Eleições: em anos eleitorais, ativos apresentam alta volatilidade (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Repórter de finanças
Publicado em 16 de abril de 2026 às 12h06.
O cenário eleitoral começa a ser precificado pelo mercado – e, com ele, investidores passam a observar uma volatilidade nos ativos, principalmente em juros e bolsa. Para calibrar a carteira, é preciso atenção a alguns pontos, explicam especialistas consultados pela EXAME.
Por partes, o cenário eleitoral interfe nos ativos via política fiscal. Um governo comprometido com o controle de gastos tende a ancorar mais as expectativas de inflação, permitindo que o banco central baixe os juros. Com os juros mais baixos, os mercados de renda fixa e de bolsa acabam se beneficiando.
“O efeito oposto também é verdadeiro. Caso o governo eleito não seja disciplinado fiscalmente, o câmbio acaba pressionado, as taxas de juros longas sobem e isso acarreta prejuízo nos preços das ações”, explica Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management.
Com isso, em anos eleitorais, o mercado passa a considerar diferentes possíveis rumos da política econômica, o que mexe com os preços dos ativos. No Brasil, esse efeito é mais intenso por causa do peso do Estado na economia, da fragilidade fiscal e da disputa apertada nas pesquisas. “O resultado disso é um aumento da volatilidade que esse ano especificamente já está alta devido ao cenário geopolítico”, diz Mecchi.
Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) do UBS Wealth Management no Brasil, concorda. Historicamente, em eleições presidenciais, os ativos costumam apresentar volatilidade acima da média, sobretudo no segundo semestre.
“Isso ocorre porque o mercado precisa precificar incertezas simultâneas: quem vence, qual agenda econômica será implementada e o grau de governabilidade. Pesquisas eleitorais, mudanças inesperadas de candidaturas e discursos sobre política fiscal geram ajustes rápidos de preço, especialmente em câmbio, juros longos e ações mais expostas ao risco político”, explica.
Um levantamento da Elos Ayta mostrou essa volatilidade em anos eleitorais. É possível perceber a falta de padrão em relação ao dólar, porém, é possível observar que, na maioria dos ano há a valorização da bolsa. “Entre o primeiro e o segundo turno, observa-se o movimento mais consistente do ciclo: a redução das incertezas leva, na maioria dos casos, à queda ou estabilização do dólar e à valorização do Ibovespa”, diz Einar Rivero, CEO da consultoria.
Volatilidade dos ativos em anos eleitorais (Einar Rivero/Reprodução)
O Ibovespa já subiu mais de 22% no acumulado de 2026, graças ao fluxo entrangeiro. Só em março, segundo dados da B3, os investidores internacionais aportaram R$ 11,9 bilhões, maior volume para um mês de março desde 2022, quando o fluxo foi de R$ 21,4 bilhões. O resultado é que a bolsa de aproxima dos 200 mil pontos pela primeira vez na história.
Mas, apesar da alta exorbitante, a bolsa tende a refletir o aumento da incerteza em torno de políticas públicas, com destaque para temas como governança de estatais, intervenção em preços e agenda de privatizações, comenta e Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil Wealth Management.
Nesse contexto, segundo ele, empresas como Petrobras e Banco do Brasil costumam concentrar maior volatilidade.
Outros setores também podem ser impactados conforme o foco das propostas e o espectro político do vencedor eleitoral: construção civil (via Minha Casa Minha Vida), educação (via Fies), utilities (tarifas e regulação) e consumo, como varejo, que pode ser beneficiado por transferências de renda como o Bolsa Família.
Telo destaca os setores geralmente mais resilientes, são eles:
Já setores mais sensíveis ao risco político e fiscal:
A volatilidade também costuma gerar oportunidades pontuais, especialmente em empresas de qualidade penalizadas por ruído macro, pontua.
Com dúvidas sobre o rumo da política fiscal, quem vê o preço mudar mais rapidamente são os juros de longo prazo. Pela manhã desta quinta-feira, 16, os DIF32 (títulos de renda fixa com vencimento em 2032) apresentavam alta, em 13,47%. Neste ano, as expectativas foram revisadas de 12% para 12,50% segundo o último Boletim Focus.
“O cenário eleitoral influencia diretamente a renda fixa por meio do aumento dos prêmios de risco, à medida que cresce a incerteza sobre a condução futura da política fiscal e econômica. Esse efeito costuma se refletir de forma mais intensa nos vértices mais longos da curva de juros, que incorporam expectativas de longo prazo para inflação, crescimento e trajetória da dívida pública”, destaca Mecchi.
Os juros mais altos, por sua vez, beneficiam os ativos pós-fixados, já que estes acompanham um indexador, como o CDI. Ou seja, se ele subir, o rendimento do investidor também sobe. Já ativos prefixados tendem a perder atratividade, porque o investidor pode travar uma taxa mais baixa do que os juros ficarão no futuro. “Prefixados longos carregam mais risco por dependerem de previsibilidade fiscal”, explica Lima.
Mas pode também ser uma oportunidade de entrada, segundo Telo. Quando há incerteza fiscal, o mercado exige juros mais altos para financiar o governo. Isso faz com que as taxas dos títulos subam — e, como consequência, o preço desses títulos cai. Este seria o caso dos prefixados e também IPCA+.
Apesar da forte entrada de capital estrangeiro no país, o que levou o dólar para baixo dos R$ 5, Sidney Lima analista da Ouro Preto Investimentos, diz que proteger a carteira com câmbio é sempre uma boa pedida, pois pois pode reduzir a exposição ao risco doméstico e proteger o portfólio contra choques locais, especialmente via dólar e ativos globais.
“Manter parte do patrimônio dolarizado funciona como hedge natural, já que o câmbio tende a se valorizar em momentos de estresse político e fuga de capital”, diz.
Mecchi diz que a estratégia é crucial para investidores de maior patrimônio. “Ativos denominados em dólar ou euro têm correlação baixa — e algumas vezes negativa — com ativos brasileiros em momentos de estresse político-fiscal e isso compõe bem uma carteira de ativos. A alocação offshore não deveria ser feita apenas em períodos eleitorais.”
“Para investidores que ainda não possuem alocação offshore, é possível acessar essa proteção por meio de instrumentos como contratos futuros de dólar na B3, permitindo ajustar a exposição cambial sem necessidade de movimentação de recursos para o exterior”, complementa Mecchi.
Uma posição em uma moeda de reserva de valor protege os investimentos do risco local. Em geral, o câmbio é a primeira variável que se move em caso de dúvidas sobre política monetária e fiscal de um país, explica Telo.
Existem várias formas de usar o câmbio em carteiras de investimento, segundo ele:
“Costumamos usar as duas formas: ter sempre algo dolarizado com referência no mercado global e também, pontualmente, para proteção em eventos específicos, como eleições. É importante entender o horizonte de investimento e a função dos investimentos em dólar na carteira para fazer bom uso dessa modalidade de investimento”, diz.
Investir em anos eleitorais exige disciplina e uma carteira bem diversificada. A principal estratégia é evitar que todos os ativos dependam diretamente do resultado das eleições, buscando diferentes fontes de retorno — como investimentos alternativos e fundos com gestão ativa. Também faz sentido ter uma exposição internacional relevante, garantindo, por construção, parte do portfólio menos sensível ao cenário doméstico.
Outro ponto importante é manter liquidez para aproveitar distorções de preço e acompanhar de perto o que já está embutido nos ativos em relação às probabilidades eleitorais. Além disso, é fundamental diferenciar o que pode, de fato, mudar com as eleições do que tende a permanecer igual — como o impacto dos preços de commodities e o ambiente global de aversão a risco, fatores que independem de quem esteja no poder.
“Historicamente, anos eleitorais são voláteis, mas não necessariamente ruins em retorno, especialmente para quem consegue atravessar o ruído”, conclui Telo.