Gestoras recomendam venda de ações da Petrobras

Intervenção de Bolsonaro no comando da estatal reforça expectativa de aumento da taxa básica de juro, diz economista

Gestoras de investimentos já começam a recomendar para seus clientes a venda de ações da Petrobras, após o presidente Jair Bolsonaro anunciar, numa rede social na última sexta-feira, que irá
trocar o comando da maior empresa do país. Uma das preocupações dos agentes do mercado é saber se a intervenção presidencial vai se limitar à petroleira ou poderá afetar outros setores.

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A corretora XP, em relatório divulgado neste domingo, informou para seus clientes que a partir de agora passa a recomendar a venda dos papéis da estatal, mirando um valor de R$ 24 por ação. Na sexta-feira, as ações ordinárias (PETR4) da Petrobras fecharam o pregão valendo R$ 27,33. As ações preferenciais (PETR3) encerraram os negócios a R$ 27,10.

No relatório, assinado pelos analistas Gabriel Francisco e Maira Maldonado, que acompanham os setores de Energia e Petróleo & Gás, a XP argumenta que a mudança de recomendação reflete a sinalização negativa que o anúncio feito pelo presidente Bolsonaro terá sobre os papéis da estatal.

"Vemos esse anúncio (de mudança no comando da estatal) como uma sinalização negativa, tanto de uma perspectiva de governança, dados os riscos para a independência de gestão da Petrobras, como também por implicar riscos de que a companhia continue a praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços, ou seja, que reflitam as variações dos preços de petróleo e câmbio", explicam os analistas.

Durante videoconferência com integrantes do mercado financeiro no início da noite deste domingo, o analista Gabriel Francisco resumiu o relatório:

— Não faz sentido ter uma recomendação numa petroleira que não se beneficia de uma melhora nos preços do petróleo — disse.

"Em nossa opinião, existem muitas incertezas para justificar uma tese de investimento na Petrobras, e acreditamos que as ações deverão daqui em diante negociar com um desconto mais alto em relação ao histórico e a outras petroleiras globais", ponderaram os analistas da XP.

O Bradesco BBI também divulgou relatório, neste domingo, rebaixando a recomendação dos papéis da Petrobras.

Mudança surpresa

Na sexta-feira, após o fechamento do mercado financeiro, o presidente Jair Bolsonaro usou uma rede social para anunciar que iria indicar o general Joaquim Silva e Luna, atual diretor-geral da Itaipu Binacional e ex-ministro da Defesa no governo Michel Temer (MDB), para substituir Roberto Castello Branco no comando da Petrobras. A estatal não tinha um presidente militar desde 1988.

O anúncio pegou o mercado de surpresa. Os papéis da estatal negociados no exterior chegaram a cair 15% depois da divulgação da nota do presidente, que havia ameaçado na véspera fazer mudanças na estatal.

Bolsonaro pediu a saída de Roberto Castello Branco do comando da Petrobras numa reunião na última quinta-feira no Palácio do Planalto, após o quarto aumento no preço dos combustíveis anunciado pela empresa, o que irritou o presidente.

 

A reunião ocorreu pouco antes da transmissão ao vivo nas redes sociais em que Bolsonaro criticou a estatal e disse que “alguma coisa” iria acontecer na Petrobras, posição reforçada na manhã de sexta-feira.

O presidente da estatal vinha irritando Bolsonaro por conta do aumento dos combustíveis, especialmente o diesel. A situação se agravou depois que Castello Branco, em janeiro, ainda sob a pressão da ameaça de greve dos caminhoneiros, afirmou que a insatisfação da categoria é “um problema que não é da Petrobras”.

O presidente vinha dizendo a interlocutores que Castello Branco é “insensível”, tem uma gestão voltada exclusivamente a dar lucros para os acionistas privados, além de lembrar que a estatal é monopolista no segmento de refino. O presidente também tem dito que a estatal não está sendo transparente na sua política de preços.

Gestora mostra preocupação com interferência

A gestora Aberdeen Standard Investments, dona de a 0,5% do capital social da estatal, enviou no último sábado carta aos membros do Conselho de Administração da Petrobras em que mostra preocupação com a mudança no comando da estatal.

A carta, a qual O GLOBO teve acesso é assinada por Devan Kalook, diretor global de ativos da gestora, e Eduardo Figueiredo, diretor da operação brasileira. Os executivos classificaran como negativa a interferência do governo. A informação foi antecipada pela colunista Míriam Leitão.

"Nossa visão de que mudanças no corpo de executivos atual da companhia, sem um devido racional e rigoroso processo, serão tomadas como negativas. Enfatizamos também que decisões sobre a nomeação ou substituição de executivos devem ser de exclusiva responsabilidade do conselho de administração da companhia, com ativa participação dos membros independentes, passando por uma análise objetiva de qualificações, em consonância com melhores práticas", disse a carta.

O fundo afirmou ainda que vai seguir "atento e vigilante" ao momento de forma a "proteger a empresa de interferências indevidas". "Confiamos que os mecanismos de proteção implementados após experiências negativas do passado irão prevalecer", destacou outro trecho.

Uma das preocupações do mercado financeiro é a abrangência da ação de Bolsonaro.

— É um movimento que se restringe ao setor de petróleo ou representa uma mudança (mais ampla)? — questionou o economista-chefe da XP, Caio Megale, durante a videoconferência neste domingo. Megale foi Secretário Especial de Indústria do Ministério da Economia durante a gestão Paulo Guedes.

— Cruzamos um importante rubicão. Temos uma medida intempestiva numa política de preços que foi matéria importante no passado recente da economia brasileira — ponderou Megale, ao lembrar outras interferências feitas no passado, como a redução dos preços de energia determinados pela presidente Dilma Rousseff, que gerou efeitos deletérios sobre a política econômica.

Efeito no mercado de juros

O economista André Perfeito, sócio da gestora Necton Investimentos, destacou em seu relatório para clientes que a decisão do presidente Jair Bolsonaro vai aumentar o nervosismo nos mercados financeiros, o que deverá fazer com que o Banco Central inicie, já em março, um ciclo de aumento da taxa básica de juro, a Selic, que atualmente está em 2% ao ano.

"Objetivamente podemos supor que a elevação do risco irá pavimentar o início do ciclo de alta da Selic na reunião de março. Já víamos bons motivos para o início do movimento de correção da Selic; o que aconteceu na sexta apenas reforça as tendências observadas", afirmou o economista no documento divulgado neste domingo.

"Podemos imaginar que o real irá sofrer com o aumento da volatilidade, mas não acreditamos que saia do controle. Iremos apenas revisar levemente para cima nossa projeção de fim de 2021, saindo de R$ 5,30 para R$ 5,50", acrescentou André Perfeito, que mantém a estimativa de que a taxa básica de juro brasileira encerrará 2021 em 4% ao ano.

Para Caio Megale, da XP, se a intervenção do Palácio do Planalto ultrapassar os limites da Petrobras, o BC terá que acelerar o processo de aperto dos juros e a taxa de câmbio poderá encerrar o ano de 2021 entre R$ 5,80 a R$ 6,00.

— Esse é o cenário básico com o qual estamos flertando. Ainda não é o cenário básico. Mas a confiança ficou sub judice, afirmou Megale.

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