva-vidas para a Cosan aliviar o caixa", disse. "Não foi uma oferta para crescer, abrir planta ou expandir operação",

A avaliação é compartilhada por André Matos, CEO da MA7 Negócios. Para Matos, o fato de a ação ter sido precificada no piso da faixa indicativa, em R$ 28, quando poderia chegar a R$ 35, já indicava demanda abaixo do esperado para a operação de R$ 3,2 bilhões.

"O primeiro balanço após a abertura de capital reforçou o ceticismo do mercado", afirmou. "O investidor olhou para a queda do lucro, retração da receita, despesas financeiras elevadas e um ambiente de Selic em 14,50% ao ano", disse.

Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, destacou que a relação da Compass com a Cosan entrou no radar dos investidores. "O mercado avaliou o nível de endividamento da empresa e a relação com a Cosan, levantando a impressão de que parte do capital captado poderia ser usado para reduzir dívidas da controladora e não exclusivamente para expansão da Compass".

Analistas veem potencial no mercado de gás

Apesar da recepção negativa do mercado nesta primeira semana, analistas ponderam que a tese estrutural da companhia segue apoiada no crescimento do mercado de gás natural no Brasil.

Criada em 2020, a Compass atua em distribuição, infraestrutura, comercialização e logística de gás natural e biometano e controla ativos como a Comgás, Sulgás, Compagas e o Terminal de Regaseificação de São Paulo, em Santos.

Durante a cerimônia de estreia na B3, o CEO da Compass, Antonio Simões, afirmou que a abertura de capital representa a consolidação de um projeto iniciado há cinco anos. "Esse rito não acontece de uma hora para outra. É fruto de um trabalho desenvolvido desde 2020, com muito passo a passo e consistência", afirmou.

Já a vice-presidente de Operações da B3, Viviane Basso, classificou a operação como um "momento histórico" para o mercado brasileiro. "O IPO é muito mais do que uma operação financeira, é um divisor de águas na trajetória de uma companhia", disse.

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