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Eucatex apostou nos EUA há 25 anos — e agora colhe proteção contra Trump

Companhia de materiais de construção teve margens pressionadas por guerra e tarifas, mas presença de subsidiária nos Estados Unidos virou vantagem competitiva

José Antônio, vice-presidente executivo da Eucatex: 'Subsidiária americana tem sido decisiva' (Eucatex/Divulgação)

José Antônio, vice-presidente executivo da Eucatex: 'Subsidiária americana tem sido decisiva' (Eucatex/Divulgação)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 12 de agosto de 2026 às 05h00.

Última atualização em 15 de agosto de 2026 às 18h32.

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A Eucatex encerrou o segundo trimestre de 2026 com crescimento da receita, impulsionada principalmente pelo avanço das vendas no mercado doméstico, mas enfrentou pressão sobre a rentabilidade diante da alta dos custos de matérias-primas.

No período, a companhia registrou receita líquida de R$ 806,1 milhões, alta de 2,8% em relação ao segundo trimestre de 2025. O avanço, porém, veio acompanhado de pressão sobre a rentabilidade. O Ebitda ajustado recorrente somou R$ 174,6 milhões, queda de 8,9%, com margem de 21,7%, recuo de 2,8 pontos percentuais na comparação anual. O lucro líquido recorrente foi de R$ 84,9 milhões, retração de 3,9% frente ao mesmo período do ano anterior.

No acumulado do primeiro semestre, no entanto, a Eucatex registrou desempenho positivo. A receita líquida chegou a R$ 1,59 bilhão, alta de 4%, enquanto o lucro líquido recorrente alcançou R$ 223,3 milhões, crescimento de 18,1%. O Ebitda recorrente somou R$ 371,5 milhões, praticamente estável em relação ao mesmo período de 2025.

A companhia também manteve investimentos estratégicos. No primeiro semestre, foram destinados R$ 233,7 milhões para projetos como modernização da fábrica de portas, expansão florestal e novas tecnologias nas unidades de tintas e painéis.

A dívida líquida ficou em R$ 512,4 milhões, queda de 8,5% na comparação anual, com alavancagem de 0,7 vez o Ebitda.

José Antônio Goulart de Carvalho, vice-presidente executivo da companhia, afirma que o período foi marcado por uma escalada de custos que começou no fim do primeiro trimestre e ganhou força entre abril e junho.

"A cesta de materiais ficou entre 15% e 20% mais cara, pressionada principalmente por matérias-primas ligadas à cadeia química e energética, como metanol e solvente", diz.

O aumento dos custos teve relação direta com conflitos geopolíticos que afetaram cadeias globais de fornecimento. Na avaliação da companhia, a guerra foi o ponto inicial da pressão sobre algumas commodities, especialmente o petróleo. Além do petróleo, outros insumos também foram afetados. A ureia, por exemplo, teve alta relevante, assim como custos de transporte, impactados pelo aumento dos combustíveis e por dificuldades logísticas em rotas internacionais.

O problema, segundo Carvalho, foi a velocidade da alta dos custos. “A velocidade com que os custos vieram não permitiu que a gente repassasse os preços na mesma velocidade. Então, o que aconteceu é que a gente teve alguma perda de margem nesse segundo trimestre”, explica.

Subsidiária decisiva

Além da pressão sobre custos, a Eucatex também precisou lidar com o novo cenário comercial dos Estados Unidos, após a implementação de tarifas sobre produtos importados. O impacto é relevante porque os Estados Unidos representam cerca de 75% das exportações da companhia, que respondem por aproximadamente 25% da receita total.

Apesar disso, a empresa afirma que uma estrutura criada há 25 anos ajudou a reduzir o efeito das tarifas: a ENA (Eucatex North America), subsidiária americana localizada em Atlanta. Criada para aproximar a marca do consumidor americano e construir uma operação própria de distribuição, a unidade passou a funcionar como uma ponte entre a fábrica brasileira e o mercado local.

"Sem essa subsidiária, estaríamos bem menos competitivos. Não sei até se a gente teria competitividade para enfrentar um tarifaço desse tamanho e ainda colocar o produto com rentabilidade lá fora. Ela tem sido decisiva", afirma

Na prática, a subsidiária compra os produtos da operação brasileira pelo preço FOB (Free on Board, valor do produto na saída da fábrica), e é sobre esse montante menor que a tarifa incide. Depois, a operação americana adiciona seu próprio markup de distribuição antes da venda ao cliente final.

A subsidiária foi constituída sob as leis americanas, conta com funcionários locais e é liderada desde a fundação por um CEO brasileiro. Ao longo dos anos, a operação ampliou sua estrutura logística para oferecer um nível de serviço semelhante ao de um fabricante local, com armazéns em pontos estratégicos como Atlanta, Houston, Jacksonville e Baltimore.

Essa presença ajudou a companhia a conquistar grandes clientes do setor de home improvement, como a Home Depot, parceira há mais de 20 anos, além de Lowe’s e Menards.

Outro fator que ajuda a companhia no curto prazo é o estoque acumulado nos Estados Unidos. Segundo Carvalho, a Eucatex possui cerca de três meses e meio de estoque já livre de tarifas, o que permite trabalhar com custos anteriores até aproximadamente meados de novembro.

Apesar dessa proteção, a companhia considera o cenário desafiador e busca reduzir a dependência do mercado americano, ampliando destinos de exportação e desenvolvendo produtos de maior valor agregado.

Percepção da Eucatex na bolsa

Apesar dos resultados operacionais considerados sólidos pela administração, a Eucatex ainda enfrenta dificuldades para transformar esse desempenho em uma melhor percepção no mercado de capitais. Segundo a companhia, as ações são negociadas a múltiplos inferiores aos de empresas comparáveis do setor e abaixo de referências como patrimônio líquido e geração de caixa.

Um dos principais obstáculos está na baixa liquidez das ações. O volume diário negociado costuma ficar entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, segundo o executivo, patamar que reduz o interesse de investidores institucionais de maior porte.

A limitação está relacionada principalmente à estrutura acionária da companhia. O controlador detém cerca de 43% a 44% da empresa, enquanto o BTG Pactual possui aproximadamente 33%, equivalente a cerca de metade das ações preferenciais. Com outros investidores mantendo posições relevantes, a quantidade de papéis disponíveis para negociação no mercado (free float) acaba sendo reduzida.

Para ampliar o interesse dos investidores, a Eucatex afirma que pretende avançar em iniciativas relacionadas à governança corporativa e buscar maior cobertura por bancos e casas de análise.

Na visão da administração, a companhia está em uma posição diferente de muitas empresas listadas que têm vendido ativos para reduzir endividamento. Com uma alavancagem entre 0,7 vez e 0,8 vez a dívida líquida sobre Ebitda, a Eucatex avalia que mantém uma estrutura financeira saudável para continuar investindo mesmo em um ambiente mais desafiador.

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