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Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 12h58.
Última atualização em 9 de setembro de 2026 às 16h32.
Como a IA afetaria os salários dos trabalhadores? Segundo o modelo da Anthropic, os salários médios aumentariam nos três cenários, mas os ganhos ficariam concentrados fora das ocupações de conhecimento. No cenário substancial, os salários dos trabalhadores de conhecimento ficariam estagnados; no extremo, cairiam mais de 10% até 2030.
A Anthropic divulgou nesta quarta-feira, 9, um modelo econômico que projeta três cenários distintos para o impacto da inteligência artificial (IA) sobre a economia americana até 2030 — do mais discreto ao mais transformador.
A ferramenta, batizada de "Cenários para o Nosso Futuro Econômico", foi construída pelo próprio time de Economia da empresa e é baseada em relatório técnico assinado por Anton Korinek, Chad Jones, Szymon Sacher, Tess Cotter e Peter McCrory.
O modelo trata toda a economia como um conjunto de tarefas — cada profissão é entendida como um "pacote" de atividades que a IA pode automatizar completamente, apenas potencializar, deixar intocadas, ou até criar do zero.
A humanidade vai acabar? Para especialista brasileiro, superinteligência ainda é ficçãoSegundo a Anthropic, somando todas as instâncias de tarefas realizadas por pessoas e máquinas nos Estados Unidos, o país gerou mais de US$ 30 trilhões em valor só no último ano — e é essa base que o modelo tenta projetar adiante.
No cenário "modesto", a IA tem impacto econômico parecido com o da internet: ganhos reais, mas dentro da normalidade histórica de novas tecnologias, chegando de forma gradual. Neste caso, o Produto Interno Bruto (PIB) americano em 2030 ficaria em US$ 34,1 trilhões — 1,6% acima do que seria sem a IA.
No cenário "substancial", a IA já é capaz de realizar metade de todo o trabalho de conhecimento até 2030, a maior parte de forma autônoma — mas ainda não é adotada para todas essas tarefas: a maioria do trabalho de conhecimento continua sendo feita sem IA.
A economia cresce ao dobro do ritmo normal, chegando a US$ 36,3 trilhões (+8,3%). Salários de trabalhadores de conhecimento ficam estagnados, enquanto outros trabalhadores veem ganhos reais.
Já no cenário "extremo", a IA se torna mais produtiva que humanos na vasta maioria das tarefas de trabalho de conhecimento, executando-as quase todas de forma autônoma e criando essencialmente nenhuma tarefa nova para pessoas. Esse cenário provavelmente exigiria sistemas de IA capazes de autoaperfeiçoamento recursivo, adotados rapidamente.
À medida que a IA se difunde, o crescimento anual do PIB chegaria a 15% ao ano — fazendo a economia dobrar de tamanho a cada 4,5 anos —, levando o PIB a US$ 44,4 trilhões (+32,4%). A sociedade ficaria muito mais rica como um todo, mas muito menos trabalhadores teriam empregos em funções de conhecimento, e o desemprego superaria níveis típicos de recessão.
Em agosto, a Anthropic conduziu uma pesquisa com mais de 10 mil americanos sobre suas expectativas em relação às capacidades futuras da IA, adoção e facilidade de encontrar novo emprego caso precisem trocar de ocupação.
Por que pesquisadores do Claude afirmam que há 10% de chance de a IA acabar com a humanidadeA resposta típica dos entrevistados implica um resultado próximo ao cenário "substancial": PIB 10% maior em 2030 do que seria sem IA, e taxa de desemprego geral subindo para cerca de 5%. Cerca de 10% dos respondentes têm visões alinhadas ao cenário extremo.
Segundo o modelo, nos cenários mais transformadores, trabalhadores de conhecimento — como programadores e atendentes de call center — podem precisar migrar para profissões menos expostas à IA, como eletricista ou enfermeiro.
No cenário extremo, à medida que grandes parcelas do trabalho de conhecimento são automatizadas mais rapidamente, os trabalhadores afetados podem ficar desempregados por período prolongado, já que trocar de profissão inteiramente é difícil e demorado — exige aprender novas habilidades e, mesmo assim, não garante rapidez na recolocação.
Nos três cenários, os salários médios sobem — mas esse aumento se concentra fora das ocupações de conhecimento.
Isso acontece porque, à medida que a IA aumenta a produtividade no trabalho de conhecimento, cresce a demanda por trabalho manual que se beneficia dessa produtividade — por exemplo, projetos e licenciamentos de infraestrutura física produzidos mais rápido podem aumentar o número de obras de construção, elevando a demanda (e os salários) de trabalhadores da construção civil.
No cenário substancial, os salários de trabalhadores de conhecimento ficam essencialmente estagnados; no cenário extremo, caem mais de 10% até 2030.
Hoje, de cada dólar que a economia americana produz, cerca de 60 centavos vão para trabalhadores e 40 centavos para capital. Segundo o modelo, essa proporção deve mudar: no cenário modesto, a fatia do trabalho cai discretamente, para 59,4% (alta de 0,6 ponto percentual para o capital).
A empresa faz questão de destacar as limitações da ferramenta, hoje em sua versão 1.0. O modelo não inclui respostas de política pública, ciclos de negócios, possíveis disrupções em mercados financeiros ou de demanda agregada, nem riscos catastróficos — e também não contempla cenários com robôs hipercapazes.
Revisores externos que avaliaram o relatório técnico, incluindo economistas como Daron Acemoglu (Prêmio Nobel de Economia de 2024) e David Autor, apontaram outras lacunas: o modelo não acompanha trabalhadores individuais, o que limita a precisão sobre os custos reais do deslocamento de emprego, e alguns questionaram se o cenário mais extremo deveria ser lido como um experimento mental, mais do que uma previsão factível.
Ele trabalhou no Claude e no ChatGPT — e abandonou a indústria de IA aos 27 anosSegundo a Anthropic, o modelo vai orientar tanto pesquisas que a própria empresa financia sobre disrupções no mercado de trabalho quanto propostas de política pública, com o objetivo declarado de garantir que os benefícios econômicos da IA sejam distribuídos de forma ampla pela sociedade — tanto nos Estados Unidos quanto no restante do mundo.