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'A fibra é a nova proteína': canetas emagrecedoras mudam a indústria de alimentos

Menor ingestão alimentar amplia a preocupação com nutrientes e abre espaço para fabricantes reposicionarem seu portfólio na era dos GLP-1

GLP-1 muda a relação com a comida e abre nova frente para a indústria (Leandro Fonseca/Exame)

GLP-1 muda a relação com a comida e abre nova frente para a indústria (Leandro Fonseca/Exame)

Publicado em 19 de setembro de 2026 às 11h00.

Última atualização em 21 de setembro de 2026 às 14h19.

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As canetas emagrecedoras estão mudando não apenas quanto as pessoas comem, mas também o que a indústria de alimentos precisa colocar no prato. Com a popularização dos medicamentos análogos de GLP-1, indicados inicialmente para o tratamento de diabetes mas que, ao reduzirem o apetite, levaram à perda de peso, empresas passaram a olhar para uma nova demanda: produtos capazes de concentrar proteína, fibras, vitaminas e minerais em porções menores.

A mudança abre uma nova frente de negócios para o mercado de nutrição e já começa a aparecer nos investimentos e no portfólio de grandes fabricantes.

O mercado global de ingredientes proteicos está estimado em US$ 83,14 bilhões em 2026 e deve chegar a US$ 121,53 bilhões em 2031, segundo a MarketsandMarkets. No Brasil, a projeção é de US$ 2,18 bilhões neste ano, com crescimento para US$ 3,60 bilhões em 2031.

Agora, os medicamentos adicionam uma variável nova a essa equação. Se o consumidor passa a comer menos, a indústria precisa disputar um espaço menor no prato e a proteína, embora importante, não é suficiente para responder à necessidade nutricional.

"Não é tudo sobre proteína e não é só sobre proteína", afirma Mariana Lemos, head de Marketing de Nutrição e Saúde da Nestlé Brasil.

GLP-1 muda o prato — e cria uma nova disputa para a indústria

A mudança interessa diretamente à gigante multinacional suíça de alimentos e bebidas, que vem ampliando a produção de sua linha de suplementos e direcionando investimentos para acompanhar a expansão do mercado de nutrição e saúde diante do avanço das canetas emagrecedoras.

A companhia aumentou em 30% a produção da linha de suplementos, a Nutren Control. Em Araçatuba, no interior de São Paulo, a produção total da fábrica — que inclui nutrição adulta, nutrição infantil e suplementos — deve chegar a 153 mil toneladas em 2026, ante 144 mil toneladas em 2023. A unidade tem cerca de 800 funcionários e receberá R$ 540 milhões em investimentos entre 2025 e 2028.

O movimento da indústria de alimentos é uma consequência de uma transformação maior provocada pelos GLP-1. O mercado global desses medicamentos movimentou US$ 66,4 bilhões no ano passado e pode alcançar US$ 185,3 bilhões até 2033. No Brasil, estimativas apontam que o segmento pode saltar dos atuais R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões até o fim da década.

A redução da fome, porém, não diminui apenas o consumo de calorias. Junto com a quantidade de comida podem desaparecer da dieta carboidratos, gorduras, fibras, vitaminas e minerais.

Médica intensivista e nutróloga, Valéria Rosenfeld, gerente médica de Nutrição e Saúde da Nestlé Brasil, explica que a redução da ingestão alimentar provocada pelos medicamentos pode comprometer o consumo desses nutrientes, que continuam necessários mesmo quando o objetivo é preservar a massa muscular.

"Em alguns casos, é necessário aumentar a ingestão de proteína porque o paciente passa a consumir menos do que o necessário. Mas, se a alimentação não fornecer quantidades adequadas dos demais nutrientes, essa proteína não será devidamente metabolizada e poderá ser desviada para a produção de energia", afirma.

"Há uma preocupação muito grande com a proteína porque, quando a pessoa perde peso, pode perder também massa muscular. Mas não podemos esquecer os outros nutrientes. Para que essa proteína seja utilizada adequadamente pelo organismo, é preciso garantir também carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais", afirma.

A proteinização tem um limite

A consequência pode aparecer também na disposição. Segundo Rosenfeld, pacientes em tratamento podem chegar às consultas com fadiga e dificuldade para fazer atividade física. Uma das razões pode ser a redução excessiva de carboidratos, que fornecem energia e glicose para o cérebro. Irritabilidade, dificuldade de raciocínio e cãibras também podem aparecer nesse contexto.

A preocupação não é apenas teórica. Segundo a especialista, séries de pacientes publicadas na literatura já identificaram redução na ingestão de ferro, cálcio e vitamina D, além de possível redução de vitamina C. Quando a ingestão alimentar cai de forma acentuada, algumas deficiências podem aparecer rapidamente.

"O paciente pode ter obesidade e desnutrição ao mesmo tempo", afirma Guilherme Giorelli, médico nutrólogo e professor de Nutrologia, Medicina do Exercício e Esporte e Endocrinologia.

"A medicação não te ensina a comer, ela diminui a fome", diz. De acordo com o médico, o tratamento precisa combinar medicamento, alimentação, exercício e educação. A pessoa pode começar a comer menos e ficar satisfeita com a perda de peso, mas precisa aprender a fazer escolhas melhores dentro desse novo limite.

Essa preocupação ganha importância à medida que os medicamentos conseguem produzir perdas de peso cada vez maiores. De acordo com dados de Giorelli, uma perda de 5% do peso já pode reduzir a pressão arterial. Entre 5% e 10%, podem aparecer melhorias em depressão e função sexual; entre 10% e 15%, benefícios em osteoartrite e esteatose hepática; acima de 15%, pode haver remissão do diabetes em alguns pacientes.

O ponto, portanto, passa a ser não apenas quanto peso é perdido, mas qual é a composição dessa perda.

Esse cenário cria uma oportunidade para a indústria de alimentos e nutrição, mas também muda o tipo de produto que pode fazer sentido para esse consumidor. Quanto menor a quantidade de comida ingerida, maior a importância de entregar nutrientes em porções menores.

Uma pesquisa encomendada pela Nestlé, com 320 pessoas de 18 a 50 anos, de todas as regiões do país e das classes A, B e C, ajuda a dimensionar esse comportamento. No grupo pesquisado, 25% disseram usar medicamentos análogos de GLP-1 e 18% afirmaram já ter usado. Entre usuários e ex-usuários, 95% buscavam uma alimentação mais saudável, 64% monitoravam indicadores de saúde, 59% faziam acompanhamento nutricional e 54% utilizavam aplicativos.

O levantamento foi feito com pessoas que já tinham algum nível de preocupação com alimentação ou corpo e, portanto, não representa a população brasileira como um todo. Ainda assim, oferece um retrato do perfil de consumidor que a indústria de alimentos e nutrição começa a acompanhar.

Depois da proteína, a indústria mira a fibra

Para a Nestlé, esse movimento abre espaço para um portfólio que não depende apenas da tendência de produtos com alto teor de proteína. A empresa aposta em suplementos e produtos voltados a diferentes necessidades nutricionais, enquanto acompanha a mudança no comportamento de quem utiliza os medicamentos.

A indústria também começa a olhar para outro nutriente que pode ganhar protagonismo com a popularização dos GLP-1: a fibra. "Hoje a gente fala muito de proteína, mas a fibra é a nova proteína", afirma Lemos.

Nesse caso, a fibra entra na equação por outro caminho, ela pode se tornar mais difícil de atingir quando o volume total de alimentos consumidos diminui. A estratégia também envolve educação. Segundo a head de Marketing e Nutrição, a companhia mantém programas de capacitação para profissionais de saúde e uma plataforma que reúne mais de 3 mil profissionais em cursos gratuitos.

A expansão desse mercado, porém, depende de fatores que vão além do portfólio. O aumento do número de pacientes em tratamento também coloca pressão sobre a capacidade de produção, distribuição e atendimento médico.

Para Giorelli, o avanço dos medicamentos depende não apenas da capacidade de produzir as canetas, mas de colocá-las à disposição de uma população muito maior. Um dos gargalos que ele identifica para a indústria farmacêutica é logístico. Boa parte dos tratamentos é injetável e exige uma cadeia de produção, armazenamento e distribuição adequada.

Ao mesmo tempo, a falta de profissionais especializados em obesidade pode limitar a expansão do tratamento. "Não existem especialistas em obesidade suficientes para atender essa população. Precisamoscapacitar o médico da atenção primária, o clínico, o médico de família, para que ele consiga entender que obesidade é uma doença e saiba tratar essa doença".

O preço também entra nessa equação. os especialistas citam a possibilidade de medicamentos mais baratos, inclusive com a entrada de genéricos, ampliarem o acesso ao tratamento. Eles argumentam que a análise econômica não deveria considerar apenas o custo da medicação, mas também as doenças e complicações que podem ser evitadas ao longo de 10 ou 20 anos.

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