Follow-on: salto de R$ 1,2 bilhão para R$ 13,2 bilhões (Germano Lüders/Exame)
Repórter de finanças
Publicado em 23 de abril de 2026 às 13h18.
As ofertas no mercado de capitais bateram um recorde na série histórica acompanhada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). No primeiro trimestre de 2026, elas somaram R$ 180,1 bilhões, um aumento de 15,7% ante o mesmo período de 2025. Neste cenário, a renda fixa ainda é a protagonista, mas os híbridos e a renda variável começar a ganhar seu espaço.
Em relação as ofertas de ações, o número pode parecer exorbitante, mas elas subiram 1.000% no primeiro trimestre de 2026, quando comparado ao mesmo período de 2025: saltando de R$ 1,2 bilhão para R$ 13,2 bilhões. Ao todo, as emissões em renda variável nos três primeiros meses de 2026 já equivalem a 85% de todas as ofertas em 2025, mostra Anbima.
Esse montante é resultado de follow-ons e, para Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, a expectativa é que se abra uma janela para ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês). “Esperamos que essa dinâmica, de conseguirmos ter follow-on diversificados, de alguma maneira abra a retomada dos tão esperados IPOs.”
Essa alta nas ofertas de ações, por sua vez, é muito impulsionada pelo fluxo estrangeiro. Até o dia 19 de abril, o acumulado líquido de entrada de capital gringo no Brasil no ano era de R$ 68 bilhões, de acordo com relatório Market Data Monitor da equipe de Estratégia de Renda Variável do Itaú BBA.
Outros instrumentos se destacam, como os híbridos. O volume de emissões de Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs) mais que dobrou no período, saindo de R$ 8,12 bilhões para R$ 20,03 bilhões. Já os Fundos de Investimentos em Agronegócio (Fiagros) também avançaram, passando de R$ 1,69 bilhão para R$ 3,34 bilhões entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026.
A oferta de debêntures no mercado secundário recuou no primeiro trimestre de 2026 frente ao último trimestre de 2025: de R$ 296 bilhões para R$ 236,1 bilhões, é o que mostrou o panorama do mercado de capitais da Anbima.
No mercado primário, também houve queda: de R$ 175,04 bilhões para R$ 99,32 bilhões no mesmo período — uma queda de aproximadamente 43%. Somado a isso, houve uma abertura dos spreads das debêntures indexadas à taxa DI, refletindo sinais de estresse no mercado, indo de 1,31% em 13 de março de 2026 para 1,66% em 20 de abril deste ano.
O spread é o percentual acima do retorno de títulos públicos que as empresas oferecem. E quando eles sobem, é sinal de que a demanda diminuiu, pois o investidor está enxergando mais risco.
Mas, para Maranhão, não há uma crise em vista. Essa abertura dos spreads acontece, em parte, por uma questão de realocação de fluxo que já era previsa.
“Muita gente pergunta se é uma crise, se há algum tipo de disrupção. Eu acho que não, ajustes no spreads especialmente num mercado secundário tão líquido, é até certo ponto saudável, para que você tenha coerência entre o momento que você está vivendo e os impactos no mercado de capitais”, comenta.
Mas ele afirma: o mercado de capitais está cada vez mais conectado a economia real. “Então é natural num cenário que você tem questões macros, seja de taxa de juros, realocação de fluxo, seja de guerra ou seja político, que você acabe sentindo isso”, explica.
Cesar Mindof, diretor da Anbima, também relembra que os spreads das debêntures também estavam muito amassados no ano passado. “Houve um momento de fechamento da curva, estava muito apertado, e em um cenário de incerteza tanto externa como local, é natural que tenhamos uma reação desses spreads, mas não é algo que vemos como descontinuidade."
Para as pequenas e médias empresas, o mercado de debêntures pode ficar mais restrito em certos momentos, o que abre espaço para uma migração para os FIDCs, segundo Maranhão. No primeiro trimestre de 2026, esses instrumentos foide R$ 15,53 bilhões para R$ 21,39 bilhões — um aumento de 38%.
“Para esse público de médias e pequenas, talvez o mercado de debêntures esteja fechado ou em condições piores.”
Ele destaca que essas empresas já usam bastante recebíveis, o que torna o instrumento familiar. “O FIDC muitas vezes é a porta de entrada para pequena e média empresa”, aponta. Ainda assim, ele não vê essa migração como tendência estrutural. “Não necessariamente isso depende de uma queda na debênture para continuar crescendo.”
Para Mindof, o avanço dos FIDCs está mais ligado à maior aceitação do produto no mercado, já que o instrumento ganhou muita popularidade ao longo dos últimos anos, E isso se refletiu no aumento do uso por emissores médios.