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Por que a IA ainda não aumentou o desemprego, segundo economista da Anthropic

Peter McCrory diz não esperar desemprego maior daqui a um ano por causa da tecnologia; o presidente-executivo da empresa já projetou taxa de 20% nos Estados Unidos

IA: estudo da Anthropic analisa a relação entre a expansão da inteligência artificial e os índices de desemprego nos EUA (Imagem gerada por IA/Exame)

IA: estudo da Anthropic analisa a relação entre a expansão da inteligência artificial e os índices de desemprego nos EUA (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 23 de julho de 2026 às 12h59.

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A inteligência artificial (IA) não elevou o desemprego nos Estados Unidos, e não deve elevá-lo no próximo ano — ao menos é o que afirma o economista-chefe da Anthropic, Peter McCrory, em ensaio publicado no X (antigo Twitter) que sintetiza 18 meses de pesquisa da empresa.

"Não espero que o desemprego esteja perceptivelmente mais alto daqui a um ano — ao menos não por causa da IA", escreveu. "Mesmo que a IA automatize alguns aspectos do trabalho, a experiência humana complementar amplifica o que a IA (ou os humanos) podem alcançar sozinhos. A IA amplia o escopo do que as pessoas podem realizar, o que aumenta os benefícios de trabalhar com ela", afirmou.

É uma previsão modesta para uma empresa cujo presidente-executivo, Dario Amodei, projetou o fim de metade das vagas de entrada em escritórios e desemprego de 20% no país em cinco anos. Os horizontes diferem; o tom, mais ainda.

O argumento

McCrory parte do dado de que o desemprego americano foi de 4,2% em junho, nível que o Federal Reserve (Fed) associa a pleno emprego, e os pedidos de seguro-desemprego seguem baixos há quatro anos.

Já haveria escala para enxergar efeitos — 20% das empresas usam IA em alguma função, proporção que sobe a 40% no setor de informação. A produtividade do trabalho cresceu 2,0% ao ano desde 2022, contra 1,6% antes da pandemia.

A explicação que ele oferece é que a tecnologia, até aqui, amplia o trabalho qualificado em vez de dispensá-lo. Segundo ele, não há uma única ocupação no catálogo do Departamento do Trabalho americano cujas tarefas sejam todas executadas pelo Claude — evidência que vem do uso do próprio produto da empresa.

O que sobra — coordenação entre pessoas, presença física, julgamento — é justamente o que sustenta o valor do trabalho humano. E quando o modelo entrega algo sofisticado, costuma fazê-lo sob orientação de um especialista.

A fronteira irregular

O conceito central do texto é o de uma tecnologia desigual, excelente em algumas tarefas e falha em outras vizinhas. "As capacidades dos modelos estão melhorando rápido, mas seguem teimosamente irregulares", escreveu.

Para preencher esses vãos, argumenta, é preciso supervisão especializada — alguém que direcione o sistema e conserte o resultado quando ele falha.

O ensaio traz um dado que ilustra o limite. Após a chegada dos agentes de programação, a quantidade de linhas de código geradas cresceu de 10 a 20 vezes — mas o número de lançamentos de software subiu apenas 30%, sem aumento no uso de aplicativos. Produzir mais código, em outras palavras, não produziu mais produto.

A IA vai roubar seu emprego? O Google diz que ainda não

McCrory também nomeia as profissões em que a automação já dá conta do núcleo do trabalho: redatores técnicos, digitadores, atendentes de suporte ao cliente e programadores. Mesmo nelas, diz, não houve aumento de desemprego — embora o órgão de estatísticas americano projete crescimento menor dessas carreiras até 2034.

As ressalvas do próprio autor

McCrory reconhece que a contratação de jovens em funções expostas à IA enfraqueceu, resultado alinhado a estudo do Stanford Digital Economy Lab.

Mas pondera que o período coincidiu com o aperto monetário e incerteza comercial, fatores que atingem primeiro quem entra no mercado. "É difícil discernir relações de causa e efeito, porque a IA surgiu em um ambiente macroeconômico excepcionalmente volátil [...] Como a contratação é uma forma de investimento, a incerteza econômica generalizada pode, por si só, afetar negativamente as contratações", escreveu.

Ele acrescenta que o país viveu, de 2022 para cá, a maior desaceleração do mercado de trabalho fora de uma recessão já registrada — um cenário de poucas contratações e poucas demissões, que penaliza sobretudo quem está começando.

Há ainda o que os trabalhadores sentem, e que não aparece nas estatísticas: quem atua em funções mais automatizáveis relata maior preocupação em perder o emprego, mesmo sem que a perda tenha se materializado.

O que pode mudar

"O futuro é difícil de prever. É bem possível que o aspecto da IA que privilegia habilidades específicas e aumenta a produtividade do trabalho desapareça à medida que os modelos continuarem a evoluir. A fronteira irregular pode se tornar mais suave. E, em certo ponto, o retorno da expertise humana pode diminuir", disse.

De volta ao topo: como o Google virou o jogo na corrida da IA

A maior fonte de incerteza, para ele, é a possibilidade de a IA automatizar a própria inovação — algo que nenhuma tecnologia anterior fez. "O motor de combustão interna não conseguia inventar novos modos de transporte", escreveu. "As leis de escala são difíceis de contestar. Os modelos vão melhorar. Muito. Espero que isso impulsione um crescimento mais rápido da produtividade, e talvez até sinais mais claros de autoaperfeiçoamento recursivo. Mas não espero que o desemprego esteja perceptivelmente mais alto daqui a um ano — ao menos não por causa da IA."

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