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Como a inflação e os juros mais altos nos Estados Unidos afetam o mercado brasileiro?

Ibovespa desabou mais de 2% após CPI de agosto sair acima das expectativas do mercado; bolsas de NY tiveram maior queda desde 2020

Bandeira do Brasil em mesa de operador da NYSE (BRYAN R. SMITH/AFP via/Getty Images)

Bandeira do Brasil em mesa de operador da NYSE (BRYAN R. SMITH/AFP via/Getty Images)

Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

14 de setembro de 2022, 08h14

O Índice de Preço ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) divulgado nos Estados Unidos provocou a maior queda das bolsas americanas desde caótico início da pandemia, ainda em 2020. O principal índice de ações do país, caiu 4,32%, e Nasdaq, das maiores empresas de tecnologia, tombou 5,16%

A reação foi uma resposta aos números acima das expectativas para a inflação, mas especialmente o que isso significa para as políticas de juros do Federal Reserve (Fed). O CPI de agosto não caiu como o esperado, adicionando mais 0,1% de alta mensal. No acumulado de 12 meses, o CPI desacelerou de 8,5% para 8,3%, porém acima do consenso de queda para 8,1%.

Uma alta de juros ainda mais agressiva do que as duas anteriores de 0,75 ponto percentual entrou na mesa, após os números desta divulgados na terça-feira, 13, com investidores chegando a precificar mais de 20% de chance de o Federal Reserve (Fed) subir a taxa em 1 p.p. na decisão de quarta-feira que vem, 21. Se confirmado o ajuste, o Fed levará a taxa para o intervalo entre 3,25 e 3,5%. A expectativa do mercado é de que entre o juro suba até 4,50% na decisão de dezembro ou de fevereiro.

Bolsa em queda e dólar em alta

Mas qual é o efeito de inflação e juros mais altos nos Estados Unidos no mercado brasileiro? Parte da resposta esteve na reação do pregão de terça, com as ações em queda na B3 e o dólar em alta. O Ibovespa caiu mais de 2%, após três pregões de alta, enquanto o dólar, que começou o dia abaixo de R$ 5,10, chegou a superar R$ 5,20 na máxima do pregão.

O movimento, disse Alvaro Frasson, economista do BTG Pactual, foi reflexo de fluxos globais de investimentos. O DXY, índice que mede a variação do dólar contra as principais moedas desenvolvidas do mundo, teve sua maior alta desde março 2020, saltando 1,49% e voltando a se aproximar da máxima em 20 anos.

"O DXY sobe e leva todas as moedas na esteira. O Fed mais duro e puxando os juros para cima tende a evitar a apreciação do real e outras moedas emergentes. Mas não necessariamente representa uma tendência. Não acho que o dólar vai a R$ 6 por causa disso", afirmou Frasson. A equipe de Frasson, inclusive, elevou a perspectiva para a taxa terminal dos juros do Fed para entre 4,25% e 4,50%, passando a incorporar o CPI de agosto.

A alta do dólar tem como pano de fundo o aumento do rendimento dos títulos do Tesouro americano, que refletem a expectativa para os juros do Fed. O título com vencimento em 2 anos atingiu o maior patamar desde 2007, superando 3,75%, e, consequentemente, aumentando sua atratividade. Observação: para comprar o título precisa de dólar.

"O Federal Reserve está sendo surpreendido por uma inflação mais persistente que o esperado, sendo forçado a estender o ciclo de aperto monetário mais do que planejava incialmente. Com a taxa de juro nos EUA subindo, a atratividade de títulos públicos em países emergentes como o Brasil reduz", afirmou Jonas Doi, co-CEO da gestora Alphatree Capital.

Na bolsa brasileira, a expectativa de um Fed mais contracionista no controle da inflação tende a afetar principalmente ações de empresas mais dependentes de juro baixo, mas o efeito, na terça, foi generalizado. Apenas duas das 94 ações que compõem o Ibovespa subiram no pregão.

Pedro Serra, head de research da Ativa, acredita que os movimentos do Fed permanecerão como um risco relevante para o mercado brasileiro até que o mercado tenha uma melhor visibilidade sobre quando irão parar as altas de juros nos Estados Unidos. "Aqui no Brasil, entre julho e agosto a bolsa andou quando o mercado percebeu até onde iria a Selic e que a nossa taxa de juros seria descendente. Acho que pode acontecer a mesma coisa lá fora."

Para a taxa Selic, Alvaro Frasson acredita que o Fed mais duro não aumenta chance de ajustes adicionais pelo Banco Central, mas elevam a a possibilidade de permanecer alta por mais tempo. Por outro lado, que a intensidade dos efeitos do Fed na própria economia americana podem ser mais um ponto de risco para o mercado brasileiro.

"Talvez o mercado ainda debata se haverá um pouso suave da economia americana. Mas a discussão deve mudar para quão duro será o pouso", afirmou.