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Por trás de um deepfake de Roberto Carlos, um esquema que move R$ 1,8 bilhão em golpes

Kit com rosto sintético, voz clonada e documentos falsos sai por US$ 5 no mercado criminoso. Em 2024, um minuto de vídeo sob encomenda chegava a custar US$ 20 mil

IA: com tabela de preços definida, desenvolvedores alugam softwares para quadrilhas aplicarem golpes   (Imagem gerada por IA/Exame)

IA: com tabela de preços definida, desenvolvedores alugam softwares para quadrilhas aplicarem golpes (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 2 de agosto de 2026 às 09h00.

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Na semana passada, um vídeo do cantor Roberto Carlos passou a circular nas redes sociais oferecendo tratamentos milagrosos. O vídeo, no entanto, era falso — o cantor nunca gravou aquilo. A equipe jurídica precisou intervir, e ele veio a público pedir que ninguém compartilhasse o material. E a produção do vídeo pode ter custado menos do que um almoço.

Um pacote com rosto sintético, amostra de voz clonada e documentação de apoio sai por cerca de US$ 5 em mercados criminosos (menos de R$ 26, na cotação atual), segundo o relatório Weaponized AI, publicado em janeiro pela empresa de segurança Group-IB.

Há dois anos, um minuto de vídeo sintético sob encomenda podia custar até US$ 20 mil. A produção era quase artesanal. Feita sob medida, era cobrada por minuto, com preço proporcional à fama de quem seria imitado.

A queda acompanha o que aconteceu com a IA legítima. Na inferência de modelos de linguagem, o preço por milhão de tokens (os pedaços de texto em que a IA fatia tudo o que lê e escreve, e a unidade pela qual se cobra pelo uso da tecnologia), caiu de cerca de US$ 60 no início de 2023 para menos de US$ 1,50 no início de 2025. A curva que barateia o atendimento automatizado de uma empresa é a que barateia a fraude.

A diferença é que, do lado do crime, a queda de preço já virou catálogo.

Um mercado com fornecedor e tabela

O relatório descreve o que o setor passou a chamar de deepfake as a service: desenvolvedores especializados constroem a ferramenta e a vendem ou alugam a quadrilhas que operam em escala.

Criar uma imagem sintética sob demanda custa de US$ 10 a US$ 50. Uma identidade pronta para uso chega a US$ 15. O aluguel de software de troca de rosto, para operação contínua, vai de US$ 1.000 a US$ 10.000.

Máquina contra máquina: o plano do TikTok para a eleição de 2026

Entre 2022 e setembro de 2025, a Group-IB coletou mais de 300 anúncios em canais do Telegram e fóruns fechados com as palavras-chave "deepfake" e "KYC" — sigla de know your customer, o processo de verificação de identidade adotado por bancos.

Nem tudo o que está anunciado existe. Os próprios pesquisadores alertam que parte relevante das ofertas é golpe contra o comprador, padrão comum em economias clandestinas.

O que se compra com isso

O preço baixo explica o volume. Entre janeiro e agosto de 2025, a empresa registrou 8.065 tentativas de burlar a verificação de vivacidade — o teste que confirma se há uma pessoa real diante da câmera — em pedidos de empréstimo de uma única instituição financeira.

"O crime está ficando mais barato, mais rápido e mais escalável", escreveu Dmitry Volkov, presidente-executivo e cofundador da Social Discovery Group (SDGroup), no prefácio do documento.

Do outro lado da conta estão os prejuízos. A engenharia britânica Arup perdeu US$ 25 milhões em Hong Kong, em janeiro de 2024, depois que um funcionário do financeiro recebeu ordem de transferência em videochamada com participantes sintéticos, segundo o Financial Times. Em 2019, uma empresa de energia britânica havia perdido 220 mil euros com voz clonada do presidente-executivo.

O rosto como matéria-prima

O padrão de Roberto Carlos se repete em escala global, e sempre com a lógica de emprestar credibilidade a um produto que não a tem.

No Brasil, Fernanda Montenegro, Drauzio Varella, Tony Ramos e Glória Pires tiveram rosto e voz usados em campanhas de cura falsa dirigidas ao público idoso. Só as peças com a imagem do médico já foram desmentidas seis vezes pela agência de checagem Lupa.

Fora do país, um levantamento da empresa Copyleaks identificou anúncios no TikTok com versões sintéticas de Taylor Swift, Rihanna e Kim Kardashian promovendo programas de recompensa inexistentes.

As peças simulavam entrevistas em tapete vermelho e programas de auditório, e usavam a marca da própria plataforma para dar aparência oficial ao golpe.

O Brasil está do lado que perde

Não há levantamento público sobre o custo de produção no país, mas dados da Polícia Federal divulgados em maio mostram que 42,5% das fraudes financeiras registradas no Brasil em 2025 já envolveram ferramentas de IA, e o uso de deepfakes cresceu 830% entre 2024 e 2025.

Entre julho de 2025 e abril deste ano, os golpes contra bancos e provedores de infraestrutura do sistema financeiro somaram mais de R$ 1,8 bilhão.

Há uma explicação técnica para a taxa de sucesso, e ela é anterior ao deepfake: os motores comerciais de biometria facial foram treinados em bases de imagens montadas antes de 2020, sem exemplos de conteúdo sintético.

A operação Face Off, da Polícia Federal, expôs fraude em massa no portal Gov.br em que criminosos simularam rostos de usuários, incluindo rostos de pessoas já falecidas, e venceram o sistema de vivacidade.

Enquanto isso, 82% dos brasileiros já usam alguma forma de autenticação biométrica.

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