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C&A tem receita de R$ 1 bi, mas aumento de gastos gera prejuízo no 1º tri

Inauguração de lojas e da vertical de serviços C&A Pay, além da inflação, subiram despesas operacionais e contribuíram para resultado negativo em R$ 152,7 milhões

As vendas mesmas lojas (SSS) tiveram incremento de 75,2 pontos percentuais com a retomada do varejo físico (C&A/Divulgação)

As vendas mesmas lojas (SSS) tiveram incremento de 75,2 pontos percentuais com a retomada do varejo físico (C&A/Divulgação)

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Karina Souza

6 de maio de 2022, 19h13

A varejista C&A registrou prejuízo de R$ 152,7 milhões no primeiro trimestre de 2022, valor 10,3% maior do que o do mesmo período do ano anterior. Se no ano passado o principal motivo para a queda era o tombo na receita por causa das lojas fechadas, este ano, foram os gastos com a operação a pleno vapor – somada às 22 lojas inauguradas no período – além do aumento da dívida, que seguraram o crescimento da companhia.

O balanço mostra que a receita líquida chegou a R$ 1,1 bilhão no período, aumento de 54,2% em relação ao mesmo período do ano passado. As vendas mesmas lojas (SSS) tiveram incremento de 75,2 pontos percentuais com a retomada do varejo físico e, com aumento de escala, a margem bruta de mercadorias também evoluiu, chegando a 45%, 4,2 p.p. maior do que a registrada no primeiro trimestre de 2021. 

“Crescemos 9% em janeiro, 15% em fevereiro e 20% em março, nas vendas. Já temos a continuidade dessa evolução, o que deve nos levar a outro patamar”, afirma Paulo Correa, CEO da C&A no Brasil, à Exame Invest. A expectativa é de um segundo trimestre também aquecido com as vendas de Dia das Mães e a entrega super expressa, em até duas horas, “perfeita para quem deixou o presente para última hora”, diz o CEO.

O outro lado da retomada está nas despesas operacionais, que aumentaram em 46,8% no primeiro trimestre deste ano, fechando o período em R$ 570,3 milhões. No detalhe, a maior parte desse total veio de despesas com vendas (R$ 442,1 milhões, aumento de 28,4%). O aumento é justificado pela companhia como “a operação atual estar totalmente normalizada”, o que significa tanto a falta de fechamento de lojas por causa da covid-19 quanto o impacto de 22 lojas adicionais no período, além da pressão inflacionária nas linhas de ocupação e pessoal. 

As despesas gerais e administrativas também cresceram no período, dobrando de valor em relação ao último ano, fechando o primeiro trimestre em R$ 126,8 milhões. O impacto é explicado pela companhia com a reversão de contingências trabalhistas no valor de R$ 41,4 milhões, ocorrida no primeiro trimestre do ano passado, que aumentaram o baque na comparação. Sem considerar esse efeito, a variação teria sido de 38,1% este ano. E este aumento, sim, é justificado com o início da operação do C&A Pay – cartão digital lançado pela companhia depois de recomprar a financeira do Bradesco – com o primeiro trimestre totalmente contemplado no balanço. Por fim, a linha de outras despesas operacionais registrou um gasto de R$ 1,4 milhão, com “consultorias estratégicas”, segundo o balanço.

Tudo isso impactou o Ebitda Ajustado, que foi de R$ 107,1 milhões no período, número 19,9% menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior. A margem Ebitda ajustada também diminuiu, é claro, em 8,3 pontos percentuais, fechando o primeiro trimestre em -8,9%.

A dívida da C&A também aumentou no período, passando de R$ 38,3 milhões para R$ 68,5 milhões. Os valores aumentaram principalmente em razão do aumento da taxa selic – que impacta as dívidas atreladas ao CDI – e do aumento em “outras despesas financeiras” que dobraram de tamanho em relação ao ano passado. Olhando para este último ponto, a companhia aponta o ajuste a valor presente das compras de fornecedores mais relevantes, dado o aumento da taxa selic, e a correção monetária do valor devido ao Bradesco pela recompra do direito de ofertar crédito.

Serviços financeiros: C&A Pay avança

O investimento na nova vertical de serviços financeiros já traz alguns resultados. A C&A Pay emitiu 490 mil novos cartões digitais no trimestre, atingindo 890 mil cartões. A participação nas vendas dos novos cartões foi de 10% e, por ser uma operação ainda em fase inicial, a inadimplência ficou em 3,5% do mesmo indicador. Em um ambiente de pressão inflacionária e restrição de crédito, a companhia antecipa que deve espera inadimplência maior do que a registrada na parceria com a Bradescard – que ainda deve se estender por mais dois anos – “mas em linha com o mesmo produto de varejistas similares”. No período, a C&A também teve uma provisão para inadimplência de R$ 1,2 milhão. 

O otimismo da companhia com a nova solução é mostrado em um quadro com as principais modalidades de pagamento usadas por clientes. O uso de cartões de terceiros (o principal meio utilizado, com quase metade das vendas) e o pagamento à vista (segundo maior) tiveram, respectivamente, estabilidade e retração no volume de compras. 

Os cartões em parceria com o Bradesco respondem por 10% das compras, mesmo percentual já atingido pelo C&A Pay. Com o fim da parceria, dá para ver que o pé no acelerador foi tirado. O número de cartões novos teve queda de 26,2% e a receita dos cartões conjuntos foi 9,8% menor do que a registrada no mesmo período do ano passado. “Resultado que teria sido mais negativo se não fosse pela venda de uma carteira de recebíveis”, afirma a companhia. A inadimplência dessa vertical aumentou em 4,2 pontos percentuais na comparação com o mesmo período do ano passado. 

Futuro

“A gente pretende avançar bem mais em rentabilidade ao longo dos próximos meses, é só o início dessa jornada. Estamos fazendo a captura dos investimentos que fizemos ano passado e prevemos uma evolução significativa de vendas”, diz Correa. A meta da companhia é abrir 20 lojas até o fim do ano, sendo que seis já foram inauguradas no primeiro trimestre. Nessa estratégia, no entanto, a expansão deve acontcer em menor grau do que o registrado nos anos de pandemia – principalmente por causa do aumento da selic e do “dinheiro mais caro”. 

Como pontos que já estão em andamento, a companhia ressalta a evolução da marca ACE, de artigos esportivos. Atualmente, a companhia é a segunda mais lembrada em termos de marca – só perde para a C&A – e ganhou, neste mês, uma loja no formato double door no Shopping Anália Franco, em São Paulo. A busca de consumidores por artigos de esportes com o fim das restrições da pandemia impulsionou a vertical, que dobrou o número de SKUs em relação a 2019. “Pouco a pouco estamos entendendo as praças mais atrativas para essa loja e criando uma experiência diferente da loja da C&A”. Entre os principais pontos de diferença, estão o check-out sem caixa e o mobiliário diferenciado.