Netflix: qual será a próxima guerra? (Montagem EXAME)
Repórter de Casual
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 21h02.
325 milhões de assinantes, receita acumulada de US$ 45,2 bilhões no ano e a aquisição da Warner num horizonte não tão distante definem: A Netflix encerrou 2025 com xeque-mate. A tal da "guerra dos streamings" e a concorrência direta com os rivais do setor ficou no passado. A questão é: quem vai parar (ou se equiparar) a ela? Ou melhor: quem ela ainda não venceu?
A companhia divulgou hoje os dados do quarto trimestre de 2025. São números que coroam um ano em que a gigante do streaming — ou seria do entretenimento? — superou todas as expectativas de Wall Street e até do próprio setor. Para 2026, a receita prevista é de US$ 51 bilhões, vindos de múltiplas fontes: assinantes, publicidade, transmissões ao vivo e títulos fortes do mundo todo.
É um fôlego financeiro que os rivais, ainda lutando com dívidas e transições, dificilmente conseguem acompanhar. A prova máxima foi a aquisição da Warner, avaliada em US$ 82,7 bilhões. Para vencer a concorrência da Paramount/Skydance, a Netflix ofereceu uma transação 100% em dinheiro, e pausou até o programa de recompra de ações para garantir a compra. Se passará no processo regulatório, ainda não há como saber.
Mas o movimento tem a ver com a própria natureza do modelo de negócios da companhia, que age de maneira predatória e, em qualquer sinal de mudança do público, opta pela inovação em primeiro lugar. Um caminho que já foi trilhado por outras empresas gigantes e que, ao que tudo indica, vai definir os novos rivais da Netflix: as big techs.
Com valor de mercado de aproximadamente US$ 400 bilhões, no entanto, ainda falta um bocado para que a Netflix entre no hall das gigantes de tecnologia — que contempla Nvidia, Alphabet (Google), Amazon, Apple, Meta (Facebook), Tesla e Microsoft, todas avaliadas acima dos US$ 1 trilhão. Mas sonhar alto também nunca foi um problema.
A trajetória da Netflix, que nasceu em 1997 de uma dívida por atraso em um VHS, é marcada por uma capacidade predatória de identificar viradas tecnológicas: do aluguel de DVDs pelo correio à criação do streaming em 2007, que liquidou as locadoras físicas. Ao expandir-se para 190 países e investir em produções originais e premiadas, a companhia deixou de ser apenas uma distribuidora para se tornar uma potência criativa que cresce ano após ano — no caso de 2024 para 2025, mesmo diante de todas as turbulências, em 17%.
Enquanto ainda não chega nas BigFives, há outro rival mais próximo, já anunciado antes: o YouTube. A plataforma de vídeos do Google, hoje uma das principais pedras no sapato não só dos streamings como também das redes sociais, atingiu valor de mercado de US$ 550 bilhões em 2025. E mesmo frente a frente com gigantes em ascensão de crescimento no mercado, como a chinesa ByteDance (TikTok) e a própria Meta, com o Instagram, segue firme e forte na guerra, com 12,5% da audiência de TV nos EUA — contra 7,5% da Netflix, segundo dados da Nielsen.
Para alcançá-lo, o contra-ataque da plataforma de streaming tem sido romper a barreira do "on-demand" para abraçar o "ao vivo", algo que o YouTube já faz muito bem há anos. Na aposta da Netflix estão formatos clássicos de competições musicais, como o novo reality Building the Band, parcerias com o Spotify para transmissões de premiações e entrevistas exclusivas, e compra de direitos de transmissão de esportes e premiações do cinema.
A disputa, ao que parece, será decidida nos detalhes técnicos — e nessas, ter o Google como aliado é uma baita vantagem. O YouTube leva vantagem no uso de dados e inteligência artificial para personalização extrema, o que acaba mantendo o usuário conectado por mais tempo. As recomendações de vídeos são cirúrgicas, e a possibilidade de um mar de conteúdos diário também acaba sendo mais apetitosa.
Mas a Netflix não está tão atrás, não. A plataforma tem apostado grande no aperfeiçoamento de sua IA para melhorar o sistema de recomendações, além dos investimentos pesados em infraestrutura para transmissões ao vivo — superando falhas técnicas do passado.
O motor de receita também ajuda: a meta da Netflix de dobrar sua receita de publicidade para US$ 3 bilhões em 2026 é o pilar que sustentará essa briga. E a criação de conteúdos mais acessíveis e "não roteirizados", pode igualar esses dois competidores.
No fim, a guerra dos streamings evoluiu para algo maior: uma disputa para definir quem será, de fato, a "nova televisão" global. E se faz sentido, afinal, ser "só" isso.