5 motivos para não ter recessão nos Estados Unidos, segundo a Gavekal Research

Novo consenso sobre contração da maior economia do mundo está "completamente errado", diz sócio-fundador e economista-chefe da Gavekal
Trader preocupado na Bolsa de Valores de Nova York (TIMOTHY A. CLARY/ AFP via/Getty Images)
Trader preocupado na Bolsa de Valores de Nova York (TIMOTHY A. CLARY/ AFP via/Getty Images)
Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

Publicado em 06/07/2022 às 15:58.

Última atualização em 07/07/2022 às 08:13.

A crescente preocupação sobre o risco de recessão nos Estados Unidos está "completamente errada". Isso é o que afirma Anatole Kaletsky, sócio-fundador e economista-chefe da Gavekal Research, em relatório divulgado nesta quarta-feira, 6.

"Acredito que quase não há chance de uma recessão nos EUA este ano ou no início de 2023. Os investidores devem, portanto, usar o atual pânico da recessão para aumentar a proteção contra a inflação em commodities", afirmou Kaletsky em relatório.

Kaletsky chegou a dizer que o "medo" de recessão deve ser descrito como "esperança de recessão", já que uma recessão precoce nos EUA seria o melhor cenário para curar a inflação global e alcançar um rápido retorno à taxa de juros baixa e ao crescimento moderado. Porém, isso não deverá acontecer, segundo ele, por seis principais motivos. Confira. 

1 - Política monetária estimulativa

A alta de juros nos Estados Unidos se tornou um dos principais gatilhos para os temores de recessão. O Federal Reserve (Fed) elevou a taxa de juros em 0,75 ponto percentual na última decisão, a mais agressiva desde 1994. A expectativa é de que o Fed repita a dose na decisão deste mês. Mas Kaletsky classifica a política monetária americana como altamente estimulativa e insuficiente para causar uma recessão. Isso porque as taxas estariam em patamar "profundamente negativas" em termos reais.

"As condições continuarão estimulantes pelo menos até o final deste ano, porque mesmo que a taxa suba para 3% ou 3,5% até lá, a inflação retrospectiva ainda estará bem acima de 4% e é improvável que a inflação esperada para os 12 meses seguintes seja muito menor."

2 - Tempo do efeito da alta de juros na economia

A demora para que a política monetária tenha efeito econômico é a segunda razão apontada pelo economista-chefe da Gavekal para que os Estados Unidos não caiam em recessão nos próximos meses. O tempo de resposta à alta de juros, disse Kaletsky, nunca foi menor que 9 meses. 

"Os mercados, no entanto, tornaram-se confiantes de repente de que a inflação e a atividade econômica desacelerarão abruptamente nos próximos meses, mesmo antes de a política monetária ter sido seriamente restringida. Os investidores agora estão assumindo que as defasagens não foram apenas encurtadas, mas que eles se tornaram negativas."

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3 - Indicadores econômicos robustos

Apesar de toda a preocupação sobre a desaceleração da economia americana, Kaletsky acredita que os atuais indicadores não apontam para um cenário recessivo para os próximos nove meses. Um exemplo, segundo ele, é que as condições de habitação estão "bem acima dos níveis do início das recessões anteriores", mesmo com quedas significativas de vendas e lançamentos de imóveis no país em resposta ao aumento das taxas de hipoteca. 

"Da mesma forma, os preços das commodities, as vendas no varejo, o investimento empresarial, os principais indicadores e os índices dos gerentes de compras ainda são altos o suficiente para indicar um crescimento constante."

4 - Inflação não (necessariamente) mata crescimento 

Embora a inflação corroa os rendimentos reais, a Gavekal considera que esse efeito seja mais do que compensado pelo aumento forte crescimento do mercado de trabalho americano. Kaletsky pontua que o agregado de salários saltou 12,4% nos Estados Unidos nos últimos dois anos, mesmo com queda real de 2,5% do salário médio. 

"Como o PIB é impulsionado pelos gastos agregados de todos os consumidores na economia, não pelos gastos do consumidor médio individual, uma recessão é improvável quando o emprego está crescendo tão rapidamente que compensa o efeito da inflação no poder de compra dos trabalhadores individuais", explica.

5 - Reabertura da China

Kaletsky acredita que a reabertura total da China, prevista para entre o fim deste ano e o início de 2023, poderia provocar efeito semelhante na economia global à da reabertura americana em 2021.

Os preços de commodities, especialmente energéticas, poderiam explodir, caso o governo chinês adote maior tolerância aos novos casos de covid-19 no país, disse o economista-chefe da Gavekal. "Se isso acontecer, o pânico sobre a recessão desaparecerá rapidamente."

Com recessão ou não: como devo me posicionar?

Independentemente se os Estados Unidos passarão ou não por uma recessão nos próximos meses, a Gavekal preparou uma lista de ativos que podem se beneficiar em cada um dos cenários -- sendo que em nenhum deles ações de crescimento são uma resposta "óbvia".

Por outro lado, ações de valor, representadas por empresas com múltiplos baixos, pode ser uma boa escolha em um cenário sem recessão, mas com continuidade do aumento das taxas de juros. Esse também pode ser um bom momento para comprar dólar, segundo a casa de análise.

Já commodities e mercados emergentes tendem a ser mais beneficiados pela continuidade do crescimento e interrupção do aperto monetário do Fed.

Em um ambiente de recessão e com interrupção do aperto monetário, a Gavekal vê melhor oportunidade na venda de dólar e na compra de ouro e das moedas da China, Japão e Suíça. Mas caso haja recessão e o Fed siga apertando sua política monetária, a Gavekal recomenda ser "o mais defensivo possível", com a compra de dólar e títulos de curto prazo.