Ouro na bolsa: CEO da Aura conta os planos para ir além das metas

Aura Minerals atrai mais de 40 mil investidores com tese de geração de caixa e crescimento em ativo anticíclico, conta o CEO Rodrigo Barbosa à EXAME Invest
Rodrigo Barbosa, CEO da Aura, mineradora de ouro e cobre listada na B3 na forma de BDRs (Aura/Divulgação)
Rodrigo Barbosa, CEO da Aura, mineradora de ouro e cobre listada na B3 na forma de BDRs (Aura/Divulgação)
Por Marcelo SakatePublicado em 25/04/2022 07:15 | Última atualização em 25/04/2022 01:00Tempo de Leitura: 7 min de leitura

Na tese da diversificação de portfólio, investir em commodities metálicas tem sido uma das principais recomendações de estrategistas neste ano em razão das perspectivas de valorização e de servirem como proteção da inflação.

Mas dentro da categoria há ativos com apelos adicionais, como performar de forma anticíclica, ou seja, ter desempenho positivo e destacado justamente quando a economia não vai bem. É o que argumenta Rodrigo Barbosa, CEO da Aura Minerals (AURA33), mineradora de ouro e cobre listada na B3 na forma de BDRs (recibos de ações do exterior), em sua estratégia para convencer investidores de que se trata de uma ação que deve ser considerada para incluir no portfólio.

Outro argumento vem do agressivo plano de crescimento colocado em prática desde o IPO (oferta pública inicial) para a negociação de BDRs na B3 em julho de 2020. A Aura anunciou na última semana a compra de 100% da mineradora australiana Big River Gold, em negócio que inclui uma join venture com a Dundee Resources.

"A aquisição está em linha com o nosso plano de crescimento e com o projeto que lançamos desde o IPO de aumento da produção. Por termos um balanço robusto e até excesso de caixa, vemos possibilidade de crescer ainda mais por meio de novos M&As [fusões e aquisições] que estão no nosso radar", disse Barbosa à EXAME Invest.

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O executivo se refere ao plano de atingir a produção de pelo menos 400 mil onças equivalentes de ouro (GEO) -- medida-padrão equivalente a 30 gramas -- até 2024. No fim de 2020, ano do IPO, estava em 204 mil onças, o que significa quase dobrar a produção caso a meta seja alcançada. No ano passado, o crescimento foi de 32%, para 269 mil onças.

Com a Big River Gold, a Aura incorpora o projeto de produção de ouro a céu aberto de Borborema, no Rio Grande do Norte, que atende ao racional de estágio avançado de estudos de geologia, licenciamento obtido e prestes a começar a construção. E em país onde a mineradora já tem operação, o que acaba simplificando o processo produtivo.

Barbosa explicou que outros dois projetos em desenvolvimento, que já estão no portfólio da Aura, permitem atingir a meta até 2024: Almas, no estado de Tocantins, já em construção; e Matupá, em Mato Grosso, em fase que antecede o pedido de licenciamento.

"Depois de 2024, não tínhamos a perspectiva de crescimento em novos projetos. Agora [com Borborema] colocamos um projeto que nos leva potencialmente para 500 mil onças logo depois de 2024. Pode ser em 2025", disse.

Ele ressaltou, no entanto, que a decisão sobre executar os projetos de Matupá e de Borborema em conjunto ainda será discutida. "Com o preço do ouro elevado, teremos uma geração de caixa que nos permita executar os dois projetos ao mesmo tempo, mas vai depender das condições de mercado no fim do ano, que é quando vamos tomar a decisão."

O objetivo de aumentar a produção vai além do crescimento por si só, explicou Barbosa. O plano é destravar valor para a companhia. Segundo ele, mineradoras de ouro que produzem do intervalo de 100 mil a 200 mil onças (GEO) até 400 mil a 500 mil onças por ano são negociadas na bolsa a múltiplos mais baixos do que aquelas que atingem acima de 500 mil a 600 mil onças, junto com um volume diário de negociação da ação de US$ 5 milhões.

"Há mais de 50% de prêmio em valor a ser destravado para a ação se atingirmos essas métricas. Queremos produzir de 500 mil a 1 milhão de onças com fusões e aquisições como a da Big River", explicou.

Segundo o executivo, novas operações de M&A devem acontecer não só para a Aura como no setor como um todo em razão de condições mais atraentes das chamadas junior miners, mineradoras de menor porte cujo valor tem se estabilizado no ambiente de preços do ouro igualmente estáveis -- ou menos voláteis.

A cotação tem ficado na casa de US$ 1.900 a US$ 1.950 a onça equivalente de ouro. Neste ano, a valorização acumulada é de cerca de 5%. Outra razão para o aquecimento do setor é a dificuldade das junior miners em captar recursos para colocar as minas em produção em um momento mais adverso do mercado de capitais no mundo.

Ele disse que a futura mina de Borborema pode sofrer alterações. "Vamos estudar o projeto de forma técnica para avaliar oportunidades para otimizar o Capex [investimentos], reduzindo eventualmente o seu tamanho para aumentar o retorno e a geração de fluxo de caixa", afirmou. É um processo para alinhar as características com o que se espera de Almas e Matupá.

"São projetos que geram retorno tão rapidamente que não comprometem a alavancagem nem a capacidade de pagar dividendos", disse Barbosa, citando a política de distribuição do equivalente a 20% do Ebitda menos o Capex recorrente. No ano passado, foram 13,5% de dividend yield, o maior patamar entre os pares globais.

O pagamento de dividendos elevados faz parte da estratégia de atração do investidor e de aumento do volume diário de negociação, atualmente na casa de US$ 2 milhões. Outras medidas são roads shows (apresentações) com investidores estrangeiros.

Apesar das perspectivas para dobrar de tamanho e do pagamento de dividendos, os BDRs da Aura na B3 estão em trajetória de queda desde meados de 2021 e acumulam desvalorização de cerca de 40% no período. Os papeis estão 15% abaixo do preço de estreia na B3.

"A Aura representa uma história nova para o investidor brasileiro. Somos a primeira mineradora de ouro listada no país. Estamos avançando na educação do investidor, mostrando como se opera e como se analisa uma empresa de ouro. Há algumas semelhanças e muitas diferenças para mineradoras de ferro", disse o CEO da Aura.

Ele apontou como exemplos a diferença de escala e dos custos e da complexidade do transporte entre o minério de ferro e o ouro.

Outro desafio é construir um histórico de sucesso de execução em projetos greenfield (que nascem do zero), como complemento ao aumento de produção e de eficiência de minas de ouro que já estavam em operação.

"Claramente, avançando bem no projeto Almas, vamos conquistar gradualmente a confiança dos investidores, melhorando a percepção sobre a empresa e o valuation", disse Barbosa. Segundo ele, é algo que já está acontecendo com investidores pessoa física: já são mais de 40.000 CPFs, o que os tornam a principal categoria para a ação.

"Somos uma história de cash flow [geração de caixa] com crescimento e ouro. Não somos uma tese de especulação sobre o preço do ouro", definiu Barbosa.

Na avaliação dos analistas Caio Greiner e Leonardo Correa, da equipe de Equity Research do BTG Pactual, investidores concedem "zero crédito" para a história de crescimento da Aura, que é muito diferente de outras que recebem cobertura. Eles têm recomendação de compra para a ação, com preço-alvo com potencial de alta da ordem de 60% em 12 meses.

"Vemos a Aura como uma boa oportunidade para diversificação de portfólio, enquanto entrega crescimento acumulado e sólidos retornos ao longo do tempo", escreveram em relatório depois da aquisição da Big River Gold.