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Como a crise no Japão pode tirar dinheiro 'gringo' da bolsa brasileira

Queda dos títulos do governo japonês está representando um risco de US$ 7 trilhões para os mercados globais; especialistas avaliam riscos

O mercado financeiro japonês era visto, durante muito tempo, como o porto seguro da economia global. (Luana Cataldi)

O mercado financeiro japonês era visto, durante muito tempo, como o porto seguro da economia global. (Luana Cataldi)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 12h07.

O mercado financeiro japonês era visto, durante muito tempo, como o porto seguro da economia global. Isso porque, enquanto o mundo enfrentava crises e turbulências, Japão permanecia de lado, oferecendo juros baixos e funcionando como uma fonte de financiamento barato para investidores de todos os lugares que buscavam um bom carry trade - financiamento a juros baixos para aplicar em países de juros altos.

Esses dias parecem ter ficado para trás. Os juros dos títulos do governo japonês (JGBs) atingiriam o maior patamar da história nos últimos dias, criando um risco de US$ 7 trilhões para os mercados globais, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg. Apesar de ser uma turbulência a quilômetros de distância, há potencial de mexer no bolso dos brasileiros.

O fim da era do dinheiro barato no Japão

A inflação japonesa tem superado a meta de 2% do Banco do Japão (BoJ) há quatro anos seguidos. Para piorar, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, assumiu o cargo prometendo planos de estímulo fiscal agressivos e cortes de impostos sobre o consumo, sem deixar muito claro como vai pagar essa conta.

O sócio e economista-chefe da Kinea Investimentos, André Diniz, diz que a incerteza fiscal recai sobre um Japão que já carrega uma dívida em altos patamares, a 230% do seu Produto Interno Bruto (PIB). O resultado é volátil: após um abalo de queda, os rendimentos dos títulos públicos dispararam 0,25 ponto percentual em uma sessão.

"O que tem acontecido nos últimos três anos é que o BoJ tem comprado menos dessa dívida japonesa. Ele tem feito um aperto quantitativo. Então, ele inverteu esse movimento. Na prática, 'sobra' mais dívida para o mercado privado absorver", detalha o economista-chefe da Kinea.

Quando o investidor perder a confiança na capacidade fiscal do país, ele passa a exigir juros mais altos para emprestar dinheiro. Algo que pode acontecer no Japão, com os juros de longo prazo superando os 4%. No entanto, por que o Brasil deveria se importar com isso? A resposta está na conexão global dos juros em diferentes regiões do globo.

O efeito dominó indireto japonês nas outras potências 

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, observa que, como os títulos japoneses sempre funcionaram como um "piso" para as taxas globais, se esse piso sobe, todo o resto sobe junto. Soma-se a isso o receio de que investidores japoneses passem a realocar parte de suas carteiras, pressionando os juros.

Os japoneses possuem cerca de US$ 5 trilhões investidos no exterior. Se os juros de títulos dentro do país ficarem atraentes, esse dinheiro volta para casa. Grandes bancos como o Sumitomo Mitsui já sinalizaram à Bloomberg que pretendem reconstruir seus portfólios priorizando títulos domésticos japoneses em vez de estrangeiros.

"A maior competição por retornos com menor risco tende a levar alguns investidores a reduzir exposições em mercados emergentes, favorecendo uma postura mais defensiva e reduzindo, na margem, o impulso para ativos de maior risco, como a renda variável. Em nossa visão, trata-se de um risco no curto prazo", segundo Sung.

“Se a normalização da política monetária japonesa ocorrer de forma relativamente ordenada, o mercado tende a absorver o novo equilíbrio ao longo do tempo por meio de ajustes graduais. Caso esse processo seja mal conduzido, podem surgir episódios de volatilidade mais intensa”, diz Sung. No médio prazo, a tendência é de acomodação.

O impacto no Brasil: câmbio, carry trade e curva de juros

Para o Brasil, o impacto mais imediato é sentido no câmbio e nas operações de carry trade – isto é, pegar dinheiro mais barato em um país e investir em outro. Sung vê o Brasil como um destino tradicional de investidores que financiam ienes para aplicar onde os juros são altos, mas, se o custo do iene se valoriza, essa estratégia perde o sentido.

O investidor venderia, assim, os seus ativos no Brasil – com patamares de juros altos – e levaria o dinheiro embora, o que poderia gerar uma desvalorização do Real frente ao dólar. Caso os japoneses parem de financiar as dívidas americana ou europeia para investir em seu próprio país, o custo do dinheiro sobe no mundo todo.

O head da mesa de câmbio e internacional da Mirae Asset Brasil, Jonathan Joo Lee, diz, porém, que a turbulência nos juros japoneses não deve afetar de forma concreta o Brasil. Indiretamente, os reflexos viriam justamente da aversão de risco global, pois, em momentos de estresse, de fato, os investidores correm para ativos seguros.

Sanae Takaichi é primeira-ministra do Japão.

Diniz concorda que não parece um grande risco esse movimento do Japão chegar ao Brasil pelos canais tradicionais de aversão. "Acho que o que eu ficaria mais preocupado é se a gente começar a ter uma turbulência no mercado de treasuries dos Estados Unidos, e aí sim isso poderia espirrar para países emergentes", complementa.

O head da Mirae explica, ainda, que, quando a aversão ao risco aumenta, a diferença entre as taxas de juros de curto e longo prazo se amplia. As pontas mais longas da curva são as mais suscetíveis à volatilidade, e os investidores exigem um prêmio de risco maior na ponta longa em tempos de incerteza global.

Ele é categórico ao afirmar que o mercado brasileiro pode sofrer oscilações mesmo que nada mude no Brasil em termos de política ou indicadores fiscais. Isso porque, se os juros americanos subirem influenciados pelo Japão, o Brasil precisaria aumentar o seu próprio prêmio de risco para não perder a atratividade.

Japão na mira: estratégias de alocação para investidores no Brasil

Lee diferencia a conduta necessária para grandes instituições e para investidores individuais. As gestoras devem tomar decisões rápidas e estratégicas, pois não podem manter uma postura de “comprar e segurar” em cenários de alta volatilidade. Ele menciona a troca de papéis prefixados (como NTN-Fs longas) por ativos pós-fixados (LFTs).

No caso da pessoa física, não é necessária uma mudança drástica na estratégia, mas Lee recomenda diminuir o prazo de vencimento dos papéis. Em vez de vender tudo e mudar para pós-fixados, o investidor pode simplesmente trocar um título com vencimento em 2035 por um de 2027 ou 2029 para reduzir a exposição à volatilidade.

Ressalta-se que nenhum comentário ou avaliação feito por especialistas está enquadrado como indicação de investimento, sendo necessário que o investidor tome decisões de acordo com o seu perfil ou busque orientação profissional.

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