Bradesco: banco tem volume elevado de impostos pagos antecipadamente (Eduardo Frazão/Exame)
Repórter
Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 17h33.
Um relatório do JP Morgan avalia que o patrimônio líquido tangível do Bradesco poderia ter mais que o dobro do tamanho que possui hoje caso o banco tivesse internalizado o lucro distribuído em dividendos entre 2021 e 2024. Nos cálculos dos analistas, a retenção desses recursos teria fortalecido de forma relevante a estrutura de capital do Bradesco.
O relatório do JP apresenta um exercício hipotético a partir dos R$ 36 bilhões em dividendos líquidos pagos no período de três anos pelo banco brasileiro.
Eles calculam que se esse valor tivesse sido mantido no capital, o patrimônio líquido tangível do banco teria aumentado de cerca de R$ 34 bilhões para aproximadamente R$ 88 bilhões, o equivalente a um crescimento de 2,6 vezes.
A recapitalização de dividendos acontece quando a empresa decide não distribuir parte dos dividendos e mantém esses recursos no próprio balanço. Na leitura da instituição financeira, o capital da companhia aumenta, fortalecendo o patrimônio e os indicadores financeiros, em vez de o dinheiro sair na forma de pagamento aos acionistas.
Segundo os analistas do JP Morgan, o volume elevado de Ativos Fiscais Diferidos (DTA) — impostos pagos antecipadamente e que podem ser recuperados no futuro — tem prejudicado a lucratividade do Bradesco. A instituição estima que isso gera uma diferença de cerca de 500 pontos-base no retorno sobre o patrimônio (ROE) em relação ao Itaú (ITUB4) e avalia que, ao longo do tempo, esses ativos fiscais também podem se tornar um entrave para o capital.
Ainda assim, o JP Morgan defende que a recapitalização de dividendos poderia ajudar a reverter esse quadro, ao ampliar a base de patrimônio tangível e acelerar a ativação do DTA.
Atualmente, o Bradesco é negociado a cerca de 1,2 vez o valor patrimonial (P/BV) e a aproximadamente 7 vezes o lucro estimado para 2026 (P/E), considerando a projeção do JP Morgan de lucro líquido de R$ 28,2 bilhões naquele ano.
Embora o banco destaque no relatório que o DTA é visto como um obstáculo no curto prazo, a instituição também aponta um potencial impulsionador de resultados, caso passe a ser utilizado de forma gradual.
O Bradesco tem uma política de distribuição mínima de 30% do lucro, mas vem pagando cerca de 60% nos últimos dois anos para maximizar os benefícios fiscais do pagamento de juros sobre capital próprio. Como resultado, o banco distribuiu cerca de R$ 36 bilhões líquidos em juros sobre capital próprio no período, ou aproximadamente R$ 42 bilhões antes de impostos.
Se forem incluídos os valores declarados em 2025, o total chegaria a R$ 48 bilhões em cinco anos.
A partir dessa premissa, o JP Morgan estimou como a retenção desses dividendos afetaria o uso do DTA, a receita financeira líquida (NII) e o ROE. O exercício considera que um patrimônio líquido maior renderia a taxa Selic média do período, desconta o impacto de PIS/Cofins sobre receitas financeiras e assume uma alíquota de imposto retido na fonte de 15% sobre o JCP.
O relatório também leva em conta como os saldos brutos de DTA — atualmente em torno de R$ 119 bilhões — seriam consumidos ao longo do tempo.
Com base nessas variáveis, o banco estima que o patrimônio líquido tangível do Bradesco teria aumentado de cerca de R$ 34 bilhões, em 2025, para aproximadamente R$ 88 bilhões. Nesse cenário, cerca de R$ 13 bilhões em DTA teriam sido utilizados, gerando um acréscimo estimado de cerca de R$ 2 bilhões na receita financeira líquida em 2025.
O impacto também apareceria nos resultados. Segundo o JP Morgan, o lucro líquido de 2025 poderia se aproximar de R$ 30 bilhões, acima da estimativa atual de R$ 24,6 bilhões.
Do ponto de vista de capital regulatório, a recapitalização dos dividendos levaria a um aumento relevante do seu índice de saúde financeira (CET1). O JP Morgan estima que o indicador subiria de 11,4%, no terceiro trimestre de 2025, para 15,1%.
Embora esse nível possa parecer elevado, o relatório aponta que ele faria sentido diante da maior utilização do DTA e criaria uma reserva para futuras mudanças regulatórias, como exigências de risco operacional e a implementação das novas diretrizes contábeis para instituições financeiras no Brasil.
Em meio a esse debate sobre capital e estratégia de longo prazo, as ações do Bradesco estenderam as perdas pelo segundo pregão consecutivo e são as únicas entre os grandes bancos a operar em queda nesta quinta-feira, 8.
Por volta das 17h16 (horário de Brasília), os papéis BBDC4 recuavam 2%.