Erosão do prêmio Buffett: um dos motivos para queda da ação (Montagem/EXAME/Getty Images)
Editor de Invest
Publicado em 27 de abril de 2026 às 09h30.
Um ciclo se completará no próximo sábado, 2, quando a Berkshire Hathaway realizar o seu tradicional encontro anual de acionistas. É que um ano atrás, nesse mesmo evento, Warren Buffett, o oráculo de Omaha, anunciou sua aposentadoria e a passagem de bastão de CEO da firma de investimentos para Greg Abel. De lá para cá, a Berkshire descolou dos benchmarks: enquanto o S&P 500 subiu 26% nesse período, as ação da empresa recuaram cerca de 13%.
O mercado ainda está digerindo o fim de uma era. A queda reflete a erosão do que os analistas chamam de "prêmio Buffett". O novo CEO tem tomado as rédeas da gestão do portfólio sem ter muita experiência nisso e o volumoso caixa da companhia, de US$ 373 bilhões ao final de 2025, é outro ponto de atenção.
A queda no preço da ação, porém, é vista por alguns agentes como uma oportunidade rara de adquirir o papel. O investidor Christopher Davis, da Hudson Value Partners, explicou na última edição da revista Barron's que o mercado está migrando para o que ele chama de ações HALO. São empresas com ativos físicos pesados, como mineradoras, ferrovias e utilities, e que a inteligência artificial dificilmente vai conseguir disruptar, ao contrário de empresas de software ou serviços.
Na avaliação de Davis, porém, os investidores estão ignorando justamente uma das melhores representantes desse perfil. "A Berkshire é a empresa HALO definitiva, dada a durabilidade e proteção contra a inflação do negócio de seguros e os negócios industriais muito difíceis de replicar", afirma, chamando as ações de "mola comprimida" no preço atual.
O analista Brian Meredith, do UBS, compartilha do otimismo. Segundo ele, as ações estão atrativas em relação ao valor intrínseco e também defensivas, dada a diversificada capacidade de geração de lucros e a enorme posição de caixa da empresa.
"Os fundamentos do negócio estão bem, mas não são fenomenais", pondera Meredith à Barron's, acrescentando que há espaço para Abel melhorar o desempenho em divisões-chave como a ferrovia Burlington Northern Santa Fe (BNSF) e a Berkshire Hathaway Energy, ambas atrasadas em relação a concorrentes em métricas de lucratividade.
No lado operacional, os desafios são reais. "As receitas operacionais ficaram estagnadas na Berkshire no ano passado", diz Cathy Seifert, analista da CFRA, à Barron's. "Gostaria de ver Greg Abel enfrentar os problemas e delinear um plano de melhoria de lucros e receitas." A analista aponta ainda que Abel precisará explicar ao mercado como pretende alocar o caixa bilionário acumulado por Buffett ao longo de décadas.
Uma novidade que chamou atenção foi a decisão de Abel de assumir o controle de praticamente todo o portfólio de ações de US$ 300 bilhões da companhia. Ted Weschler, gestor de longa data na Berkshire, ficará responsável por apenas 6% do portfólio — ante 5% quando Buffett era CEO. A mudança surpreende porque Abel não tem experiência formal como gestor de portfólio e está plenamente engajado no lado operacional dos negócios. Todd Combs, que dividia a gestão com Weschler, deixou a Berkshire em dezembro para um cargo de investimentos no JPMorgan Chase.
Em sinal de confiança no valuation atual, no início do mês passado, a Berkshire voltou a recomprar ações após um hiato de quase dois anos, trazendo US$ 225 milhões em papéis de volta à companhia numa recompra inicial.
Com as ações em queda desde então, a companhia pode ter continuado ou acelerado o ritmo de recompras. Os detalhes serão divulgados junto com os resultados do primeiro trimestre no encontro de acionistas do próximo sábado.