Com juro baixo e busca por diversificação, IPOs seguem, diz Credit Suisse

Para José Olympio Pereira, presidente do banco no Brasil, investidor está atrás de boas histórias nas ofertas, mas sendo seletivo com preços

Com 35 anos de experiência em bancos de investimento, José Olympio Pereira tem uma visão privilegiada do mercado de capitais. Há 16 anos no Credit Suisse no Brasil, dos quais os últimos oito anos como presidente do tradicional banco de investimentos suíço no país, ele demonstra um otimismo cauteloso sobre as perspectivas do mercado financeiro.

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José Olympio avalia que as ofertas públicas iniciais, os IPOs, vão continuar a acontecer mesmo em meio à volta da volatilidade dos mercados, porque os fatores estruturais que criaram as condições para o melhor ano em ofertas desde 2007 continuam presentes: os menores juros básicos da história, em 2% ao ano, e a busca do investidor por diversificação. "As companhias que são líquidas, que permitem saída ao investidor, são cerca de cem. É muito pouco. Há uma demanda por histórias novas", afirmou à EXAME Invest.

O experiente banqueiro se mostra particularmente otimista com o mercado de dívida privada, que vive um momento pelo qual ele disse ter esperado desde que começou em 1985 no Banco Garantia, trabalhando ao lado de referências como Jorge Paulo Lemann. "Se olharmos para a frente, nós antecipamos a necessidade de financiamentos da ordem de centenas de bilhões de reais em toda a área de infraestrutura, em saneamento. Quem vai prover? Acredito que o mercado interno será capaz de atender boa parte dessa necessidade", afirma.

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Mas Isso não significa que o momento não exija cautela. Em diferentes momentos da conversa, realizada por meio de videoconferência, José Olympio externou preocupação com os riscos aos quais estão expostos os milhões de novos investidores no mercado. Ele criticou o que chamou de objetivos especulativos do investidor de varejo.

José Olympio também comentou o movimento recente de profissionais que deixaram bancos tradicionais, entre os quais o Credit Suisse, para abrir seus próprios escritórios voltados para o cliente de private banking e de gestão de patrimônio (wealth management). "A nossa máquina continua a ser um imã de talentos."

Leia a seguir trechos da entrevista à EXAME Invest:

Qual a visão do senhor em relação ao impacto da pandemia na economia, em meio aos temores da segunda onda, mas com sinais positivos de aprovação de uma vacina?  

Até a vacina chegar e se mostrar eficiente, infelizmente vamos viver em ciclos, em uma montanha-russa. Claramente estamos vendo a segunda onda na Europa e nos Estados Unidos. Os dados no Brasil começam a me preocupar, com um salto forte no Sudeste. A pandemia não havia passado, mas as pessoas voltaram a se aglomerar e a não usar máscaras: o resultado pode ser a segunda onda. E isso se reflete na economia.

Como o investidor deve se comportar diante de tantas incertezas?

Há várias forças atuando. A da taxa de juros muito baixa, a da atividade econômica, a do gasto do governo. Há um número de fatores influenciando no mercado, como de costume. Tem a inflação, na qual devemos ficar de olho. Nós, por exemplo, prevemos que a taxa básica de juros volte a subir no ano que vem, mas que ainda permaneça em nível baixo.

A questão fiscal me preocupa muito. Gastamos demais durante a pandemia, levando a dívida a um nível sem precedente como proporção do PIB (deve encerrar o ano em 100% do PIB). É preciso ter disciplina fiscal daqui para a frente. Que sinais vamos dar de que a disciplina vai ser adotada? O investidor, principalmente o externo, está olhando para isso. Como fica o Teto dos Gastos? A PEC emergencial será aprovada? É a única medida com alguma chance de ser aprovada neste ano.

Outro fator importante é a segunda onda no Brasil, se vai acontecer e quais os consequentes impactos sobre a atividade econômica, que está se recuperando mais rapidamente do que se imaginava. Tem muita variável. E isso exige prudência.

Não obstante esse número de variáveis, existem alternativas de carteiras de longo prazo com alocação em ações de empresas boas e estáveis, que permitem atravessar a crise sem querer entrar e sair e acertar o timing ao longo do tempo. Para o investidor pessoa física, acho que é uma melhor estratégia uma carteira com horizonte mais longo. Tem que ver o quanto o investidor aguenta de volatilidade no meio do caminho. Se ele tiver empresas consolidadas, como Vale, bancos e outras, no longo prazo ele deve se sair bem.

Afinal, como está a janela para novas ofertas iniciais de ações?

As condições que criaram a demanda por novas ações continuam presentes. Primeiro, a busca por investimento alternativo, porque o CDI deixou de ser uma opção de alocação. Hoje é um pouso temporário do dinheiro enquanto o investidor decide o que vai fazer.

Outro ponto é que o mercado brasileiro ainda oferece poucas alternativas de empresas. Neste ano, foram mais de 25 IPOs até o momento, mas, comparado a outros mercados, até emergentes, temos um número limitado de empresas. As companhias que são líquidas, que permitem que o investidor possa sair, são cem. É muito pouco. Há uma demanda por histórias novas. O investidor quer diversificar. Se ele só investe em ações grandes que estão no índice (Ibovespa), como ele gera alfa (capacidade de um investimento gerar retorno acima do esperado)? Como se diferencia, principalmente na indústria de fundos?

Mas o investidor é seletivo. Ele quer boas histórias a preços atraentes, que façam sentido. Vivemos isso em 2007. No início de 2008, o mercado passou por uma ressaca antes da crise do subprime etc., porque a performance de muitos IPOs que haviam acontecido no ano anterior não havia sido boa.

Eu tenho cabeça de engenheiro. Gosto de dizer que dizer que a receptividade do mercado para IPOs no momento "N" é fortemente influenciada pela performance dos IPOs no momento "N-1". Ou seja, se todo mundo está ganhando dinheiro com as ofertas, a propensão do investidor para continuar a comprar é maior. É claro que essas condições variam. Mas as condições que são estruturais e criam as condições para um maior número de IPOs e ofertas continuam presentes.

O mercado está conseguindo acompanhar a necessidade de oferta de produtos para tamanha liquidez?

Nós somos o único banco global com posição de destaque tanto em banco de investimento como em private banking no país. E vemos esse processo: estamos desenvolvendo produtos de crédito, fundos imobiliários, fundos de investimento em infraestrutura, outros produtos com perfil de risco e retorno atraente para o cliente com dinheiro para investir. O mercado de crédito privado ainda vai se desenvolver muito. Acho que finalmente o mercado vai tomar o lugar do BNDES como provedor de crédito de longo prazo em reais.

Com a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP) e a eliminação de subsídios nos financiamentos do BNDES, acho que o mercado pode perfeitamente tomar esse espaço, como já está fazendo. Já há notícias de empresas que estão pré-pagando o BNDES e refinanciando no mercado, e isso é natural.

Se olharmos para a frente, nós antecipamos a necessidade de financiamentos da ordem de centenas de bilhões de reais em toda a área de infraestrutura, em saneamento. Quem vai prover? Acredito que o mercado interno será capaz de atender boa parte dessa necessidade, sem falar do mercado externo. Ao longo dos meus 35 anos de carreira, sempre esperei pelo momento em que o mercado de dívida privada fosse se desenvolver.

No lado da demanda, esse investidor em crédito privado será o institucional ou o de varejo, que vai começar a entender e a se interessar?

O investidor institucional cumpre um papel muito importante de fazer o filtro. O investidor de varejo precisa ser educado financeiramente. Eu tenho muita preocupação com o investidor de varejo comprando de forma especulativa e deseducada. O risco de ele se queimar é grande e eu já vi isso acontecer no mercado. Acho importante que todos os intermediários financeiros promovam educação financeira e alertem o investidor dos riscos que ele corre. E acho que a indústria de fundos cumpre um papel importante.

Desde outubro, o ingresso de capital externo supera a saída. O investidor estrangeiro voltou para valer?

Acho cedo dizer isso. Na semana passada (a segunda de novembro), houve um movimento de tomada maior de risco, que trouxe investidores para cá. O movimento foi muito focado em valor: bancos, shoppings e empresas que haviam ficado para trás andaram bastante. Mas é cedo para comemorar.

Na sua avaliação, a Bolsa brasileira ainda tem boas oportunidades? Em quais setores?

Tem muita empresa que ficou para trás e que ficou atraente. O setor de shopping center, por exemplo: já teve correção, mas as empresas sofreram muito. Caíram 30%, 40% no ano, será que não foi demais? Bancos também sofreram. Há muita oportunidade no mercado. A Vale (VALE3), por exemplo, quando olhamos o preço do minério de ferro. Por outro lado, há empresas de tecnologia ou de e-commerce que são negociadas a múltiplos muito altos, mas que continuam crescendo muito. O que pode parecer caro pode não ser se a empresa continuar a entregar uma taxa alta de crescimento.

Qual o potencial da onda de investimento ESG?

Eu fico muito feliz porque sou um amante do meio ambiente. Há 23 anos participo do conselho da SOS Mata Atlântica. É gratificante ver a importância que o tema tomou. Finalmente caiu a ficha de que nós temos que nos preocupar com o meio-ambiente. Aqui no Brasil sempre houve o embate entre o agronegócio e o meio-ambiente. De uma hora para outra, o agronegócio está de braço cruzado com o meio-ambiente, porque sabe que depende não só pela imagem do país e pela manutenção dos mercados de seus produtos como para garantir que as condições climáticas que fazem do país uma potência agrícola continuem.

Esse tema veio para ficar, assim como o social e a governança. A inclusão e a diversidade nunca foram tão relevantes nas empresas, como mostram iniciativas como a do Magazine Luiza (MGLU3) (a empresa abriu um programa de trainee para negros). Não é uma moda. As empresas estão sendo cobradas pelos investidores e pelos administradores de fundos.

Já começam a surgir classificações de fundos em que o impacto é o principal, e o retorno é secundário. Por exemplo, fundos para financiamento estudantil. O impacto é o fator mais importante. Nós lançamos neste ano um green bond em que os retornos dos títulos variavam de acordo com metas verdes que a empresa tinha, foi uma inovação.

O Credit Suisse anunciou em junho um acordo para adquirir até 35% da corretora modalmais. Como está o negócio?

Temos uma relação antiga com os acionistas do modalmais e uma admiração com o que fizeram em pouco tempo, com a construção de uma plataforma de investimentos. Isso nos levou a fazer esse movimento estratégico. Ainda estamos na fase de explorar formas de trabalhar juntos ativamente, de buscar sinergias.  Nós temos uma originação de produtos muito grande, que podem ser distribuídos por meio da plataforma deles. Por outro lado, eles desenvolveram uma tecnologia digital que podemos usar para os nossos clientes. Esperamos aprofundar a parceria.

A digitalização, tão importante para a atração do investidor de varejo, tem qual peso para o cliente de private banking e de wealth management?

Dispor de uma solução digital é importante. Mas, para o nosso nível de cliente, não podemos esperar que o atendimento personalizado seja substituído pela digitalização. Dito isso, as novas gerações vão querer a ferramenta digital também. Temos que oferecer as duas capacidades.

Como o senhor avalia o aumento da concorrência com novos profissionais que abrem seus próprios escritórios voltados para o cliente de private banking e de wealth management? 

Como foi noticiado, nós trocamos a liderança e um grupo de pessoas saiu para empreender. É normal. O banco repôs o time e até aumentou. A verdade é que isto aqui é uma grande máquina. É uma ilusão pensar que você é a máquina... você é a engrenagem da máquina. Eu não sou a máquina. Todos nós juntos contribuímos para fazer a máquina funcionar. Eu pergunto para os jovens: para onde você quer ir? As pessoas querem ir para a Ferrari, em que poderá contribuir muito, exercer o seu potencial e usar tudo o que a máquina coloca à disposição. A nossa máquina continua a ser um imã de talentos.

Conseguimos atrair profissionais como Ivan Monteiro, que veio tocar a área de investment banking, Solange Srour, nossa nova economista-chefe, Luciano Telo, nosso novo CIO (executivo-chefe de Investimentos), Enio Shinohara e vários outros.

Desde as nossas origens, com os elementos que formaram o que somos hoje, o Credit Suisse, o Garantia e a Hedging-Griffo, atraímos pessoas muito talentosas, permitindo que se realizem e maximizem o seu potencial.

Eu vou falar algo em que acredito muito: se você tem sua carreira e sabe o que quer, entre em um grupo de excelência. Porque excelência te contagia, te faz melhorar.

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