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Cogna anuncia KrotonMed e entra no rentável ramo de cursos de medicina

Divisão nasce com quase R$ 500 mi em receita, margem Ebitda de 46% e alto potencial de expansão; empresa apresenta novos negócios na Vasta

Rodrigo Galindo, CEO da Cogna: aposta no modelo de plataforma | Foto: Germano Lüders/EXAME (Germano Lüders/Exame)

Rodrigo Galindo, CEO da Cogna: aposta no modelo de plataforma | Foto: Germano Lüders/EXAME (Germano Lüders/Exame)

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Marcelo Sakate

13 de dezembro de 2021, 09h37

A Cogna (COGN3), maior grupo de educação do país, apresenta ao mercado nesta segunda-feira, dia 13, a KrotonMed, uma nova divisão que reúne os ativos das sete faculdades de medicina que estavam sob o guarda-chuva da Kroton (a sua empresa de ensino superior), com o objetivo de destravar valor para o grupo. Também apresenta novas perspectivas de negócios para a Vasta Educação (VSTA), a sua companhia de sistemas de ensino e soluções de tecnologia para escolas do ensino básico. As informações serão divulgadas no Cogna Day, seu encontro anual com investidores.

A KrotonMed, em um dos segmentos mais rentáveis do mercado de educação e já explorado por empresas como Afya (AFYA) e Yduqs (YDUQS3), será uma das três alavancas de crescimento da Cogna para os próximos anos, ao lado do ensino híbrido e digital, por meio da Kroton; e do modelo de plataforma ("Platform as a Service"), com a Vasta e com a nova plataforma para jovens e adultos.

Em meio às novidades, a Cogna vai reafirmar o guidance de longo prazo assumido há um ano: entregar 2,4 bilhões de reais em Ebitda recorrente em 2024, além de 1 bilhão de reais em geração de caixa operacional pós-Capex.

"A manutenção do guidance mostra a confiança da companhia no longo prazo. Ele foi anunciado em 2020 considerando que haveria uma aquisição na Vasta, mas sem contar com a venda de escolas para a Eleva [anunciada em fevereiro deste ano], que respondiam por cerca de 10% desse guidance. Na prática, foi como se tivéssemos subido o guidance", disse Rodrigo Galindo, CEO da Cogna, em entrevista à EXAME Invest.

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Segundo ele, o turnaround na Kroton de transição do modelo concentrado no ensino presencial para o ensino à distância (EAD) e híbrido acabou e começou a entregar resultado neste ano, enquanto o crescimento já contratado da Vasta para o próximo ano deve subir, com perspectivas positivas para os seguintes. "Temos convicção de que, ao entregar resultados consistentes, em algum momento a precificação volta como consequência."

As ações do maior grupo de educação do país acumulam queda de 37,4% neste ano e de 76,2% em dois anos, em meio à transição na Kroton e às dificuldades impostas pela pandemia ao setor de educação como um todo.

"Quando o fluxo de capital voltar para o mercado, investidores vão procurar por empresas que estejam estruturadas, crescendo e com uma estratégia clara. E é o que estamos fazendo e entregando."

Veja a seguir os principais destaques dos planos da Cogna:

KrotonMed: meio bilhão de reais em receita

Em uma nova estrutura, a Kroton passa a ser dividida em quatro verticais: (1) Campus e digital, com toda a operação tradicional de ensino tanto presencial como à distância (EAD); (2) a Platos, a divisão de pós-gradução -- e que era uma unidade de negócios segregada; (3) a Ampli, que é a startup de EAD pelo celular em parceria com a TIM (TIMS3); e a nova KrotonMed, que é a consolidação de todos os ativos do grupo em medicina.

Segundo o CEO da Cogna, a Kroton Med foi criada para melhorar a gestão, gerar valor e dar visibilidade ao mercado a essa frente de negócios, que atende um público com perfil distinto ao da média das demais faculdades do grupo, com mensalidades de 8.500 reais, enquanto em outros cursos o valor médio fica em torno de 300 reais.

"Fizemos um carve out [uma segregação] societário de todas as sete faculdades de medicina que temos e criamos uma empresa que 'nasce' com 3.000 alunos, que vai entregar 486 milhões de reais em receita em 2022, com 224 milhões de reais de Ebitda, ou seja, uma margem de 46%", afirmou Galindo sobre a KrotonMed.

A nova divisão da Kroton deve ajudar a gerar valor para a Cogna, na medida em que empresas de educação voltadas para o ensino de medicina são avaliadas e negociadas a múltiplos mais altos. A referência do mercado nacional é a Afya, que tem sido negociada na Nasdaq a 12 vezes o Ebitda, enquanto na ação de Cogna na B3 o múltiplo tem ficado torno de 5 vezes.

Além do tamanho já relevante e da margem elevada, Galindo destacou que a Kroton Med tem potencial de alto crescimento para os próximos anos em razão de regras do Ministério da Educação (MEC) que autorizam a expansão de faculdades de medicina que apresentem elevados padrões de qualidade em determinados períodos. Isso significa que, em dois a três anos, o número de alunos de medicina da nova divisão pode crescer em até 75%, para 5.250.

EAD premium e novo patamar de rentabilidade

Segundo Galindo, o processo de reestruturação da Kroton começou a surtir resultados em 2021. O Ebitda sai de 690 milhões de reais em 2020 e deve superar o consenso de mercado de analistas sell-side, de 1,250 bilhão de reais, a despeito da queda de 14% em receitas com a redução do número de alunos.

A explicação: ganho de eficiência e mudança no mix de alunos, com o aumento da fatia daqueles que estão no ensino à distância (EAD), cuja margem é maior.

"É um novo patamar de rentabilidade da Kroton. Para 2022, esperamos aumentar a margem de rentabilidade. A recuperação está acontecendo de forma mais expressiva, com a captação muito forte", afirmou.

No terceiro trimestre, a captação de alunos no ensino presencial subiu 22%, e no EAD, 40%. Na média ponderada, a captação aumentou 38%.

O aumento da rentabilidade, por sua vez, ajudou a reduzir a alavancagem, que está em 2x o Ebitda neste ano.

O novo modelo de ensino híbrido, que se enquadra do ponto de vista regulatório no EAD, mas possui uma carga presencial, abrange quase todos os cursos -- de engenharia e saúde, por exemplo. É chamado internamente de EAD premium.

O novo modelo permite que a Kroton tenha uma boa rentabilidade (Ebitda) por aluno, porque a margem é mais elevada, ao mesmo tempo em que a receita é cerca da metade do valor cobrado no mesmo curso no ensino presencial.

O que seria em tese uma notícia negativa para a companhia -- cobrar menos do aluno -- acaba se tornando um ponto forte, na medida em que multiplica o tamanho do mercado endereçável. "Isso protege a companhia no cenário macroeconômico e ajuda a democratizar o acesso ao ensino superior", disse o CEO da Cogna.

É o vetor que mais do que compensa a economia em desaceleração. "Conseguimos encontrar o produto certo para ter mais pessoas cursando o ensino superior", definiu.

No próximo ano, a receita ainda deve registrar queda de 4%, enquanto o Ebitda deve ficar estável ou acima de 2021. O ponto de inflexão no resultado, segundo ele, deve se dar em 2023, quando a safra de alunos do presencial com tíquete mais alto que vai se graduar deve ser compensada pela safra de alunos que entram no ensino à distância.

Ou seja, na Kroton, o ano de inflexão do Ebitda foi 2021, e o de receita deve ocorrer em 2023. Na Cogna, a receita já deve subir em 2022, bem como o Ebitda, uma vez que a expansão da Vasta compensará a queda da Kroton.

Vasta: mercado de R$ 3 bi em tutoring

Originalmente uma plataforma B2B ou B2B2C, ou seja, que atende escolas e indiretamente os alunos, a Vasta começa a atender o consumidor final no modelo de tutoring, ou seja, de aula particular. "É um mercado de 3 bilhões de reais, altamente fragmentado e muito pouco profissionalizado", disse o CEO da Cogna.

"Olha a beleza do negócio: o aluno entra na Plurall, que é a plataforma da Vasta, e clica 'quero fazer aula particular'. E passa a ter acesso aos professores das escolas parceiras que se associaram para dar aula particular. Ali ele descobre qual o valor da aula, qual o cronograma e qual o conteúdo que ele quer estudar. Pela plataforma o professor aceita o pedido, o aluno assiste à aula e faz o pagamento. Tudo com uma experiência fluída, sem sair do ambiente dele."

A Vasta tem atualmente um modelo de subscrição como principal fonte de receita, em que há um conjunto de contratos que resulta em uma métrica chamada de ACV (Annual Contract Value, em inglês), uma proxy da receita no ano seguinte.

O ACV que projeta a receita em 2022 já havia apontado crescimento de 32% até setembro, dos quais 20% de maneira orgânica e 12% por meio da aquisição dos ativos da Eleva.

Há dois upsides nesse número, segundo Galindo: o ciclo comercial ainda está em andamento e o fato de que não considera o contigente de alunos que saiu das escolas em 2021 por causa da pandemia. "Estamos confiantes de que teremos um crescimento excepcional na Vasta em 2022. Vamos mais do que dobrar o Ebitda da Vasta."

A empresa sofreu um impacto grande da segunda onda da pandemia, no fim do primeiro trimestre deste ano, uma vez que as escolas em geral decidem as suas compras para o ano letivo seguinte entre outubro e março, enquanto os pais decidem se colocam seus filhos na escola entre fevereiro e março do ano precedente.

"O risco negativo que tivemos em 2021 agora se torna um risco positivo, pois acreditamos que haverá pedidos complementares das escolas com a volta dos alunos. Uma escola que pediu 950 pode demandar 970", exemplificou.

Outro dado que reforça a expectativa positiva é o número de escolas na base, que passou de 4.167 antes da pandemia para 4.508 neste ano e para 5.383 em 2022, a despeito da segunda onda. Mesmo excluindo as escolas incorporadas à base com a aquisição dos sistemas de ensino da Eleva, houve crescimento. A ressalva é que muitas escolas perderam alunos, especialmente nos primeiros anos do ensino fundamental e na educação infantil.

A ação da Vasta já havia subido 32,6% em dezembro como um provável sinal de expectativa de melhora do resultado antes de disparar 52,49% na última sexta-feira, dia 10, em meio a boatos sobre uma possível venda.

Aposta no modelo de plataformas

Galindo disse enxergar que o futuro e a inovação em educação passam pelo modelo de plataformas. "Há muita iniciativa inovadora, mas nenhuma escalável. Na nossa percepção, as apostas de sucesso são as de plataforma. E é por isso que um dos nossos pilares de crescimento é o business de plataforma", afirmou.

A Vasta realizou cinco aquisições nos últimos dezoito meses, das quais apenas uma, a da Eleva, no core da empresa, que são sistemas de ensino. As demais foram de produtos ou serviços que se plugam na plataforma.

"Você compra uma empresa com 50 clientes, pluga na plataforma e, no dia seguinte, ela está pronta para entregar serviços para 5.400 clientes, que são as escolas na base da Vasta", afirmou Galindo.

"A capacidade de escalar exponencialmente é gigantesca. Esse modelo que explora os benefícios da plataforma é o business do futuro e no qual vemos maior potencial de valor. E é por isso que estamos construindo a plataforma B2C para jovens e adultos", disse Galindo. É um modelo semelhante ao da Vasta, que é para crianças e jovens.

A plataforma a qual o CEO da Cogna se refere foi revelada há um ano e está prestes a chegar ao público final: voltada para jovens e adultos dentro do modelo B2C, é composta por cinco pilares: um marketplace, uma plataforma de infoprodutores, uma de afiliados, uma fintech e uma plataforma de emprego e renda.

"Vamos ter muito fluxo e muita inteligência na plataforma: muitas pessoas circulando e consumindo informação de educação na plataforma. E vamos saber o que oferecer, para quem e quando. Com essas informações, vamos atrair muitos sellers na plataforma", explicou Galindo sobre o modelo previsto para a plataforma. "Nós entregamos o lead [informações sobre o cliente] para o seller e ficamos com um take rate pela captação desse aluno."

Segundo ele, a plataforma já nasce com 15 milhões de leads da base de alunos da Kroton -- dos quais 1 milhão de alta recorrência, de quem entra diariamente na plataforma --, além de 4 bilhões de reais transacionados. Essa base pronta já atrai como sellers empresas de diferentes setores. "Queremos ser a plataforma de tudo para educação."

O marketplace de educação entrou em operação na semana passada para um público ainda controlado e já conta com a adesão de varejistas, bancos e empresas de tecnologia, segundo o CEO da Cogna. As vendas para o público externo começam no primeiro trimestre de 2022.

No segundo trimestre será a vez de as plataformas para infoprodutores e afiliados e a fintech entrarem em produção em fase de MVP (mínimo produto viável), e, no seguinte, a plataforma de emprego e renda (ainda que não esteja em operação, esta já conta com 134 mil vagas de 34.000 empresas cadastradas).

Quando a plataforma completa estiver funcionando, entre o fim de 2022 e o início de 2023, será possível apontar para uma pessoa de quais qualificações ela precisa para se candidatar a uma determinada vaga e apontar quem oferece esse treinamento; e, do lado de quem contrata, apontar quais são os profissionais que atendem aos requisitos.

Galindo diz que o objetivo é encontrar e desenvolver na própria Kroton o modelo mais disruptivo de ensino, mas, segundo ele, se a solução for externa, e isso se refere não só ao Brasil como a qualquer parte do mundo, a companhia vai disponibilizar o produto na plataforma para participar do crescimento como parceira. "É ao mesmo tempo uma estratégia ofensiva e defensiva. É por isso que gostamos tanto do business de plataforma", explicou.

Ampli e a Kroton como companhia nativa digital

No Cogna Day, a companhia vai falar também da Ampli, a startup que ganhou corpo neste ano depois de ter sido lançada com a ambição elevada de oferecer a melhor experiência em EAD do mundo. Nessa trajetória, o NPS (Net Promoter Score) já está 27 pontos percentuais acima da média das marcas tradicionais da Cogna.

A evolução da startup deu origem a duas vertentes: primeiro, uma parceria com a TIM para a distribuição dos cursos para a base de cerca de 50 milhões de clientes da operadora, em que os resultados de crescimento são compartilhados.

Segundo, a adoção gradual da plataforma de tecnologia da Ampli pela Kroton, que deixará o legado das operações existentes e passará a contar com uma solução nativa digital desenvolvida dentro da companhia e que oferece uma experiência digital mais bem avaliada pelos próprios alunos. Essa transição chega aos alunos a partir de abril de 2022 e vai acontecer em três semestres. Ou seja, em dois anos, a Kroton passará a ser uma companhia nativa digital.

A consequência esperada é o aumento dos níveis de retenção de alunos e de captação, diante da melhor avaliação do serviço prestado.

Outro destaque do Cogna Day nesta segunda é a agenda ESG, com ênfase nas iniciativas de caráter social. Há duas semanas, a empresa assumiu 14 metas para os próximos anos, das quais cinco de diversidade e inclusão, como atingir o equivalente a 40% de pessoas negras e 50% de mulheres em cargos de liderança. As metas foram definidas a partir da criação de quatro grupos de afinidade (temas de lgbtqia+, de pessoas com deficiência, de gênero e de raça).