Serasa Experian: indicador mostra que pedidos de falência recuaram
Repórter de finanças
Publicado em 7 de abril de 2026 às 06h00.
A combinação de juros elevados, maior seletividade na concessão de crédito e demanda desigual entre setores tem pressionado o caixa das empresas. O resultado é que o número de negócios sob recuperação judicial, que atingiu um recorde em 2025: foram 2.466 CNPJs, o maior da série histórica iniciada em 2012. É o que mostra a última edição do ‘Indicador de Falências e Recuperações Judiciais’.
A análise mensal reforça esse diagnóstico. Ao longo de 2025, o volume de empresas em recuperação judicial permaneceu consistentemente acima da média histórica, que gira em torno de 106 CNPJs por mês. O recorde foi em outubro do ano passado, quando 345 empresas entraram em recuperação judicial, seguido por março quando 273 CNPJs estiveram nessa situação, frente a 249 em abril.

Fonte: Serasa Experian
Apesar do recorde, o ritmo de expansão perdeu força. Depois de um salto de 36,2% em 2023 e de 26,4% em 2024, o número de empresas em recuperação judicial cresceu 12,9% em 2025. Na leitura dos dados, esse movimento aponta para uma normalização após um período de forte aceleração, mas em um nível ainda elevado.
“O fato de o crescimento anual dos pedidos ter perdido fôlego em 2025 não garante que veremos o mesmo movimento em 2026. A economia deve desacelerar, o ritmo de corte de juros pode ser menor do que o projetado, mantendo a Selic em patamar restritivo e as condições de crédito apertadas”, afirma Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian.
Além disso, segundo ela, os dados de inadimplência da Serasa Experian seguem exigindo atenção: são 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de 7 restrições por CNPJ negativado. “Em geral, a inadimplência costuma anteceder os movimentos de recuperação judicial, o que nos deixa em estado de alerta para as próximas leituras”, completa a economista-chefe da datatech.
Outro ponto relevante é que o aumento das recuperações ocorre em paralelo à expansão da base de empresas no país. Entre 2023 e 2025, o número de companhias ativas (excluindo MEIs) acelerou de forma significativa, com crescimento de 6,5% em 2023, 13,4% em 2024 e 22,5% em 2025.
Esse movimento ajuda a relativizar parte da alta nas recuperações: há mais empresas operando — e, portanto, mais empresas potencialmente sujeitas a dificuldades financeiras. Ainda assim, o avanço das recuperações acima do padrão histórico mostra que o problema vai além de um simples efeito de base.
Abdelmalack explica que “esse descolamento em relação à tendência estrutural sugere que a pressão sobre o caixa das empresas — especialmente nos segmentos mais sensíveis ao crédito — continuou significativa, levando mais negócios a recorrer ao mecanismo de reestruturação judicial”.
E o estudo mostra que as empresas preferem o processo formal conduzido no âmbito do Judiciário. Nos últimos anos (2024-2025), para cada 16 pedidos de recuperação judicial, apenas 1 correspondia à alternativa extrajudicial, evidenciando a menor utilização desse mecanismo, que depende de maior convergência entre credores e de negociações diretas para sua efetivação. Ainda assim, o instrumento vem ganhando algum espaço, considerando que, em 2023, essa proporção era de 26 para 1.
Em 2025, os pedidos de recuperação judicial ficaram concentrados principalmente em dois setores: “Agropecuária” e “Serviços”, que praticamente empatam na liderança, com 30,1% (743 CNPJs) e 30% (739), respectivamente.
Na sequência aparecem “Comércio” (21,7%; 535) e “Indústria” (18,2%; 449). Na prática, isso mostra que o problema está mais espalhado em setores ligados ao consumo e à dinâmica do crédito, mas com destaque crescente para o agro.
Na comparação com 2024, o que chama atenção é a mudança de peso entre os setores. A “Agropecuária” ganhou espaço (+3,8 p.p.) e “Serviços” avançou levemente (+0,6 p.p.), enquanto “Comércio” (−2,4 p.p.) e “Indústria” (−2,0 p.p.) perderam participação. Ou seja, há uma migração gradual das dificuldades para atividades mais expostas a ciclos e volatilidade.
Fonte: Serasa Experian (Serasa Experian/Reprodução)
No longo prazo, essa mudança é ainda mais clara: a “Agropecuária” saltou de apenas 1,3% em 2012 para 30,1% em 2025, enquanto “Indústria” (de 34,4% para 18,2%) e “Comércio” (de 31,2% para 21,7%) perderam relevância. Já “Serviços” se manteve relativamente estável (de 33,1% para 30,0%). O dado sugere que o agro passou a recorrer muito mais à recuperação judicial ao longo dos anos.
“A agropecuária opera sob um conjunto de riscos climáticos e biológicos como, estiagens, excesso de chuva, geadas, pragas e doenças”, explica Camila. “A isso se somam choques de preços de commodities, insumos dolarizados como, fertilizantes e defensivos, exposição cambial e um ciclo financeiro mais longo de safra–entressafra, que amplifica a volatilidade de receita e caixa”, diz.
Ela continua: “Em cenários adversos, esses fatores comprimem margens e capacidade de pagamento ao longo de toda a cadeia, do produtor à armazenagem, logística, agroindústria e tradings, elevando a necessidade de renegociação de passivos e tornando a recuperação judicial um instrumento para preservar operação e emprego.”
Em contrapartida aos números de recuperação judicial, em 2025, o total de CNPJs com pedidos de falência caiu para 698, registrando uma redução de 19% em relação a 2024. Olhando para o histórico, esse número segue muito abaixo dos 1.810 CNPJs registrados em 2012, representando uma queda de cerca de 61% no período.
Fonte: Serasa Experian e Receita Federal (Serasa Experian e Receita Federal/Reprodução)
O cenário reflete mudanças nas práticas de cobrança e nos instrumentos jurídicos disponíveis: hoje, há alternativas mais eficazes para acionar empresas devedoras, diminuindo a necessidade de recorrer à falência como estratégia de recuperação de crédito. Por setor, a redução também foi expressiva em comparação a 2012: a Indústria caiu de 825 para 344 pedidos (‑58%), o Comércio de 530 para 182 (‑66%), Serviços de 442 para 168 (‑62%) e a Agropecuária de 13 para 4 (‑69%).
O quadro que emerge, então, é de transição. O pico de aceleração das recuperações judiciais parece ter ficado para trás, mas o nível elevado indica que a fragilidade financeira das empresas ainda é relevante. Com perspectiva de desaceleração econômica, juros possivelmente ainda restritivos e crédito seletivo, o cenário para 2026 segue desafiador. O último Boletim Focus já projeta juros ao final de 2026 em 12,50%.