6 impactos econômicos da alta do petróleo: do dólar à gasolina

Preço do barril chegou a subir para quase 140 dólares e atingiu maior patamar desde 2008, com pressões sobre petróleo russo
Petróleo acumula mais de 60% de alta no ano (Anton Petrus/Getty Images)
Petróleo acumula mais de 60% de alta no ano (Anton Petrus/Getty Images)
Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

Publicado em 07/03/2022 às 11:54.

Última atualização em 07/03/2022 às 11:55.

A guerra entre Rússia e Ucrânia segue impulsionando o preço do petróleo no mercado internacional. Neste início de semana, a commodity superou pela primeira vez desde 2008 a marca dos 130 dólares por barril, chegando a ser negociada próximo de 140 dólares na máxima intradia. A forte valorização ocorre em meio a sinalizações sobre sanções ao petróleo russo, que reduziria a já escassa oferta global. Mas o que isso significa para a economia e para o mercado financeiro?

Commodities

O primeiro efeito da disparada do petróleo, que já supera 60% de alta no ano, é a apreciação de commodities que podem ser suas substitutas. O gás natural, que tem a Rússia como uma das maiores produtoras do mundo, tem acompanhado a maior parte da valorização do petróleo, com 40% de alta no ano. Entre elas ainda estão a soja, utilizada na produção de biodiesel, e a cana-de-açúcar, do etanol. O próprio açúcar, afetado indiretamente pela guerra, já subiu 10% na bolsa de Chicago.

Os efeitos, porém, não se restringem ao mercado de energia, dado que o petróleo também é matéria prima de diversas cadeias produtivas. O algodão, por exemplo, substituto do poliéster (derivado do petróleo), já subiu 10% em 2022.

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Crescimento

Preços mais altos, consequentemente, desincentivam o consumo. Preocupações sobre os efeitos econômicos da valorização das commodities, inclusive, chegaram a diminuir as apostas de que o Federal Reserve subirá em 0,50 ponto percentual a taxa de juros americana na reunião deste mês. Os reais efeitos na economia, no entanto, ainda são incertos.

Lúcio Vinhas de Souza, economista-chefe soberano da Moody's, em artigo publicado na Vox EU, defende que os impactos da apreciação de commodities no crescimento tem diminuído desde a década de 1980, embora também pontue que choques de preços, especialmente de commodities energéticas, "estão entre as ameaças potenciais consideradas mais importantes para a economia global".

Inflação

O que já é considerado consenso são os impactos das commodities na inflação, que tende ganhar força conforme o petróleo atinge novos patamares. Os efeitos, segundo economistas, devem se concentrar nos preços dos combustíveis e alimentos.

Produtores, mais sensíveis à variação de preços, têm sofrido os maiores impactos. A inflação ao produtor (IPP) da Zona do Euro bateu máxima histórica em janeiro, com alta anual de 30,6%. Somente o IPP de janeiro ficou em 5,2%, mais do que o dobro do esperado por economistas. A expectativa é de que parte seja repassada ao produto final, impactando a inflação ao consumidor, que já está em 5,8% na Europa e em 7,5% nos Estados Unidos.

Economistas também projetam mais inflação no Brasil. Em boletim Focus divulgado nesta segunda, o consenso do mercado para o IPCA deste ano subiu para 5,65%, afastando-se ainda mais do topo da meta de inflação, de 5%.

Juros

Para controlar a inflação, economistas esperam por políticas monetárias mais duras, ainda que isso represente mais um obstáculo ao crescimento. André Perfeito, economista-chefe da Necton, sinalizou que deve revisar o fim do ciclo de alta da Selic de 12,25% para até 13,25%.

A taxa básica de juros da economia brasileira está, hoje, em 10,75%. Já as estimativas de economistas para a Selic de 2023 foi revisada no Focus desta segunda de 8% para 8,25%. Nos Estados Unidos, apesar das preocupações sobre os impactos econômicos, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, tem reforçado a necessidade de subir juros diante dos efeitos inflacionários do conflito na Ucrânia.

Ações

A disparada do petróleo tem aumentado a cautela nas bolsas de valores do mundo inteiro, que atingiram máximas históricas durante a pandemia. Temores de inflação, aperto de juros e menor crescimento têm forçado os principais índices de ações para baixo conforme a guerra se intensifica e o preço de commodities aumenta. O Ibovespa, no entanto, tem destoado do resto do mundo e já subiu 10% em 2022.

Isso porque mais de 25% do índice é composto por ações da Petrobras (PETR3/PETR4) e Vale (VALE3), que têm se beneficiado da valorização do petróleo e minério de ferro, respectivamente. Ações de siderúrgicas e empresas petrolíferas privadas, com posições menores no Ibovespa, também tem contribuído para o movimento positivo. No exterior, os índices S&P 500, dos Estados Unidos, e o alemão Dax acumulam respectivas quedas de quase 10% e 20% no ano.

Dólar

Enquanto a busca por proteção no mercado internacional tem levado à apreciação do dólar, a moeda tem ido em direção oposta frente ao real. O dólar caiu cerca de 10% desde o início do ano, saindo de próximo de 5,60 reais para quase 5 reais.

A procura por empresas de commodities listadas na bolsa brasileira e a alta de juro devem derrubar ainda mais a cotação da moeda, segundo Perfeito. Somente na B3, a entrada de estrangeiros foi de 60 bilhões de reais nos dois primeiros meses do ano.

"Eles querem commodities e tem a bolsa brasileira para comprar. Querem juros e estamos dando juros. Acho que o dólar pode romper o suporte de 5 reais", disse o economista no programa Abertura de Mercado, da EXAME Invest, desta segunda.