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Caro ou barato: para Gavekal, clareza sobre política de gastos públicos definirá rumo de mercados

Consultoria observa que Lula terá maioria no Congresso, mas deverá colher frutos de inflação em queda e do histórico de boa relação comercial com a China

Lula: petista precisará "lutar para formar uma coalizão eleitoral no Congresso para realizar grandes reformas, ou emendas constitucionais" (Ricardo Stuckert/Divulgação/Divulgação)

Lula: petista precisará "lutar para formar uma coalizão eleitoral no Congresso para realizar grandes reformas, ou emendas constitucionais" (Ricardo Stuckert/Divulgação/Divulgação)

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Raquel Brandão

Publicado em 31 de outubro de 2022, 10h29.

Última atualização em 31 de outubro de 2022, 11h35.

A possibilidade do risco fiscal "explodir" após a eleição de Lula (PT) é "bastante real", mas limitadores institucionais devem atuar como inibidores. A análise é de uma das consultorias mais lidas por investidores, a Gavekal. Em relatório assinado pelo analista sênior Udith Sikand, os planos, ainda "vagos", do petista de abolir o teto de gastos e seguir com gastos pesados ​​em infraestrutura e projetos sociais ditarão se os ativos brasileiros podem ou não ser reavaliados.

No texto, o analista observa que a eleição foi bastante acirrada. Lula venceu o pleito e foi eleito pela terceira vez à Presidência com uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos, ficando com 50,9% dos votos válidos. O atual presidente, Jair Bolsonaro (PL) ficou com 49,1%.

Na corrida pelo Planalto, o presidente eleito buscou formar uma frente ampla. Para vice, foi escolhido Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e com quem Lula disputou eleições presidenciais em 2006. No segundo turno, conseguiu o apoio da candidata do MDB, Simone Tebet (que ficou em terceiro lugar no primeiro turno), e de economistas cujos nomes têm boa recepção no mercado, como Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central durante os mandatos do petista, Armínio Fraga, Persio Arida, Edmar Bacha e Pedro Malan.

Ponto importante destacado por Sikand é que, comparado ao primeiro mandato de Lula como presidente (entre 2003 e 2006), o Legislativo agora tem muito mais controle sobre os gastos fiscais do que o Executivo e o petista não deverá ter maioria no Congresso, dada a composição da Câmara de Deputados e a parte de senadores eleitos no primeiro turno das eleições de 2022. Para o analista, embora uma fatia do chamado "centrão" seja "ideologicamente flexível" e avance parte da agenda de Lula, ele precisará "lutar para formar uma coalizão eleitoral no Congresso para realizar grandes reformas, ou emendas constitucionais".

Inflação e relações com a China são pontos a favor

O analista traça dois fatores que devem ser favoráveis ao novo presidente eleito. O primeiro deles é a perspectiva de que a inflação seguirá recuando no país. Tendo atingido o pico de 12,1% em abril, a inflação do Brasil caiu para 7,2%. "Isso permitiu que o Banco Central interrompesse os aumentos das taxas de juro e, apesar de reclamar de possíveis aumentos futuros, o mercado está precificando um ciclo de cortes de taxas a partir do início do próximo ano."

Nesse caso, avalia Sikand, Lula colheria o dividendo econômico de o Brasil ter sido a primeira grande economia a se mover seriamente contra a inflação usando uma política monetária agressiva.

O segundo fator favorável a Lula é a relação comercial com a China. O analista afirma que, mesmo sendo a maior economia da América do Sul, o país tem um nível cronicamente baixo de investimento, o que restringe o crescimento. "Durante o primeiro mandato de Lula, a situação melhorou um pouco quando os investidores chineses começaram a financiar grandes projetos de infraestrutura", lembra ele.

O problema, pondera Sikand, é a provável redução da demanda da China por matérias-primas, como minério de ferro, devido ao fim do boom do setor de construção no país asiático. "Nesse sentido, os preços das commodities já começaram a cair, causando uma reversão parcial do impulso dos termos de troca que sustentou o real brasileiro no período pós-pandemia. No geral, no entanto, uma combinação de risco político reduzido e dinâmica cíclica positiva favorece uma reclassificação material de ativos de risco brasileiro excepcionalmente baratos."