Educação na bolsa: virada marcada por geração de caixa e dividendos (Adtalem Brasil/Divulgação)
Repórter de Invest
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 06h00.
O setor de educação na bolsa de valores brasileira (B3) virou a chave em 2025, após anos desafiadores para os investimentos. O período foi de transição, com as empresas mostrando forte geração de caixa e distribuindo dividendos. O entusiasmo dos investidores se manteve agora em janeiro.
A Cogna desponta como principal nome dessa reviravolta. A ações da empresa dispararam cerca de 240% em 2025, maior alta da carteira do Índice Bovespa (Ibovespa), com folga. Em janeiro, com a bolsa brasileira batendo novos recordes e um forte fluxo de capital estrangeiro chegando ao mercado de ações, a companhia seguiu na dianteira do índice, com alta de 45,05%.
O fenômeno Cogna e a maturidade operacional
A subida da Cogna não é vista pelos especialistas como um evento isolado. O CEO Roberto Valério, inclusive, disse à EXAME, no fim de 2025, que o mercado finalmente reconheceu um trabalho de reestruturação que durava quatro anos, focado no enxugamento da operação e na desalavancagem financeira.
A companhia deixou de lado o crescimento a qualquer custo e passou uma peneira em sua base de alunos, fechando campus deficitários e priorizando frentes rentáveis como o segmento B2G (negócios para o governo) e a educação básica com a Vasta. O negócio opera agora com um modelo mais leve e focado em margens.
A alavancagem, medida pela relação dívida líquida/Ebitda, caiu de 1,8 vezes para 1,1 vezes, levando BTG Pactual e Itaú BBA a elevarem a recomendação da Cogna para “compra”. As casas destacam que, mesmo com mudanças regulatórias que exigem mais presencialidade no ensino à distância (EaD), a percepção de risco sobre a empresa diminuiu drasticamente.
Já o UBS BB mantém uma postura mais conservadora, com recomendação “neutra” e atenção às novas regras do EaD. Como a Cogna possui uma base relevante de alunos em cursos impactados pela exigência de maior presencialidade, os analistas preferem esperar para ver como será a adaptação a esses custos extras.
Yduqs, Ânima, Ser e o rali do fluxo de caixa
O otimismo em grande parte das grandes casas de análise se estende para outros nomes do setor, que também vêm apresentando dados robustos. A Yduqs, por exemplo, tornou-se top pick para o Itaú BBA e para o UBS BB.
Os analistas do UBS argumentam que a reestruturação realizada pela Yduqs em 2025 pavimentou o caminho para margens Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) estáveis e uma geração de caixa recorrente com um rendimento (yield) estimado em 14% para 2026.
O valuation considerado extremamente atrativo para o UBS BB — negociando a cerca de 6,7 vezes o lucro projetado para 2026 — indica que o mercado ainda não precificou totalmente as melhorias internas da empresa. Essa visão converge com a do Itaú BBA.
Já a Ânima e a Ser Educacional surfam ondas complementares que reforçam a tese de recuperação do setor. A Ânima é vista pelo BTG Pactual como uma aposta estratégica para se beneficiar da queda dos juros, dado o seu nível de alavancagem que, embora sob controle, reage muito bem a um ciclo de flexibilização monetária.
Analistas apontam, ainda, que a Ânima é a empresa menos exposta às mudanças regulatórias do EaD. Por outro lado, a Ser Educacional continua sendo um destaque na geração de caixa, impulsionada pela maturação de seus cursos de medicina, que possuem margens superiores e ajudam na desalavancagem contínua da companhia.
O BTG diz que é possível diversificar os nomes numa mesma carteira, combinando: Vitru e Ânima, como small caps alavancadas que devem se beneficiar desproporcionalmente de juros mais baixos; e Cogna e Yduqs, como nomes de grande capitalização que oferecem escala/liquidez.
Educação: qualidade, quantidade e risco?
O que se observa é uma mudança de mentalidade em todo o segmento de educação. O foco das empresas migrou da busca desenfreada por volume de matrículas para a proteção de margens e melhoria da qualidade da base de alunos, deixando de ser uma aposta de crescimento incerto para uma tese de geração de valor e renda.
Relatórios do Bank of America e do Santander destacam que o controle rígido de custos com pessoal e a melhoria na Provisão para Devedores Duvidosos (PDA) têm sido os grandes motores para a expansão das margens em quase todas as companhias listadas. O aprendizado delas parece, finalmente, se traduzir em lucro sustentável.
Entretanto, ruídos regulatórios em torno do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) foram observados pelo JP Morgan. Notas baixas em diversos cursos das companhias listadas poderiam forçar uma redução no tamanho das turmas de medicina e mexer nas linhas de receita do setor.
O Itaú BBA não deixa de destacar, porém, que “o foco na rentabilidade e no fluxo de caixa livre deve continuar sendo o motor mais importante para uma percepção mais positiva do investidor sobre o setor”, enquanto o UBS BB vê que “o setor continua seu caminho de desalavancagem, abrindo espaço para uma maior expansão do fluxo de caixa livre”.