Correção disseminada: sem poupar setores (Eduardo Frazão/Exame)
Editor de Invest
Publicado em 5 de junho de 2026 às 12h46.
A Bolsa brasileira viveu uma das correções mais expressivas de sua história recente. Entre 14 de abril e 3 de junho de 2026, as 305 empresas analisadas pela Elos Ayta perderam, em conjunto, R$ 778,1 bilhões em valor de mercado. O Ibovespa recuou 14,26% no período, saindo do recorde histórico de 198.657,33 pontos para 170.330,63 pontos. Foram 28.326,70 pontos apagados em apenas 50 dias.
Das 305 empresas avaliadas, apenas 34 saíram do período com valor de mercado maior. As outras 271 fecharam no vermelho. Ou seja, apenas 11% das companhias conseguiram ampliar sua capitalização desde a máxima histórica.
Petróleo, bancos, energia elétrica, siderurgia, indústria e bens de capital estão entre os segmentos mais afetados. A amplitude da correção revela que a queda do Ibovespa foi acompanhada por uma reprecificação generalizada dos ativos negociados na B3.
A virada no comportamento dos investidores internacionais ajuda a explicar a extensão da correção. Dados compilados pela própria Elos Ayta mostram que maio registrou a maior saída líquida de recursos estrangeiros da B3 desde 2022. Após meses de forte entrada de capital, que sustentou a alta até o recorde de abril, os investidores internacionais passaram a realizar lucros.
O impacto foi amplificado porque os estrangeiros concentram parcela significativa da liquidez do mercado acionário brasileiro. Quando reduzem exposição, especialmente em ações de grande capitalização, a pressão sobre o índice e sobre o valor de mercado das empresas tende a ser intensa. A correção resultou de uma combinação de fatores econômicos, financeiros e de percepção de risco, mas a retirada de capital externo aparece como um dos principais vetores da destruição de valor observada no período.
A Petrobras registrou a maior perda individual da amostra. A estatal viu sua capitalização encolher R$ 85 bilhões entre abril e junho. O Itaú Unibanco perdeu R$ 78,6 bilhões em valor de mercado, a segunda maior queda do levantamento. A Axia Energia ficou em terceiro lugar, com retração de R$ 46,6 bilhões.
A Weg perdeu R$ 42,5 bilhões no período. O BTG Pactual registrou redução de R$ 37,7 bilhões em capitalização. As cinco empresas juntas responderam por mais de R$ 290 bilhões da destruição total de valor da amostra.
As exceções ao cenário negativo ficaram concentradas principalmente no setor siderúrgico. A Gerdau ampliou seu valor de mercado em R$ 4,79 bilhões no período. A Usiminas registrou crescimento de R$ 4,58 bilhões. A Ambev aparece na sequência, com valorização de R$ 2,81 bilhões, seguida pela Ampla Energia, que adicionou R$ 2,43 bilhões em capitalização.
O maior crescimento de valor de mercado da amostra foi da Bradsaúde (SAUD3), com expansão de R$ 28,66 bilhões. O resultado, porém, tem natureza extraordinária. O desempenho reflete a reorganização societária promovida pelo Bradesco no setor de saúde, que transformou a antiga Odontoprev na Bradsaúde.
A operação consolidou em uma única empresa listada ativos como Bradesco Saúde, Mediservice, Atlântica Hospitais e outras participações estratégicas do grupo. Como a companhia passou a ser negociada na B3 durante o período analisado, o crescimento de valor de mercado decorre principalmente do processo de listagem, não de uma valorização orgânica das ações.