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Appian vai investir até R$ 700 milhões em grafite em MG com demanda de carros elétricos

Segundo Ricardo Alves, diretor do projeto, a previsão é que, com o empreendimento, a produção de grafite no Brasil quase dobre

Appian Capital Brazil: Projeto Grafite Jordânia tem capacidade superior a 50 mil toneladas anuais (Appian Capital Brasil/Divulgação)

Appian Capital Brazil: Projeto Grafite Jordânia tem capacidade superior a 50 mil toneladas anuais (Appian Capital Brasil/Divulgação)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 25 de agosto de 2026 às 14h05.

Última atualização em 27 de agosto de 2026 às 14h17.

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A Appian Capital Brazil, fundo de private equity em mineração, está de olho na transição energética. Com investimento estimado em cerca de R$ 700 milhões, segundo o diretor executivo Ricardo Alves, a companhia desenvolve o Projeto Grafite Jordânia, da Graphcoa, no Vale do Jequitinhonha (MG). O empreendimento é direcionado à produção de grafite, mineral que deve ganhar espaço com o avanço dos carros elétricos.

“A adoção de carros elétricos vai aumentar significativamente a demanda”, diz Alves, em conversa com jornalistas nesta terça-feira, 25.

Segundo ele, todos estão atentos ao lítio, mas, em uma bateria típica de veículo elétrico, o principal mineral em massa é o grafite. Em baterias que pesam entre 130 quilos e 150 quilos, por exemplo, cerca de 50 quilos correspondem ao mineral — aproximadamente um terço do total.

“Ele é um mineral extremamente importante, principalmente como uma commodity de transição energética”, afirma.

O projeto acaba de concluir o seu Estudo de Viabilidade Definitivo (Definitive Feasibility Study – DFS), documento que consolida e valida as premissas técnicas, ambientais, operacionais e econômicas do empreendimento, bem como as principais iniciativas socioambientais do grupo. Localizado no município de Jordânia (MG), o empreendimento, segundo a empresa, tem potencial para se tornar um novo polo mineral na região.

Com capacidade superior a 50 mil toneladas anuais de concentrado de grafite — com teor de aproximadamente 95% de carbono grafítico — e potencial de geração de 600 empregos diretos no pico das obras e 800 indiretos, o projeto tem previsão de entrar em operação comercial no segundo semestre de 2029.

“Uma bateria, de forma geral, tem um polo negativo e um polo positivo. E o polo negativo, o ânodo, é feito de grafite. Isso, por si só, reforça um pouco a relevância da demanda pelo grafite nos próximos anos”, destaca.

De acordo com o executivo, nos últimos anos, a produção de grafite mais do que dobrou. Hoje, a China é o principal produtor do mineral, produzindo cerca de 80% do grafite e 98% do grafite anódico, ou seja, o material já preparado para ser usado no ânodo.

Mas o Brasil já produz grafite concentrado há cerca de 80 anos, em um volume entre 65 mil e 70 mil toneladas por ano. O projeto, segundo o diretor, prevê adicionar mais 55 mil toneladas anuais. “Ou seja, a gente quase que dobra a capacidade instalada, e isso dá relevância a esse projeto dentro do contexto do grafite.”

Tudo começou com a Boa Sorte

O caminho até o projeto de Jordânia começou, porém, em outra operação da companhia: a Mina Boa Sorte. O principal objetivo do empreendimento foi servir como uma planta de demonstração, permitindo à empresa testar em escala maior o processo de produção e obter material suficiente para a qualificação do grafite junto a potenciais clientes. Isso porque, diferentemente de commodities padronizadas, como o minério de ferro, o grafite precisa atender às especificações exigidas para cada aplicação.

A planta foi construída para reproduzir as condições de uma operação industrial, com funcionamento contínuo e mais de sete etapas de concentração em série. Ao longo de 13 meses, a estrutura processou mais de 30 mil toneladas de minério e produziu cerca de 500 toneladas de grafite concentrado. Segundo Alves, o material também permitiu à empresa realizar oito exportações para os Estados Unidos e o Canadá.

O projeto cumpriu, assim, a função de permitir que a companhia produzisse grafite concentrado em uma escala suficiente para testar e entender as características do mineral e sua aplicação em baterias de veículos elétricos. A Boa Sorte, no entanto, tem capacidade limitada de expansão. Foi essa experiência que abriu caminho para o projeto de maior escala em Jordânia, que, segundo Alves, tem reservas para mais de 50 anos de operação.

Um mercado em expansão

Quando comparado à mineração tradicional, como a de minério de ferro, bauxita ou cobre, o mercado de grafite ainda opera em uma escala muito menor. No minério de ferro, por exemplo, o mundo produz cerca de 2,5 bilhões de toneladas. No cobre, são cerca de 30 milhões de toneladas e, no alumínio, 50 milhões de toneladas. Já o grafite responde por aproximadamente 1 milhão de toneladas.

“Estamos justamente presenciando esse ramp-up, nesse início de curva. Os mercados tradicionais de grafite são refratários, lubrificantes, lápis que a gente utiliza. Esses são muito razoavelmente bem atendidos. Eu não justificaria a gente construir uma nova mina, colocar cerca de R$ 700 milhões num novo projeto para atender refratário e fazer lápis. Esse não é o nosso mercado principal”, comenta.

Por outro lado, são as baterias, utilizadas em carros elétricos, que devem ampliar a demanda pelo mineral. “Não faz sentido produzir grafite e mandar para a China. Ela já é o maior produtor. Nosso foco é vender para os Estados Unidos e para a Europa, porque é onde haverá demanda. E, claro, vamos estar sempre preparados para o Brasil e para qualquer outra oportunidade.”

Investimento de R$ 3,3 bilhões em mina de níquel

A Atlantic Nickel, sob gestão da Appian Capital Brazil desde 2018, também dá um passo a mais. Localizada em Itagibá, no sul da Bahia, próximo a Ilhéus, a operação é atualmente a única produtora de níquel sulfetado do país e realiza a extração a céu aberto. Em 2025, a companhia exportou 121 mil toneladas de níquel sulfetado em 12 embarques para América do Norte, Europa e Ásia, volume 6% superior ao registrado em 2024.

Quando foi adquirida pela Appian, a Atlantic Nickel estava em meio a um processo de reestruturação e enfrentava dificuldades financeiras, em parte relacionadas aos altos custos de operação. O problema estava associado ao baixo teor de níquel do minério, que exige a movimentação de grandes volumes de material para a extração do metal. A estratégia adotada pelo fundo foi tornar a operação mais eficiente.

"Nós achamos oportunidades no mercado de mineração onde outros acham que não tem algo rentável e mudamos através da eficiência", diz Milson Mundim, country manager na Appian Capital Brazil.

O próximo passo é levar esse modelo para uma nova etapa, com a transformação da mina a céu aberto em uma operação subterrânea. O Projeto Underground, na Mina Santa Rita, prevê investimentos de cerca de R$ 3,3 bilhões e deve estender a vida útil da operação para mais de 30 anos.

A mudança também deve elevar os teores do minério extraído: segundo Mundim, com a mineração subterrânea, a companhia poderá processar praticamente o mesmo volume de minério na planta, mas obter cerca de 60% mais produto devido aos maiores teores encontrados no subsolo.

A expectativa é, assim, melhorar ainda mais a eficiência operacional e o balanço energético da mina, reduzindo a intensidade da operação. O projeto teve o desmonte inaugural para a abertura do Portal Sul em 27 de março de 2026 e já ultrapassou 300 metros de túneis construídos. A previsão é que ao final de 2028 o minério já esteja sendo produzido.

Futuro

A companhia espera um Ebitida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) recorde neste ano.

Em relação às terras raras e aos metais básicos, a Appian afirma que os segmentos estão no radar, mas não são o foco imediato. Segundo Mundim, a tecnologia para processamento de terras raras ainda é relativamente embrionária no Ocidente, enquanto os projetos da companhia que já estão em desenvolvimento estão mais avançados.

“Não é que não esteja no radar”, afirma. Ele explica que um projeto de mineração passa por etapas longas, que incluem exploração, sondagem, definição de reservas, licenciamento e desenvolvimento de engenharia, podendo levar 10 a 15 anos até chegar à produção.

Por isso, apesar do interesse crescente dos governos por terras raras, não há, neste momento, nenhum novo projeto do segmento da Appian “saindo do forno”. A companhia diz, porém, que mantém projetos em desenvolvimento sob confidencialidade.

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