Chegada de bancos digitais amplia a oferta de crédito consignado

Estimulado por extensão na margem consignável, modalidade cresceu 11% em 2020 e viu competição entre bancos aumentar

A chegada das fintechs e dos bancos digitais revolucionou a indústria financeira e trouxe mais comodidade para os consumidores. No caso do crédito consignado, a maior competição contribuiu para a queda das taxas de juros e promoveu um aumento da oferta no mercado. De acordo com dados do Banco Central, o saldo de recursos emprestados no consignado subiu 11% entre janeiro e novembro de 2020. Os recursos ofertados para aposentados e pensionistas do INSS foram destaque, com alta de 15%.

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Embora os grandes bancos ainda sejam donos de cerca de 80% da carteira de crédito consignado, as instituições digitais estão ganhando terreno. Bancos como o Pan, o Inter e o BMG já figuram entre os 20 maiores bancos da modalidade. Veja o ranking abaixo:

Posição Instituição Saldo na carteira de consignado (em reais)
Banco do Brasil 89,9 bilhões
Caixa 66,5 bilhões
Bradesco 66,4 bilhões
Itaú 50,7 bilhões
Santander 45,6 bilhões
Banrisul 16,8 bilhões
Banco Pan 10 bilhões
Safra 8 bilhões
Banco de Brasília 7,8 bilhões
10º Daycoval 6,4 bilhões
11º Paraná Banco 5,1 bilhões
12º BNP Paribas 4,7 bilhões
13º Banco do Estado do Pará 4,6 bilhões
14º Banco Alfa 2,8 bilhões
15º Banco Mercantil do Brasil 2,4 bilhões
16º CCB 2,1 bilhões
17º Banestes 1,6 bilhões
18º Banco Inter 1,2 bilhões
19º BMG 1 bilhão
20º Bancoob 993 milhões

É verdade que alguns deles herdaram parte dos clientes de estruturas anteriores  -- o banco Pan, por exemplo, manteve a carteira do Panamericano, e o Inter herdou clientes da financeira Intermedium. Mas foram nos últimos meses que esses bancos digitais passaram a investir em tecnologia para competir para valer com os grandes líderes de mercado.

Até pouco tempo atrás, a oferta de consignado se concentrava nos grandes bancos e nas financeiras independentes. Os clientes com melhor perfil de crédito encontravam melhores condições e custos mais baixos nos "bancões", enquanto que para os endividados ou consumidores com um score baixo a opção eram as financeiras, que tinham propostas com taxas mais elevadas.

As fintechs e os bancos médios buscam ser o caminho intermediário: dispor de uma oferta mais abrangente, captando um público que é dispensado pelos grandes bancos, e com taxas de juros menores.

"Foi o avanço das soluções digitais que possibilitou o movimento. Os bancos menores conseguem ofertar o produto pelos canais digitais, sem ter que arcar com todas as despesas operacionais. Isso permite que, mesmo tendo custo de captação um pouco superior, as instituições digitais consigam oferecer taxas tão competitivas quanto as dos grandes bancos", diz Alex Sander Gonçalves, diretor da Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e diretor comercial do banco Pan.

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Ele conta que em 2019 a ABBC tinha menos de 20 instituições atuando em consignado e que agora 30 associados já estão ativos no segmento. "São desde bancos médios que já operavam no mercado, mas que não tinham linhas para o consignado, até os novos bancos digitais", explica.

Os juros do crédito consignado estão em queda desde 2018, mas a redução maior foi mais recente. No último ano, as taxas médias foram de 21% para 18% ao ano, de acordo com dados do Banco Central. Naturalmente, parte dessa diminuição se deve à própria queda da taxa básica de Juros, a Selic, que está em 2% ao ano, o menor patamar da história. Mas a competição também desempenhou um papel importante para a redução do custo.

Mudança na regra

Em outubro passado, o governo federal propôs uma medida para permitir que aposentados e pensionistas do INSS comprometessem um percentual maior de seus proventos com os empréstimos consignados. A medida foi uma das estratégias para amenizar os efeitos negativos da pandemia do coronavírus na pandemia.

A chamada margem consignável subiu de 30% para 35% da renda. Parece pouco, mas o efeito para os bancos e as financeiras foi enorme.

"Com o aumento da margem, pessoas que já haviam alcançado o limite para contratação de crédito consignado puderam recorrer às instituições financeiras em busca de novos empréstimos em condições bem mais acessíveis. O saldo da carteira do produto cresceu 14 bilhões de reais somente nos meses de outubro e novembro, reflexo direto do aumento da margem, enquanto nos meses de janeiro a setembro o crescimento havia sido de 8 bilhões de reais", disse a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) em nota enviada à EXAME Invest.

A regra aprovada pelo governo federal perdeu validade no final de dezembro de 2020, mas há um pleito para que a extensão da margem volte a vigorar, já que os efeitos da pandemia do coronavírus devem continuar a ser sentidos na economia. Para as instituições ofertantes, a medida seria bem-vinda não só para ampliar a oferta de recursos mas também para reforçar o número de clientes aposentados e pensionistas, que representam uma importante categoria para o consignado.

Consignado para servidores

Embora os beneficiários do INSS representem uma carteira de mais de 160 bilhões de reais no consignado, são os servidores públicos que detêm o maior saldo da modalidade. No total, os bancos possuem 246 bilhões de reais emprestados para funcionários federais, estaduais e municipais. Os servidores são vistos como o "filé" desse mercado por terem o regime de estabilidade no trabalho e um rendimento médio superior ao dos aposentados e dos trabalhadores da iniciativa privada.

O Inter é um dos novos competidores que está de olho no segmento. De acordo com dados do BC, o banco digital tem a terceira menor taxa de juros para os servidores públicos -- menor até que as ofertadas pelos grandes concorrentes. Em entrevista à EXAME Invest, Nora Trindade, superintendente de consignado do Inter, explicou que o banco tem buscado firmar convênios com prefeituras e Estados para a oferta de consignado para o funcionalismo.

"O nosso foco em 2020 foi trazer esses convênios. Temos parcerias com as forças armadas, com o INSS e com alguns Estados, como São Paulo, Minas Gerais e Goiás", conta Trindade. Ela diz que os clientes trazidos por essas parcerias costumam ter um tíquete de crédito maior, o que foi determinante para o crescimento de cerca de 300% na carteira do consignado desde 2018.

Até pouco tempo atrás, as folhas de pagamento de órgãos públicos eram um ativo precioso para as instituições financeiras. Os grandes bancos compravam essas folhas para serem os responsáveis pelos depósitos dos proventos dos funcionários. Hoje, com a facilidade da portabilidade de salário, esse tipo de negócio deixou de fazer sentido.

Por não cobrarem tarifa de manutenção de conta ou anuidade de cartão de crédito, os bancos digitais têm se beneficiado do processo de migração salarial. Como intermediadores dos pagamentos, essas instituições fidelizam o cliente e ganham uma vantagem extra na oferta do consignado. Sinal disso é o crescimento da portabilidade do próprio crédito consignado -- quando um cliente leva uma dívida de um banco para o outro.

De acordo com dados do BC, o volume de recursos que "trocaram de mãos" no consignado está em na casa dos 4 bilhões de reais ao mês. Até meados de 2019, a média mensal representava menos da metade disso. "O crescimento da competição deve ser um estímulo extra para que as taxas de juros do consignado continuem caindo", prevê Gonçalves.

 

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