É impossível lucrar com trade sem estrutura, diz Alfredo Menezes, da Armor

Ex-diretor de tesouraria do Bradesco já trabalhou com mais de 150 traders profissionais e conta que a maioria, na média, perdia dinheiro

É com descrença que Alfredo Menezes, ex-diretor de tesouraria do Bradesco e do BCN e sócio-fundador da Armor Capital, enxerga a nova leva de traders da bolsa. Ele afirma ser “humanamente impossível” ganhar dinheiro com trade sem uma equipe e ferramentas profissionais, citando a necessidade de acompanhamento de todos os mercados.

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Em entrevista à EXAME Invest, Menezes conta que já trabalhou com mais de 150 traders profissionais em suas passagens que somam 30 anos pelo Bradesco e pelo BCN – e que, na média, a maioria perdia dinheiro. “E eram pessoas com formação acadêmica muito boa”, recorda. Menezes é um dos mais experientes gestores do mercado especializado em trade. A Armor, que ele fundou no ano passado, se define como uma gestora que tem como diferencial produtos de alta volatilidade.

Trade (ou trading) é o nome que se dá à operação de compra e venda de ativos no curto prazo, com o objetivo de ganhos em cima das oscilações dos preços. Muitas vezes, são operações realizadas no mesmo dia, o que remete ao termo day trade.

Além da falta de experiência dos novos entusiastas do trade, Menezes também ressalta a diferença brutal de informação entre os grandes bancos e as pessoas físicas. “Eles têm o fluxo da economia real. O trader jamais vai saber o fluxo da economia real.” O experiente gestor tem mais de 30.000 seguidores no Twitter, muitos dos quais em busca de sua visão sobre o mercado e o trading.

E mesmo que um dos braços da Armor Capital seja formado por traders, Menezes já iniciou experimentos com robôs desempenhando a função. Segundo ele, se os resultados forem promissores, “sem dúvida” a ideia será criar um fundo quantitativo.

“A vantagem do modelo ‘quant’, sem dúvida, é que não tem o emocional no meio. Costumo falar que a maioria dos profissionais quebra pelo emocional. Os modelos quant são traders com disciplina em vários pontos”, afirma.

Confira a entrevista à EXAME Invest:

Quais são as estratégias dos fundos da Armor?

Uma delas é de trade e cada gestor tem seu limite de VaR (Value at Risk, um indicador para medir o risco de operações financeiras). E é basicamente trading mesmo, até porque o histórico do pessoal que esteve comigo tanto no BCN quanto no Bradesco era de trade.

Também temos o estrutural, com papéis com yields relativamente atraentes e com bons riscos de crédito. Nesse, temos 35% a 38% do fundo alocado em títulos de empresas brasileiras de primeira linha emitidos exterior, porque têm yield muito melhor que as debêntures do mercado doméstico – tanto elas estão emitindo debêntures no Brasil para pagar dívida lá fora – e eurobonds com hedge na moeda.

Além desses temos o direcional, que é em função do preço de mercado contra nosso cenário prospectivo da economia. Ou seja, analisamos qual é o prêmio que o mercado oferece sobre o cenário e qual é o potencial de perda ou lucro.

E agora estamos trabalhando com modelos quantitativos. Já contratamos um profissional da Modal para essa área. Temos modelos rodando dentro do nosso fundo Axe, que é o mais alavancado, com volatilidade de 18%. É uma participação pequena do fundo. A ideia, sem dúvida nenhuma, é ter um fundo quant lá na frente. Já fizemos vários backtests (testes para prever o que pode acontecer, com base em dados passados). Quero rodar por uns seis meses ou um pouco mais para saber se vamos montar mesmo um fundo com essa estratégia.

E como o senhor administra o risco?

Todas as estratégias têm um limite de risco pré-definido, com limites clássicos, sejam de VaR ou stop loss. O diretor de risco que vem para ser sócio foi superintendente de risco no Bradesco e agora estava como diretor da Santander Asset.

Como funciona o fundo de trade?

A gente faz muito relative value (valor relativo) de S&P (500) com dólar, muitos pares de moedas, como peso mexicano com real. Montamos a operação no intraday e desmontamos no mesmo dia. Então não é intraday somente direcional. Tem muita arbitragem. Ficamos desmontando ou montando esses pares durante o dia. Não é um trade direcional seco no intraday. E 70% tem estratégia de pares e 30%, não.

Por que não gostam de carregar a posição de um dia para o outro?

Porque temos limites de VaR e correr um risco de um dia para o outro limitaria muito. No intraday, montamos e desmontamos rápido. Assim podemos correr um risco maior no intraday sem o risco do overnight.

Quais as principais vantagens e desvantagens do modelo quantitativo em relação a esse?

A vantagem do modelo quant, sem dúvida, é que não tem o emocional no meio. Costumo falar que a maioria dos profissionais quebra pelo emocional. Os modelos quant são traders com disciplina em vários pontos. A desvantagem é que, quando sai uma notícia ou um dado importante que vai influenciar muito o mercado, o modelo não interpreta tão rápido quanto um ser humano que conhece bem os fundamentos da economia. Às vezes, no curtíssimo prazo, até interpreta errado a notícia.

A B3 dobrou sua base de pessoas físicas no ano. E uma parte dos que estão chegando tem interesse em fazer trade. Surgiram muitos cursos para ensinar. Afinal, é possível ganhar dinheiro com trade?

Sim, muito mais por relative value. Mas não acredito que nenhum curso de fim de semana ou de 40 horas vai formar um trader, muito menos se ele não tiver estrutura. Você vai precisar de (um terminal da) Bloomberg, de (um terminal do) Broadcast, agências de notícias, vai ter que ter consultoria, economista. Eu digo que é humanamente impossível ganhar dinheiro com trading sem uma estrutura enorme e sem estar de olho em todos os mercados. Uma pessoa só não consegue olhar todos os mercados.

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 (BTG Pactual Digital/Divulgação)

Acredito que os cursos podem formar bons investidores, já que a parte de educação financeira para formar investidor é muito mais fácil. Até porque a estrutura necessária para ser investidor é muito menor e existem várias casas oferecendo diferentes trabalhos. Para fazer trade é uma atividade muito mais complexa.

Com quantos traders o senhor trabalhou e como era o desempenho deles?

Devem ter trabalhado comigo mais de 150 traders. Na média, os traders perdiam dinheiro. E eram pessoas com formação acadêmica muito boa. Os traders ajudavam para a tomada de decisão no momento certo. Eu diria que 20% ou 30% dos traders que conheci deram certo. E a quantidade de informação que um banco grande tem é muito superior à de qualquer pessoa.

Os bancos têm o fluxo da economia real. O trader jamais vai saber o fluxo da economia real. Você pode usar algumas ferramentas para tentar identificar. Mas é muito difícil que um cara que nunca trabalhou em tesouraria consiga encontrar o fluxo da economia real.

Quando o senhor olha para a bolsa brasileira, onde estão as melhores oportunidades?

Acho que o setor com mais futuro da nova economia, não só da bolsa brasileira, mas do mundo todo, é o de logística. Cada vez teremos mais vendas via aplicativo. Vai haver uma indústria de logística enorme para atender a entrega de produtos. Logística é um setor de que eu gosto bastante, independentemente de ser no Brasil ou fora.

Também gosto de algumas empresas aéreas pelo preço. Primeiro: o coronavírus não será para sempre. Segundo, não tem como se locomover por longas distâncias sem usar avião. Me lembro do ataque às torres gêmeas (em 2011, em Nova York). As companhias aéreas despencaram, mas, seis meses depois, estava tudo igual. Acho que uma ou outra companhia deve ser punida, mas não as três (GOL, Azul e Latam) da mesma forma. E o mercado puniu as três de forma muito parecida.

O setor de bancos é também muito atraente, os preços estão muito descontados. Acho que a inadimplência vai ser muito, muito menor do que as provisões que foram feitas. Como não sabiam o cenário ao certo, acabaram sendo mais cautelosos. Só que tem a concorrência das fintechs. O Banco Central nunca incentivou tanto a intermediação financeira como agora com o PIX. Os bancos estão descontados, mas penso que é mais no curto prazo. No longo prazo, acho que a tecnologia vai suprir parte desse serviço.

Em fundos imobiliários, não gosto da parte de agências (bancárias) ou de lajes (corporativas). Gosto muito de galpão ligado à logística. Acho que realmente é o grande mercado em potencial, principalmente perto de rodovias. Mas não aqueles enormes, ao qual estamos acostumados. São galpões de 1.000 m², 1.150 m². Acho que é um belo investimento de médio a longo prazo no Brasil.

E para qual setor o senhor olha com pessimismo?

Eu fico meio com pé atrás com os setores de serviços, porque a tecnologia acaba dando instrumento de tirar a intermediação do prestador de serviços. Em Londres, onde estive há pouco tempo, aluguei um carro particular, não de locadora. Ficou muito mais barato. Locadora no Brasil já começou a ganhar dinheiro vendendo carro, e não alugando. Tenho a impressão de que a tecnologia vai acabar substituindo a prestação de serviços que não precisa de contato físico.

Afinal, a bolsa brasileira está barata?

Algumas ações estão baratas, outras nem tanto. O Brasil tem que ter desconto até pelo momento que estamos vivendo. Não tem LDO (Lei de Diretrizes Orçamentária) votada ainda. O Brasil está em um momento que realmente gera algumas dúvidas sobre o futuro. Se falarem para mim que o Congresso vai aprovar LDO, reformas administrativa e tributária, a bolsa tem mais 30% para subir; se não passar, tem 20% para cair. Então acho que estamos no meio do caminho e que é o preço justo pelas dúvidas que temos.

Tivemos a vantagem de que, com o coronavoucher, o presidente acabou ganhando muita popularidade. Minha preocupação é que não tenha o auxílio emergencial no ano que vem. O pessoal esquece rápido. Acho que por isso estão trabalhando no Renda Cidadã. Com desemprego de 14%, 15% e sem o voucher, acho que a popularidade do presidente vai cair muito rapidamente. E isso me preocupa um pouco. Com popularidade um pouco melhor as reformas já não conseguem andar, sem popularidade vai ser muito difícil. Não consigo acreditar que a bolsa está barata ou cara. Acho que está no preço justo dados os riscos.

Uma curiosidade: por que a gestora se chama “Armor” (armadura, em inglês), e os fundos, “Axe” (machado) e “Shield” (escudo)?

No mercado, você pode ser agressivo, mas tem que estar devidamente protegido. A armadura é pela sensação de proteção, e o machado, para a agredir a oferta que nós acharmos boa. Mas ao mesmo tempo não podemos ficar com cara à tapa para tomar uma porrada e morrer. E o Shield é um fundo de menor volatilidade. Ele não vai ser muito agressivo. Para fazer uma analogia, seria basicamente isso. E eu também gosto do lance medieval, para falar a verdade.

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