A maior lição financeira da pandemia, segundo Nathalia Arcuri

Para a criadora do canal de finanças Me Poupe!, pandemia pode ser choque de realidade de que precisamos para dar mais valor à reserva de emergência

Ano novo, vida nova, inclusive financeira. Mas, afinal, qual é a chave para tomar essa resolução de cuidar bem do dinheiro? Para Nathália Arcuri, criadora do canal de finanças do YouTube Meu Poupe!, com 5,7 milhões de inscritos, cada pessoa tem a sua chave. Mas geralmente algumas pessoas resolvem cuidar da vida financeira apenas quando estão sufocadas em dívidas.

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“O mais difícil hoje é o brasileiro tomar uma atitude. E, quando toma, fica perdido, não sabe para onde ir. Existem pessoas que sofreram um baque terrível da pandemia, perderam sua fonte de renda principal. Esse é um estopim importante que faz as pessoas se mexerem. Quem sabe a pandemia não é o choque de realidade de que todos nós precisamos para dar mais valor a nossa reserva de emergência?”, disse Nathalia à EXAME Invest.

Para quem começou o ano com o intuito de colocar o orçamento em ordem e ficar no azul, Arcuri orienta a consumir com inteligência, renegociar dívidas, ganhar mais e investir em pouco mais de um mês, exatos 33 dias, sem abrir mão do que é essencial. Esse método é explicado em seu novo livro, o “Guia Prático Me Poupe!” (editora Sextante), uma espécie de diário da vida financeira com espaço para anotações. Para o leitor não desistir no caminho, Arcuri lança mão de reflexões e até jogos, além de seu bom humor característico.

Veja abaixo a entrevista completa de Nathalia Arcuri à EXAME Invest:

Você cita no livro que a frase que mais ouvia de seus pais é que não tinham dinheiro para realizar um desejo seu. Você considera que teve boa educação financeira? Quais dicas dá para quem deseja ensinar desde cedo seus filhos a lidar melhor com questões financeiras?

Quem sou eu para falar da educação que meus pais me deram. A chave é ser grata por tudo o que passei na vida, coisas boas e ruins, pois moldaram o que sou hoje. Eles diziam “não” para mim e minhas irmãs por causa de um objetivo claro: pagar contas. Foi na base do “não” que fui incentivada a correr atrás do que queria.

Acredito que pais que queiram ensinar uma boa educação financeira precisam dar o exemplo. Se quer que o filho cuide bem do dinheiro, cuide do próprio também. Não adianta falar “não” para a diversão do filho e viajar no final de semana, comprar um celular novo. Coerência é algo importante para a educação financeira e para a vida. É trabalhar com expectativa e frustrações. Muitos adultos não lidam bem com isso. Para muitas pessoas, não conseguir comprar algo naquele momento faz com que se sinta pobre. Isso não é pobreza, é não saber lidar com frustração, que é um traço bem infantil.

É possível educar para que a criança espere para receber um pouco de dinheiro, começando por poucos dias, para as menores, e ir aumentando o prazo. Não precisa ser rico para fazer isso. Um real por mês já é suficiente para educá-la financeiramente. Isso cria na criança um senso de objetivo. Também ajuda nessa tarefa falar: hoje não podemos ter acesso a isso, mas o que como família podemos fazer para conseguir?

Meus pais nunca me deram um não seco. Diziam não, e cresça e apareça. Apesar de não ser um método muito ortodoxo, deixaram claro que eu poderia conseguir. Desde cedo os pais podem mostrar aos filhos que caso tenham disciplina, bons hábitos e saibam cuidar bem do dinheiro podem conquistar o que quiserem.

No método descrito no livro você não indica o uso do cartão de crédito. O brasileiro não sabe usar o cartão?

Infelizmente as pessoas não aprenderam a usar cartão de crédito. Se estou tratando de um método de 33 dias, preciso garantir que a pessoa saiba usar os recursos. O cartão de crédito só deve ser usado quando você já tem o dinheiro para pagar a fatura. Em vez de pagar à vista ou no débito, eu coloco no cartão de crédito porque vou ter 30 dias para trabalhar aquele dinheiro e pagar aquela fatura só no mês seguinte.

Mas infelizmente o brasileiro não tem essa consciência. Muitos passam o cartão e rezam para ter dinheiro para pagar a fatura no mês seguinte. Então o cartão de crédito, para pegar o dinheiro que você não tem, deve ser usado apenas em três situações.

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A primeira é ganhar mais dinheiro. Por exemplo, criei um negócio e vou pagar um computador em 10 vezes porque vai me gerar renda.

A segunda é para economizar dinheiro. Por exemplo, quem não tem dinheiro nenhum e preciso comprar uma geladeira porque sem uma geladeira vai se ferrar mais ainda porque não vai ter onde armazenar alimentos e isso irá gerar desperdício. Então financia a geladeira com uma parcela que cabe no orçamento.

A terceira situação é com o objetivo de acumular pontos, mas desde que já tenha dinheiro para pagar a fatura. É assim que cartão de crédito deve ser usado. O objetivo do livro é gerar essa conscientização: só vou comprar aquilo que tenho dinheiro para comprar. Não vou parcelar nada que não me traga dinheiro ou economia, como calça jeans, blusinha e bolsa. A não ser que tenho dinheiro para pagar.

Costuma-se ter uma desculpa na ponta da língua quando se fala de investimentos: “mas com que dinheiro?”. Contudo me chama atenção que você ensina a fazer renda extra e até a negociar um aumento de salário. Quanto essas questões impactam a vida financeira?

As pessoas acham que educação financeira consiste apenas em não gastar dinheiro. Mas isso está bem longe de ser educação financeira. Educação financeira não significa parar de gastar, mas gastar menos e fazer mais. Então, economizar e gastar com consciência, da maneira mais inteligente possível, é apenas um ponto do tripé da educação financeira.

Depois, é necessário ganhar mais dinheiro. Porque chegar para uma pessoa que hoje ganha um salário mínimo e tem três filhos para criar e dizer para investir chega a ser desumano. Eu acredito e incentivo as pessoas a ganhar mais dinheiro. Não é porque você nasceu sem recursos financeiros e sem acesso à cultura e educação que vai permanecer nessa condição pelo resto da vida. Quanto mais conhecimento você tem, mais dinheiro você tem em consequência desse conhecimento.

Por último, é necessário investir melhor. Às vezes uma pessoa espera ter dinheiro para começar a investir, mas esse é um dos maiores erros que ela pode cometer. Ninguém enriquece sem começar a investir a partir do primeiro real. Então é só começando a ter o hábito de investir, com 10 reais, 30 reais, 50 reais, de forma consistente e permanente, que essa pessoa vai ter uma boa quantia no futuro.

Portanto, educação financeira para algumas pessoas é só questão de ter mais consciência e atenção para os gastos, mas para outras é partir em busca de ganhar mais dinheiro. E isso passa por ganhar aumentos. Quando se tem conhecimento você pode driblar qualquer barreira que colocam na sua frente, inclusive a do preconceito. Não é que preconceito não exista, mas precisa fazer apesar do preconceito. No meu curso, 80% dos alunos são mulheres. A melhor aluna do meu último curso não apenas conseguiu aumento como também uma promoção, e não havia feito isso em 10 anos trabalhando no mesmo lugar. Ela não tinha coragem de pedir um aumento. É uma questão de virar a chave.

No livro você recomenda guardar 30% do que se ganha para pequenas a grandes metas, da viagem de fim do ano à aposentadoria. Muita gente de fato conseguiu guardar esse percentual de dinheiro em seus cursos? 

Investir 30% de tudo o que você ganha pode parecer alto quando não se tem a mínima noção do que está fazendo com o dinheiro e não se consegue formular ou estipular tudo aquilo que se quer em metas. Se alguém sai de casa sem o objetivo de comprar alguma coisa e qualquer vitrine atrai, entra na loja e passa o cartão, sem saber se tem dinheiro para aquilo ou não, está cometendo um grande atentado violento contra os seus próprios desejos. Não foi você que quis, foi o marketing da loja que te impulsionou a entrar lá e comprar aquilo.

Sou uma defensora dos desejos. Se você transforma tudo aquilo que realmente você quer, ressalto isso, e passa para o papel e transforma em meta, começa a entender que 30% para tudo não é tanta coisa. É que hoje a pessoa vê a vida como ela é, e não como ela poderia ser se você não se submetesse ao que o marketing deseja por ela, a pequenos gastos do dia a dia, uma conta que veio mais alta e deixou para lá ou a falta de planejamento das compras.

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Em vez disso poderiam ir a supermercados que sejam mais vantajosos, usar clubes de descontos. Enfim, tomar uma série de atitudes que colaboram para que os 30% possam ser poupados. Claro que algumas pessoas podem fazer tudo isso e não sobrar nada. Daí precisam se qualificar mais, encontrar uma nova fonte de receita. Listo dicas no meu livro sobre renda extra, das mais simples, que não precisam de nenhuma habilidade, até as mais complexas, que precisam de algumas habilidades, inclusive tecnológicas.

O brasileiro que trabalha em regime CLT tem direito ao seguro-desemprego e ao FGTS se for demitido. Sabemos que muitos brasileiros não têm reservas financeiras. É possível que esses fatores desestimulem a criação de uma reserva de emergência?

A questão da falta de reserva passa principalmente por questões comportamentais. E isso não é do brasileiro: é do ser humano. Algumas nações passaram por choques muito grandes, escassez em períodos de guerra que nós brasileiros não vivemos.

A gente vivencia a escassez todos os dias, nunca tivemos nada. Diferentemente dos europeus, que já tiveram muita coisa e houve um momento histórico no qual essa fonte secou. Na crise de 1929 nos Estados Unidos de repente tudo quebrou. O Brasil nasceu quebrado. Como nunca soubemos o que é ter, a gente não parte do pressuposto de que podemos ter uma reserva. Não se criou essa consciência de reserva.

A questão de ter seguro-desemprego não é o que passa pela cabeça das pessoas. O que mais passa pela cabeça delas são frases prontas que são usadas para defendê-las da responsabilidade que elas sabem que têm, mas preferem não lembrar que têm, pois vai dar um certo trabalho. São frases como “eu me viro”, “sempre dou um jeito” ou que “não faz sentido juntar dinheiro porque no fim vai junto com você para o túmulo”.

Agora, na pandemia, a gente viu o quão necessário era ter criado uma reserva de emergência enquanto se tinha acesso ao recurso financeiro. O que mais me motivou a trabalhar mais, contratar mais pessoas no ano passado, foi o número de relatos de pessoas que só tinham a reserva de emergência porque acompanhavam os conteúdos da Me Poupe! há alguns anos e se atentaram para a importância da reserva de emergência, fizeram e graças a ela estão conseguindo sobreviver com mais tranquilidade a essa onda de desespero. Quem sabe a pandemia não é o choque de realidade de que todos nós precisamos para dar mais valor a nossas reservas financeiras?

A pandemia obrigou muitas pessoas a cortar hábitos como restaurantes e bares, mas criou outras formas de recompensas, como delivery e produtos para a casa. Qual a sua dica para quem se “premia” por trabalhar demais?

Para quem acredita que gastar dinheiro no shopping, na balada ou no restaurante é se premiar, o pensamento do “eu mereço”, eu pergunto o seguinte: você merece chegar ao final do mês, olhar para trás e se arrepender de todas as decisões que você tomou com relação ao seu dinheiro, e olhar para a frente e não ter a menor ideia do que vai ser do seu futuro?

Eu acredito que as pessoas merecem muito mais do que isso. Acredito que todo brasileiro merece uma vida mais digna e ter mais liberdade sobre aquilo que faz com o próprio dinheiro. Quando olhamos para trás, o que esses pequenos sabores de vitórias efêmeras do dia a dia deixam de valioso? Faço essa pergunta para milhares de pessoas e sempre recebo a mesma resposta: nada.

Pergunto para os meus alunos se, apesar de todo o esforço que eles tiveram de fazer para mudar de hábitos, toda economia que tiveram de gerar, todo desconto que tiveram de pedir, todo medo que tiveram de enfrentar e coragem que tiveram de ter, seus aprendizados em relação a investimentos, se vivendo com menos, eles preferem a vida que têm hoje ou a vida que tinham antes. A resposta também é unânime: todos preferem ter controle sobre sua própria vida financeira, fazer as próprias escolhas e ter mais valor. Gastar menos, mas ter qualidade de vida, de escolhas, futuro e presente, é algo muito melhor.

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