Roberto Lee: 'não é só cara mais arrojado que investe lá fora'
Editor de Invest
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 16h42.
O brasileiro que investe em aplicações nos Estados Unidos deixou de ser somente aquele investidor arrojado em busca de mais volatilidade e risco. O perfil virou, e hoje quem abre conta lá fora quer o contrário: proteção de patrimônio. A avaliação é de Roberto Lee, fundador e CEO da Avenue, corretora especializada em investimentos no exterior.
Ele explica que o retrato de dez anos atrás era outro. "O cara que abriu as primeiras contas lá fora geralmente tinha um perfil agressivo. Ele se declarava como um cliente arrojado, gostava de risco", afirma.
Hoje, diz o executivo, o público que busca o exterior é majoritariamente conservador. "A verdade é que está todo mundo morrendo de medo do Brasil".
Lee cita uma estimativa de que 60% dos investidores brasileiros se classificam como super conservadores, e aponta o que considera uma contradição nesse rótulo. "Se você pega a carteira desse investidor, com CDB de banco e Tesouro Selic, e transfere para a análise de um banco americano, o analista vai dizer que a carteira é super agressiva. Por estar concentrada em um país abaixo do investment grade e em bancos dependentes dessa economia."
Parte da mudança de comportamento passa pelo que o investidor conservador encontra quando chega aos Estados Unidos. "Há dez anos, quando ele queria um ativo de renda fixa, encontrava juro zero. Hoje, quando vai para fora, acha taxas de 4,5%, 5%, 6%. Se topa um pouquinho mais de risco, vai a 7%, 8%, 10%", diz Lee.
Esse pano de fundo ganhou reforço nos últimos dias. O rendimento dos Treasuries voltou a subir com a expectativa de que o Federal Reserve mantenha os juros elevados por mais tempo, ou até volte a apertar. O juro do título de 10 anos, referência para hipotecas e crédito, rondava 4,66% nesta semana, enquanto o papel de 30 anos superou 5,3%, no maior nível em 19 anos.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, contribuiu com a expectativa de aperto monetário com seu discurso no simpósio de Jackson Hole. Ele afirmou que o banco central americano está disposto a subir os juros novamente caso a inflação não desacelere de forma mais clara em direção à meta de 2%.
A leitura de mercado, segundo estrategistas da própria Avenue, é que uma nova alta em setembro segue no horizonte diante de uma inflação persistente e de uma economia resiliente.
Lee também relativiza o discurso do ano passado sobre o fim do excepcionalismo americano. Segundo ele, os mercados emergentes que receberam recursos entre a metade do ano ano passado e começo deste ano não performaram — o capital acabou voltando. "Em instabilidades, o mundo volta para a segurança."
A bolsa americana está concentrada em inteligência artificial e tecnologia, setores de alta volatilidade, e a dívida pública dos Estados Unidos bateu novo recorde. Ainda assim, o país voltou a atrair capital.