Os juros estão no lugar errado, diz André Jakurski, fundador da JGP

Experiente gestor diz que juros deveriam estar em 6% ao ano ante uma inflação que vai a quase 4%; ele diz que o mercado está 'anestasiado' com a dívida

Para André Jakurski, um dos fundadores da gestora JGP, os juros reais em queda representaram algo benéfico para a economia quando a pandemia estourou, em março e abril. Caso os juros estivessem mais altos, a situação seria pior. Mas, na sua visão, o Banco Central está agindo com atraso. “Os juros estão no lugar errado”, disse o experiente e prestigiado gestor no evento Investidor 3.0, organizado nesta sexta-feira, 27, pela casa de análises Empiricus.

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O equilíbrio entre juros e inflação, segundo ele, é de dois pontos percentuais para cima. “Esperamos uma inflação de 3,8% no final do ano. Então, a taxa Selic deveria estar em 6% ao ano, e não 2%.”

O motivo para esse atraso do Banco Central é o olhar excessivo para o IPCA, que, segundo ele, não mede mais a inflação real. “Na pandemia, a cesta de consumo do brasileiro mudou, mas o IPCA continua a ter na cesta itens como passagens de avião, serviço que está em deflação. O IGP-M está batendo 20% no ano, e estimamos que o custo da família deve estar maior do que a inflação oficial, entre 8% e 10%. Então, os juros estão negativos.”

Veja abaixo mais insights de um dos gestores mais experientes e bem-sucedidos do país durante o evento, no qual foi entrevistado por Felipe Miranda, sócio da Empiricus, e George Wachsmann, o Jojo, sócio-fundador da gestora Vitreo.

Crise de 2008 x pandemia

A diferença entre a crise de 2008 e a atual, segundo Jakurski, é que na anterior havia o consenso de que iria haver austeridade fiscal e inflação. Agora o pensamento é: pode ser que tenha inflação, mas prevalece a ideia de que não terá.

“As pessoas não estão nada preocupadas com o crescimento da dívida do país. Isso passou a ser mais aceitável do que no passado. A dos EUA está batendo em 130% do PIB, no Brasil chegando a 100% e a da Itália explodindo também. Há uma anestesia.”

O gestor também cita um fenômeno específico da pandemia: a migração de ativos globais incentivados pela digitalização. “Isso fez com que empresas que trabalham na área tivessem rentabilidade maior que o resto. É o novo suplantando o velho e pode haver uma rotação na volta de uma certa normalidade.”

Euforia na bolsa?

Para Jakurski, o mercado financeiro já está bastante adiantado na antecipação do futuro. “Nos mercados centrais os ativos já recuperaram bem seus preços. Não há um potencial gigantesco ainda. Acho que a festa foi boa, mas ainda vai ter festa. Estamos em um período sazonal bom agora, e os late comers vão incentivar a alta do mercado, mas não muito.”

“Portanto, não vejo que a bolsa no Brasil necessariamente se esgotou. Estamos perto do nível de 2019, mas o mix de ações mudou bastante. Tem ações brasileiras descontando lucros fantásticos nos próximos cinco, dez anos. Mas tem de ver para crer, fazer uma seleção mais cuidadosa.”

Tema do mercado

O mercado vive de tema, diz Jakurski, e o tema da vez são mercados emergentes, dólar fraco e rotação. “O investidor tem de navegar entendendo para onde está indo. Chega um momento em que o mercado erra, mas no começo é quase uma profecia autorrealizável. A hora de sair é que é o ‘X’ da questão. Não pode esperar pelo último momento, já que pode não haver liquidez para sair. Tem de vender enquanto está subindo.”

Câmbio

Na sua visão, o câmbio ainda tem espaço para desvalorizar um pouco mais, mas não muito. “O real descolou bastante e vai ter de acompanhar um pouco o que aconteceu com outras moedas.”

Crescimento do país

A estimativa da JGP para o PIB em 2020 é uma recessão de 4%, graças ao auxílio emergencial, um gigantesco programa fiscal que transformou dívida em PIB, define o gestor.

Em um país que não cresce muito, como Brasil, quem vai se dar bem? Segundo Jakurski, empresas que estiverem relacionadas à digitalização. “Elas vão ter oportunidades que outras não terão.”

Risco fiscal

Para Jakurski, a tendência de gastar do governo continua. “Foi apenas amortecida por algum tempo. Ela não vai voltar a níveis do passado, mas está claro que governo e Congresso querem gastar. Vai ser difícil segurar. Até podem manter o teto dos gastos, mas podem fazer algo como fizeram com o Fundeb, e o mercado aceitar.”

Para ele, o mercado financeiro dá ânimo e otimismo para o investidor. Mas a realidade é diferente. “As pessoas têm medo de um descompasso inflacionário. Nossa projeção da inflação é de 4%, um pouco acima da meta para o próximo ano. Dada a propensão de gastar dos governos, acreditamos que em 2021 haverá mais estímulos monetários e fiscais do que os necessários”.

Navegando na crise

Questionado sobre como os fundos da gestora tiveram um bom desempenho na crise, o gestor apontou que à medida que o mercado foi registrando alta, a JGP foi vendendo posições em seus fundos. “Olhando no ano, estamos na posição mais leve que já estivemos. Temos posição em ações, long & short, algumas em moedas emergentes, nas quais vemos oportunidades operando contra euro e dólar.”

Os fundos da JGP não aproveitaram a alta da bolsa americana em fevereiro. Mas a cautela foi recompensada quando a crise chegou. “Tivemos a percepção de que negócio ia piorar e ficamos livre para aproveitar oportunidades após a queda. Quem não se prepara fica arrumando o que está ruim”.

Os fundos ganharam com câmbio, DI, bolsa e também ouro e prata. Agora, faz um alerta: compara a euforia na bolsa com o mercado em 2017 e 2018, quando houve uma queda abrupta do índice Vix, conhecido como “Índice do medo”, que mede a volatilidade de opções sobre ações do S&P 500. “O mercado sobe e as pessoas ficam muito otimistas.”

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