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Fundadores da healthtech gaúcha GestãoDS, criadora da agente de inteligência artificial Helô. (GestãoDS/Divulgação)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 09h33.
Última atualização em 31 de agosto de 2026 às 12h50.
Um médico brasileiro gasta, em média, quase duas horas de trabalho administrativo para cada hora de consulta com um paciente, segundo dados da Associação Médica Brasileira. Prontuário, prescrição, agendamento e cobrança consomem cerca de 30% da rotina da categoria, e boa parte desse trabalho ainda vaza para casa: entre uma e duas horas por noite, segundo a mesma entidade.
É esse número que a healthtech gaúcha GestãoDS, sediada em Santa Maria (RS), está tentando atacar com a Helô, agente de inteligência artificial lançado neste mês, pouco depois de a empresa completar dez anos de existência.
A companhia nasceu em 2016 dentro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), quando os fundadores Marcelo Stangherlin e Felipe Ravanello ainda cursavam Administração e vendiam o sistema porta a porta em consultórios da região, estratégia que ajudou a moldar o produto rente à rotina real dos médicos.
Com o tempo, o time ganhou André Baptista como diretor de tecnologia e o cirurgião plástico David Sena como sócio investidor, depois de validar a ferramenta na própria clínica.
O produto chega também numa semana simbólica para o setor: a primeira regulação nacional sobre uso de IA na medicina entra em vigor nesta quarta-feira, 26, e passa a exigir justamente o tipo de supervisão médica que a Helô diz ter incorporado desde o desenho do produto.
A maioria das ferramentas de transcrição de consulta já resolve a parte de registrar o que foi dito. A aposta da GestãoDS é ir além: transformar a conversa entre médico e paciente num plano de acompanhamento, com tarefas concretas de pós-consulta, como pedido de exame, retorno agendado, verificação de pendência, em vez de deixar essas intenções soltas na memória de quem atendeu.
Há também um recurso que a própria empresa chama de inédito: um feedback estruturado sobre a condução da consulta, avaliando quatro pilares (tempo de fala, tempo de escuta, clareza na comunicação e empatia) e devolvendo ao médico recomendações sobre a própria performance.
É uma espécie de avaliação de desempenho que a categoria raramente recebe, segundo levantamento da empresa com profissionais da própria base de clientes.
"Hoje, a GestãoDS está próxima da marca de 5 mil clínicas registradas na plataforma e 20 mil usuários, com perfis bastante variados, desde profissionais que atuam individualmente até clínicas maiores, com mais de 50 usuários", diz Ravanello, diretor de negócios e crescimento da GestãoDS.
A medicina estética lidera essa carteira, ampliada em 2024 com a compra da concorrente Metacem, que trouxe mais de 80% de sua base ativa para dentro da GestãoDS.
A Helô não nasceu isolada. Em 2025, a GestãoDS fechou uma parceria de R$ 2,5 milhões com o CESAR, centro de inovação de Recife, com metade do valor vindo da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), para desenvolver uma nova geração de agentes de IA.
Somado ao investimento próprio em pesquisa e desenvolvimento, o total chega a R$ 5 milhões em 12 meses, e a Helô é apenas a primeira de três entregas planejadas dentro desse projeto; as próximas devem mirar agendamento inteligente e retenção de pacientes.
É uma aposta relevante para uma empresa do porte da GestãoDS, que faturou cerca de R$ 12 milhões em 2024 e emprega hoje cerca de 66 pessoas, mirando um mercado que a própria companhia estima em quase 300 mil clínicas de saúde no Brasil.
Vale separar o que já foi medido do que é promessa. A geração anterior de transcrição da GestãoDS, em uso desde o ano passado, elevou o volume de informação registrada em prontuário de cerca de 100 para mais de 1.000 palavras por consulta, um salto real, mas que a própria empresa reconhece ter um limite: mais texto no prontuário não significava, necessariamente, mais tarefa executada depois. É exatamente essa lacuna que a Helô tenta fechar.
Sobre a Helô em si, ainda não há métrica consolidada de adesão a tratamento ou fidelização de paciente. O produto foi lançado há poucos dias, com apenas 30 vagas na abertura inicial, esgotadas em minutos. É um teste controlado.