Ações da Azul: volatilidade decorre de valor baixo das ações (Alexandre Battibugli/EXAME.com)
Repórter
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 14h04.
Depois de acumularem uma queda de 98,61% nos cinco primeiros pregões de 2026, as ações da Azul (AZUL54) dispararam 160% nesta sexta-feira, 9, em uma sessão marcada por sucessivos leilões. O movimento reverte parcialmente as perdas após a forte diluição provocada pelo aumento de capital.
Nesta quinta, 8, os papéis da companhia áerea desabaram 90,20%, ampliando para 98,61% a queda acumulada desde o dia 2 de janeiro. O tombo refletiu o impacto direto da ampla operação de aumento de capital concluída pela companhia no início da semana no contexto do processo de recuperação judicial nos Estados Unidos.
Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, afirma que a Azul se tornou uma "montanha-russa" na bolsa porque, após a megadilução, o preço efetivo das ações caiu para a casa dos centavos.
A empresa colocou no mercado mais de 1,4 trilhão de novas ações, entre ordinárias e preferenciais, em uma operação que levantou cerca de R$ 7,4 bilhões. A emissão teve como objetivo principal converter credores em acionistas e reduzir o elevado endividamento da companhia, que ultrapassa os R$ 40 bilhões.
Com isso, o número de ações em circulação aumentou de forma expressiva, provocando uma diluição estimada em até 90% para os acionistas atuais, com possibilidade de impacto ainda maior para os minoritários. E é justamente essa diluição massiva que explicou o colapso recente dos papéis.
Agora, segundo o especialista, apesar de o valor nominal parecer alto à primeira vista, o lote padrão é de 10 mil papéis, o que distorce a percepção do investidor.
"É um papel que, na prática, vale centavos. Apesar de o valor nominal parecer alto, é preciso dividir o preço por 10 mil, que é o tamanho do lote padrão, para chegar ao valor real da ação. Isso faz com que qualquer movimentação gere variações percentuais muito grandes: o papel cai 80%, cai 50%, depois sobe 60%. Essa volatilidade extrema não vem só do mercado, mas do fato de que o preço unitário é muito baixo e as ações, hoje, praticamente não têm valor", afirmou Sant'Anna.
O especialista também destaca que a intensidade da queda abriu espaço para movimentos de short squeeze, no jargão do mercado. Esse é um movimento técnico que força investidores a recomprar papéis.
Ele ocorre quando muitos investidores estão "vendidos" em uma ação, ou seja, apostando que ela vai cair, e, ao invés disso, ela começa a subir. Isso os obriga a recomprar os papéis para limitar prejuízos, criando uma pressão de compra que faz o preço subir ainda mais.
"Muita gente estava vendida no papel, pressionando o preço para baixo. Quando esses investidores começam a realizar lucro, quem vendeu há dois, três ou até cinco dias já estava com ganho relevante, e eles precisam encerrar a posição. E encerrar uma posição vendida significa comprar a ação. Como o preço unitário é muito baixo, essas recompras exigem volumes muito grandes, o que provoca altas rápidas e intensifica essa dinâmica de montanha-russa no papel", disse.
Segundo Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, a queda é resultado direto da dinâmica de oferta e demanda. A entrada de um volume gigantesco de novas ações no mercado reduz o valor relativo de cada papel existente, pressionando os preços para baixo.
"O mercado costuma reagir mal a essas ofertas, basicamente. Há muita diluição no papel. Os investidores não confiam na recuperação mesmo com essa diluição em vista, o preço da emissão está muito abaixo das expectativas. Então a primeira reação de curto prazo é uma queda muito forte", afirmou Lage.
"É uma reprecificação do risco diante desse processo judicial, uma venda forçada ou tomada de lucro para investidores que não querem fazer a subscrição e uma alta expectativa de perda no valor do papel no curto prazo", acrescentou.
A pressão vendedora ganhou força nos primeiros cinco pregões do ano com o início das negociações dos novos papéis, que passaram a ser agrupados em cestas para viabilizar a negociação na bolsa. As ações preferenciais começaram a ser negociadas sob o código "AZUL54", movimento que reflete a conversão de dívidas em ações prevista no plano de reestruturação aprovado pela Justiça dos Estados Unidos.
Embora a operação represente um avanço relevante no processo iniciado em maio do ano passado, quando a Azul recorreu ao Chapter 11, o impacto sobre as ações segue sendo determinado, sobretudo, pelos efeitos da diluição.
Em dezembro, mesmo após a Justiça americana aprovar o plano de recuperação judicial — com mais de 90% de apoio em todas as classes de credores —, os papéis já haviam reagido negativamente, passando a ser negociados na casa dos centavos.Na avaliação do mercado, o principal fator por trás dessas quedas é o redesenho da estrutura acionária da companhia.
Para o especialista da Axia Investing entrar no papel da Azul neste momento só faz sentido com base em cálculos e projeções concretas sobre a recuperação da empresa no médio e longo prazo. Fora isso, o risco segue elevado e o movimento tende a ser predominantemente descendente.